Pesquisa sugere ligação entre amazônia e mata Atlântica
16/10/2002
Algum tipo de catástrofe atingiu os mamíferos da América do Sul
há cerca de 10 mil anos. Quem acha que os portugueses e seus
sucessores fizeram um belo estrago na fauna do subcontinente
deveria dar uma olhada na lista de desaparecidos dessa época:
ursos, cavalos, megatérios (preguiças terrestres com até 7 m de
comprimento), gliptodontes (tatus do tamanho de um Fusca),
macrauquênias (herbívoros que lembram vagamente lhamas de
tromba), tigres-de-dente-de-sabre. Nenhum mamífero maior que uma
anta ou uma onça-pintada escapou da hecatombe no Brasil.
O vilão desse desastre, ao contrário do que se acreditou por
muito tempo, pode ter sido uma variável normalmente benéfica: a
chuva. É o que sugere um grupo de pesquisadores que, de olho na
atual distribuição das espécies brasileiras, propõe o aumento
da umidade há 9.000 anos como o responsável pela extinção da
megafauna, os grandes mamíferos que dominaram as savanas do
Brasil até o fim do Pleistoceno (a Era Glacial).
Não que o grupo de pesquisadores, ligado ao projeto Biota, da
Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)
tivesse desde sempre a megafauna em mente. Sua idéia inicial
soava bem mais prosaica: colocar os mamíferos brasileiros de hoje
no mapa, traçando sua distribuição geográfica de forma
detalhada -um trabalho que, até agora, nunca havia sido feito
adequadamente. "As pessoas costumam achar que os mamíferos são
um grupo bem-resolvido, mas não é bem assim", diz Mario de
Vivo, pesquisador do Museu de Zoologia da USP e coordenador da
pesquisa.
"Os sujeitos que decidiram que a onça-pintada [Panthera onca]
era uma única espécie do Texas ao Rio Grande do Sul, por
exemplo, fizeram isso com base em coleções [de espécimes]
limitadas", explica o zoólogo.
"Muitos desses pesquisadores, trabalhando em museus
americanos ou europeus, não tinham acesso ao Brasil ou à
Argentina, que por muito tempo foram meio que fechados para quem
quisesse recolher amostras de fauna ou flora", afirma Vivo.
Foi para tentar desfazer esse problema histórico que a equipe
ligada ao Biota, contando com cerca de 40 pesquisadores espalhados
pela USP, Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pelo Museu
Nacional do Rio de Janeiro, começou a mapear com o máximo
cuidado possível a origem dos espécimes catalogados em museus
pelo país.
"A gente começou com a mata atlântica entre São Paulo e o
sul da Bahia, mas depois percebeu que não dava para dissociá-la
da mata atlântica mais ao norte, do cerrado, da caatinga e até
da parte oriental da Amazônia", conta Vivo. "No fim,
acabamos ficando com algo que se poderia chamar de Leste ou
Centro-Leste do Brasil", afirma o pesquisador.
O mapeamento caminhava bem, mas os dados recolhidos fizeram surgir
um estalo na cabeça da equipe: parecia haver ali um padrão de
endemismo, ou seja, de espécies que são exclusivas de um
determinado local ou bioma.
O outro grande interesse do grupo capitaneado pelo zoólogo da USP
era entender como a dinâmica da evolução havia gerado os grupos
de mamíferos encontrados hoje no país. Estudar padrões de
endemismo fornece a janela ideal para espiar como isso pode ter
acontecido: afinal, a teoria da evolução prediz que duas populações
ancestrais, separadas por acidentes geográficos ou diferenças
ambientais, tendem a se adaptar aos respectivos novos ambientes até
se tornarem espécies ainda aparentadas, mas divergentes.
A teoria dos refúgios, desenvolvida pelo zoólogo Paulo Vanzolini
e pelo geógrafo Aziz Ab'Saber, havia proposto um mecanismo como
esse para explicar por que as diferentes regiões da Amazônia estão
repletas de espécies endêmicas: durante as eras glaciais, quando
o clima sul-americano e mundial era muito mais seco e frio do que
é hoje, a floresta tropical recuou para pequenas ilhas de mata no
meio de uma imensa savana -isolando os animais em diversos bolsões
separados e gerando novas espécies.
Amazônia nordestina
Com a cabeça voltada para a interação entre os biomas, Vivo
e seus colegas perceberam não o isolamento, mas a continuidade
entre o leste amazônico e a floresta tropical do Nordeste -em
geral considerada uma parte da mata atlântica.
