Mesmo rentável,
camarão gera polêmica
Fortaleza, 2 de Outubro de 2002 - A
espécie Litopenaeus vannamei, camarão originário do Pacífico,
tem evitado que o Brasil - com seus 8,5 mil quilômetros de costa
litorânea - apresente resultados desfavoráveis na balança
comercial de pescados. Ainda assim, o seu cultivo adaptado às
condições climáticas do Nordeste gera polêmica, retardando a
expansão da atividade.
Dados da Câmara de Comércio
Exterior (Camex) indicam que dos US$ 217 milhões de pescados
exportados entre janeiro e agosto deste ano, 52% foram com vendas
do crustáceo - o percentual era de 29% em 1999. A produtividade média
no Nordeste é de 8 toneladas por hectare/ano, enquanto os países
com melhor desempenho não chegam a 4 toneladas por hectare/ano,
segundo Sérgio Melo, gerente nacional do Programa Especial de
Exportações (PEE), do Setor Pescados.
"O cultivo do vannamei está
salvando a balança comercial de pescados", diz Alexandre
Spinola, coordenador do Departamento de Pesca e Aqüicultura (DPA)
do Ministério da Agricultura. Apesar do reconhecimento, a espécie,
que proporciona rendimento de até R$ 180 mil por hectare/ano, não
é considerada bem-vinda por ambientalistas preocupados com a
sobrevida dos manguezais. Mesmo a tentativa em curso de levar
carcinicultura para o árido sertão divide opiniões.
Impasse
Enquanto não resolve o impasse, o
Brasil mantém uma inserção tímida nesse mercado. O DPA estima
que as exportações do crustáceo poderiam render até U$$ 21
bilhões por ano. Em 2001, as vendas externas somaram US$ 103 milhões.
Em 1998, os cultivos nacionais representavam apenas 4,2 mil
hectares - na mesma época, Honduras, com 200 quilômetros de
litoral, desenvolvia a carcinicultura em 12 mil hectares.
Nos últimos quatro anos, a área
de cultivo aumentou. Hoje é estimada em 10 mil hectares, distribuídos
em 507 fazendas no Nordeste. Mas a produção poderia estar numa
patamar mais elevado, se houvesse uma legislação nacional específica
para o setor. Há mais de dois anos, o Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama) tenta aprovar uma resolução para unificar a
regulamentação da carcinicultura em vários estados.
"Cerca de 500 projetos
aguardam, há mais de um ano, o licenciamento ambiental",
afirma Melo. Esses investimentos poderiam incorporar mais 10 mil
hectares de cultivos no Nordeste, que reponde por cerca de 97% da
atividade no País.
Além de render mais divisas, a
atividade é considerada relevante para a geração de empregos. O
custo de criação de cada posto de trabalho na carcinicultura é
estimado em U$$ 13,88 mil, ante US$ 66 mil no setor de turismo ou
US$ 91 mil na indústria automobilística. O mercado também é
considerado estimulante. Em 2001, por exemplo, o Brasil exportou
metade da produção para os Estados Unidos, mas o volume
correspondeu a 2,32% dos US$ 3,63 bilhões das compras
norte-americanas.
Ambientalistas
As perspectivas de mercado e a geração
de emprego e renda, entretanto, não seduzem os ambientalistas.
Eles alegam que a carcinicultura pede em troca um preço ainda
maior, representado pela ameaça aos manguezais - considerados o
segundo ecossistema mais em rico em biodiversidade do planeta.
"O manguezal só perde em importância para os bancos de
corais", diz Alberto Alves Campos, diretor-presidente da ONG
Aquasis.
Campos, porém, não condena a tendência
recente de instalar cultivos de camarão em áreas distantes dos
estuários marinhos - experiência que vem se disseminando rápido,
especialmente no Ceará e Rio Grande do Norte. "O consórcio
de carcinicultura com a criação de tilápia e a fruticultura
irrigada pode ser uma opção para essas regiões."
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