As políticas públicas na Amazônia
27 de Setembro de 2002
As políticas
públicas na Amazônia são um grande problema, talvez o maior,
para que as ações de manutenção das comunidades locais
obtenham sucesso. Enquanto programas como o PPG7 (programa piloto
de preservação de florestas tropicais financiado, em grande
parte, pelos países ricos que formam o grupo dos sete) tentam
rumar em uma direção, outros programas, também com o aval
governamental, caminham em sentido oposto.
O alerta, bastante divulgado pelas
organizações não-governamentais que atuam na Amazônia, também
ganha eco na comunidade científica. Esta semana, em conferência
na sede do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São
Paulo (IEA/USP), o geógrafo alemão Gerd Kohlhepp, do Instituto
Geográfico da Universidade de Tübingen, Alemanha, voltou a citar
este conflito de interesses. Bastante favorável ao PPG7, por
exemplo - uma iniciativa alemã que surgiu das reuniões da Eco-92
-, o cientista europeu mostrou em seu discurso algumas contradições
que surgem com os projetos traçados em programas como o Avança
Brasil, do Governo Federal. "Alguns megaprojetos pensados no
sentido da integração, da globalização, precisam ser bem
estudados. O relatório de impacto ambiental precisa ser bem-feito
para que as conseqüências não sejam negativas", disse
Kohlhepp aos ouvintes de sua conferência. Entre estas grandes
obras, o pesquisador citou a hidrovia do rio Madeira e o
asfaltamento de várias estradas que cortam a região amazônica
em locais onde a soja, por exemplo, está causando uma pressão
ambiental bastante grande.
A questão de aumentar a fronteira
agrícola dentro da floresta é uma das contradições amazônicas
apontadas pelo professor alemão, que há mais de 30 anos tem o
Brasil, e as florestas tropicais, como seu campo de estudo.
"Uma das intenções do governo com as obras de
infra-estrutura da Amazônia é aumentar a expansão da soja. Isto
merece atenção." Além da agricultura, vários grupos com
interesses nos setores de energia, transportes ou mineração vão
provocar conflitos com os projetos que pretendem desenvolver as
populações locais de forma sustentável.
A questão da alteração do Código
Florestal, lei 4.777, que está em discussão no Congresso
Nacional, é um dos conflitos mais escancarados existentes hoje na
sociedade brasileira. Enquanto o grupo das organizações não-governamentais
bate o pé na aprovação do texto escrito pelo Conselho Nacional
do Meio Ambiente, o Conama, outro grupo, formado principalmente
pelos donos de terras em áreas florestais, tenta alterar a medida
provisória 2.166. Pelo Código Florestal que ainda está em
vigor, 80% das florestas em terras privadas não podem ser
modificadas. A principal discussão, claro, está nesta alíquota
de preservação, que um grupo quer aumentar e o outro preservar.
A falta de um interesse único
quando se trata da manutenção de ações favoráveis ao
desenvolvimento sustentável acaba criando problemas, muitas
vezes, até dentro do próprio governo. A questão da transposição
do rio São Francisco é um claro exemplo destas divergências. O
projeto saiu das pranchetas do Ministério da Integração
Nacional, mas o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, ainda não
mostrou muito interesse em abraçar esta mesma causa.
Segundo o cientista alemão que
esteve esta semana na USP, os conflitos de interesses dentro da
Amazônia acabam até extrapolando o limite legal. E isto, na
maior parte das vezes, resulta nos distúrbios sociais provocados
pela questão agrária, pelo tráfico de drogas e até pelos casos
de corrupção como os que ocorreram recentemente na Sudam. O órgão,
inclusive, foi extinto pelo governo.
Conforme atestam os dados do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a floresta Amazônica
tem hoje 15% de sua área total destruída. Em números absolutos
isto representa 590 mil quilômetros quadrados, o que equivale a
uma área um pouco maior que a do território francês. A
cronologia do desmatamento nos últimos 30 anos revela um conflito
ainda maior. Os números apresentados no IEA mostram que até o
ano de 1975 apenas 0,6% do território amazônico tinha sido
desmatado. Em 1988 esta porcentagem havia subido para 9,2% antes
de chegar até os números atuais.
Na visão do cientista europeu, não
apenas a questão interna, mas também a externa contribuíram
para esta gigantesca destruição florestal. O adjetivo cabe,
principalmente, quando se coloca, frente a frente, o número de
quilômetros quadrados desmatados em relação ao tempo que este
processo ocorreu. Dentro do contexto dos anos 70, do milagre econômico,
por exemplo, a Amazônia era vista como um grande Eldorado. Tudo
que se pretendia fazer era explorar, ao máximo, aquela grande
reserva de recursos naturais. "E os próprios países
industrializados ainda precisam fazer uma reflexão. Muitos ainda
visualizam as florestas tropicais apenas como reserva de matéria-prima."
O PPG7, programa que entrou em ação
no ano de 1995, prevê um investimento em projetos de preservação
ambiental das florestas tropicais, e das suas comunidades, da
ordem de US$ 350 milhões. A Alemanha e a União Européia são as
maiores participantes. O Brasil vai entrar com 10% deste total. O
mecanismo escolhido pelo grupo do G7 foi o da doação. As ONGs,
por exemplo, que tiverem o seu crédito aprovado, vão retirar o
dinheiro direto de uma conta do programa, aberta no exterior. A
intenção dos doadores é terminar com entraves burocráticos e,
além disso, acelerar o resultado dos projetos escolhidos.
Conforme informa o cientista alemão,
os resultados conquistados são excelentes. Mesmo assim, algumas
falhas precisam ser corrigidas segundo o próprio Kohlhepp, e,
ainda mais, mesmo nos casos de sucesso ainda existe muita coisa a
ser feita. Três tópicos, segundo o conferencista, precisam ser
melhorados dentro das diretrizes do PPG7. Como existem várias
cidades dentro da floresta, uma maior preocupação com as questões
urbanas é um dos grandes déficits apresentados até agora. Os
pequenos produtores e a questão delicada do combate à pobreza são
outros dois problemas menos enfocados pelos programas nacionais
apoiados pelos países ricos nestes sete anos de funcionamento.
No cerne do conflito entre os
grupos "desenvolvimentistas" e os
"sustentabilistas" a mediação parece ser uma das
chaves da questão. O cientista europeu defende que todos os
projetos que interfiram de alguma forma na floresta apresentem
algum tipo de classificação. Dois itens precisam ser pesados. O
desenvolvimento que aquilo vai provocar e, de outro lado, os
custos ecológicos que aquilo terá. Se a retórica for deixada de
lado, e os preceitos ecológicos forem colocados à frente de
tudo, vários destes conflitos vão desaparecer. A questão, em
100% dos casos, será escolher os óculos certos.
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