"Os endemismos da mata atlântica nordestina são
praticamente iguais aos do leste da Amazônia", afirma o
pesquisador. "Não houve nem tempo para acontecer especiação
[formação de novas espécies]", diz Vivo -o que reforçaria
uma união relativamente recente entre as duas regiões, ao contrário
do que acontece hoje, com uma região de caatinga entre as duas
matas. Nesse ponto, o registro fóssil parece estar do lado do zoólogo:
há cerca de 12 mil anos, na região hoje tomada pela caatinga,
vivia um macaco de 25 kg, o Protopithecus brasiliensis -que tem o
dobro do tamanho do maior primata existente hoje no Brasil, o
muriqui ou mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides).
"Um bicho desses se alimentava de folhas e jamais conseguiria
viver na caatinga", diz Vivo. Para o pesquisador, a distribuição
de espécies na caatinga dá outra pista sobre a sua idade
relativamente recente: "A caatinga tem pouquíssimas espécies
endêmicas", afirma. "Quase todas as espécies que
existem nela aparecem também no cerrado -como se fosse uma fauna
única de savana".
Nesse contexto, existiriam duas "matas atlânticas" -uma
quase amazônica e a outra, do sul da Bahia até São Paulo,
concentrando quase todas as espécies exclusivas do bioma, como as
diversas espécies de mico-leão.
"Quando você passa do trópico de Capricórnio [linha imaginária
que corta a cidade de São Paulo], o número de gêneros cai
bastante", afirma Vivo. Separadas dessas regiões de floresta
e impermeáveis à influência delas estariam duas formações
relativamente abertas e muito parecidas em termos de fauna: o
cerrado (que ocupa o grosso do Brasil Central) e a caatinga.
Savana fechada
Os fósseis mostram que o cerrado já foi ocupado por grandes
herbívoros que formavam a maior parte de suas espécies endêmicas,
assim como acontece até hoje na savana africana. Excluindo a hipótese
de um extermínio por mãos humanas no fim do Pleistoceno, que não
tem apoio nenhum do registro fóssil ou arqueológico
sul-americano, o que teria levado esses gigantes à extinção?
"O truque é a chuva", afirma Vivo. "Com a
precipitação mais elevada, a flora do cerrado não muda, mas ele
se fecha -vira o que se costuma chamar de cerradão", diz o
zoólogo. "As gramíneas desaparecem porque as árvores
maiores tapam a luz do sol. Os pastadores, que comem grama,
desaparecem, e os podadores [bichos como as preguiças gigantes ou
as macrauquênias, que se alimentavam de folhas de árvores"
simplesmente perdem o espaço para se locomover, porque eles são
grandes demais. E, sem os herbívoros, desaparecem também os
grandes carnívoros", afirma.
Essa mudança climática teria ocorrido há cerca de 9.000 anos
-quando o Pleistoceno, marcado pelas glaciações que tornaram o
clima mais seco e frio, chegou ao fim, com um pico de umidade que
se estendeu até cerca de 6.000 anos atrás. As espécies do
cerrado que sobreviveram à mudança, para os pesquisadores, foram
as capazes de se dar bem em formações fechadas- tanto que
algumas delas, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)
e o tatu-canastra (Priodontes giganteus), foram
"exportadas" para os outros biomas do país, enquanto o
inverso nunca aconteceu.
Para o paleontólogo Cástor Cartelle, da UFMG (Universidade
Federal de Minas Gerais), o modelo dá um peso maior às pistas já
sugeridas pelos fósseis. "No caso do desaparecimento da
nossa megafauna, é óbvio que um fator climático estava atuando.
Quem propõe como causa a ação humana é débil mental",
afirma. "Mesmo quando os nossos índios alcançaram uma
população mais densa [na época imediatamente anterior ao
Descobrimento], não há nenhum registro de extinção causada por
eles", diz Cartelle.
"O que sabemos dos fósseis sugere esse aumento de umidade,
mas essa visão, que é a minha, pode ser muito parcial. É fantástico
que a análise da fauna moderna possa se mostrar tão coerente com
essa hipótese", diz o pesquisador, que afirma acreditar num
aumento da umidade ligeiramente anterior ao proposto pelos
pesquisadores do Biota, há 10 mil anos.
Seja como for, Vivo ainda quer conseguir mais evidências (e datas
no registro fóssil) antes de considerar o modelo terminado.
"Precisamos pegar as datas propostas pelos paleontólogos e
ver como elas se encaixam no que nós propomos. Por enquanto, as
coisas parecem se encaixar de forma tão lógica que dá até para
desconfiar", brinca o zoólogo.
| RETORNAR INDEX | SUBIR DOCUMENTO |