Processo
evolutivo nas formas de conservação do leite
Outubro de 2002
Das garrafas de
vidro que o leiteiro deixava na porta das residências até o
desenvolvimento do prático sistema longa-vida, o leite passou
por um significativo processo evolutivo nas formas de conservação
no decorrer do século passado. Além de possibilitar uma ampliação
astronômica de consumo, essa conveniência de dispor de leite
à vontade ampliou consideravelmente o número de receitas em
que o produto entra como matéria-prima principal ou
coadjuvante. "É um ingrediente versátil. Permite preparar
tanto pratos salgados quanto doces, que podem ser quentes ou
frios", diz a nutricionista e culinarista Neide Rigo.
Nem sempre houve toda essa abundância.
Alimento primordial, o leite acompanha o homem desde o
nascimento. Além do leite materno, os primatas ancestrais
vislumbraram a oportunidade de obter leite de outros animais.
Por volta de 9.000 a.C. os hominídeos organizados em sociedade
e dedicados ao pastoreio começaram a ordenhar animais e usar o
leite como alimento cotidiano. "Segundo estudos arqueológicos,
as ovelhas foram os primeiros animais domesticados que serviram
de alimento. Ofereciam além do leite, a carne, a lã e o
couro", explica Midori Ishii, professora aposentada da
Faculdade de Saúde Pública da USP. "As primeiras criações,
de acordo com Charles B. Heiser Jr., autor de ‘Sementes da
Civilização’, ficavam na Ásia. A rápida utilização se
deu porque o leite é um alimento pronto para o consumo."
Dois mil anos mais tarde, houve a domesticação das cabras na
região no Oriente Médio, onde hoje se situam Palestina e Irã.
Em seguida, começaram a se formar os primeiros rebanhos bovinos
nas áreas temperadas da Europa, norte da África e partes da Ásia.Uma
outra possibilidade é apontada por Elizabeth Torres, engenheira
agrônoma, com mestrado e doutorado na área de alimentos,
professora associada do Departamento de Nutrição da USP,
proveniente do relato de Jean-Louis Flandrin e Massimo
Montanari, em "História da Alimentação". Segundo
ela, há indícios de que o leite de égua fermentado usado
pelos mongóis talvez tenha precedido o início da agricultura e
da domesticação de animais.
Seja de bovinos, ovinos, eqüinos
e caprinos, o leite nunca mais saiu do cardápio humano. As
origens da palavra leite estariam provavelmente em
"mirjati", expressão indo-européia anterior à língua
latina. Seria o mesmo que esfregar, ordenhar. O ato de extrair
leite do animal persiste em outros idiomas da Europa do norte.
"Milk" teria como raiz a palavra alemã
"melki" ou "melkan", que também significa
ordenhar.
Quase que instantaneamente, os
representantes do Neolítico perceberam que em ambientes de
altas temperaturas o leite se deteriorava facilmente. Não é
difícil concluir que os precursores da ordenha devem ter comido
muitas pastas de leite de sabor desagradável. Também é
curiosa a maneira como começaram a se produzir os laticínios.
"Está comprovado que a coalhada era vendida desde o século
XII nas ruas de Constantinopla, mas esse laticínio só foi mais
difundido com a chegada dos turcos, cuja alimentação na origem
é a de um povo nômade", diz Elizabeth Torres.
A palavra
iogurte, porém, teria nascido nos Bálcãs. Os escandinavos
se referiam ao iogurte como "taetta" e os indianos o
chamavam "dahi". Esses mesmos povos perceberam que com
os coalhos mais rugosos podiam obter uma ricota.
A arte de fazer queijos
tem explicação diferente. Alguns ancestrais nômades
perceberem que podiam armazenar e transportar leite no estômago
de animais. "Dentro dessas bolsas improvisadas há a
renina, uma enzima que catalisa a formação do coágulo",
explica Neide Rigo. Assim, surgiram os queijos, que,
paulatinamente, foram se transformando em alimentos gastronômicos.
Desde os sumérios, uma prática
comum era oferecer leite e seus derivados aos deuses. "Por
volta de 2100 a.C., Gudéia, príncipe da cidade de Lagash, ao
inaugurar o templo que mandara construir para o deus Ningirsu
mandou servir à entidade carne de vaca e de carneiro, pão
fresco, leite, cerveja e vinho no raiar do dia", conta
Elizabeth Torres.
Apesar de poder ser tomado ao
natural, o leite é um alimento frágil. Iogurte, ricotas e
queijos eram formas de prolongar sua longevidade. A partir do século
XIX, o grande desenvolvimento urbano que se processou foi
acompanhado de uma formidável industrialização. O leite
condensado, por exemplo, surgiu na França em 1828 como uma
forma de conservação do produto. "O método consistia em
aquecê-lo a uma temperatura de 120º C num recipiente fechado,
submetido a pressão", explica a nutricionista Maria Luiza
de Brito Ctenas, no livro "A Vitória do Leite", de
sua autoria para a Tetra Pack. "Primeiro surgiu o leite
evaporado líquido e, imediatamente, passou a ser adoçado na
forma de leite condensado popular no Brasil." Nos Estados
Unidos, Gail Borden criou o leite em pó a fim de facilitar seu
transporte e armazenamento. Ao patentear sua descoberta em 1865,
não obteve retorno comercial. Com a guerra civil dos Estados
Unidos, porém, Borden enriqueceu.
A invenção dos processos de
refrigeração e, finalmente da geladeira doméstica, pelo alemão
Karl Van Linde, numa variação do processo criado pelo
americano John Gorrie, validou o leite in natura por mais tempo.
Os processos de pausterização ampliaram sua durabilidade. Mas,
neste caso, ainda se dependia da refrigeração. Em meados do século
XX foi criada a ultrapasteurização, conhecida pela siga UHT
(Ultra High Temperature). O sueco Ruben Rausing notou que era
possível manter o leite íntegro se conservado em embalagens
hermeticamente fechadas, livres de microorganismos. Nascia o
leite de caixinha, o longa-vida.
Tanto cuidado na conservação
decorre das qualidades nutritivas do leite. "Ele
proporciona proteínas excelentes, vitamina D, cálcio,
colesterol e possui o teor de gordura original em torno de
3%", explica Elizabeth Torres.
Do ponto de vista culinário, tem
múltiplas aplicações. "Nos pratos salgados, uma das
combinações mais felizes é com as especiarias noz-moscada ou
macis", recomenda a especialista em boa mesa Neide Rigo.
Segundo ela, há possibilidade de fazer diversos molhos, doces
como o crème anglaise ou salgados como o béchamel e suas variações.
Entre os ingredientes que se beneficiam com a presença láctea
estão as batatas, couve-flor e legumes de maneira geral.
Resultam em deliciosos purês e algumas sopas e pratos
ensopados, principalmente os feitos com frutos do mar. A
nutricionista lembra que não é muito comum combiná-lo, na
forma in natura, com carnes, ainda que o lombo de porco no leite
(maiale al latte) seja um clássico da culinária italiana.
Neide Rigo atribui o maior
sucesso culinário do leite às sobremesas. No Brasil elas são
inúmeras, desde os doces lisos aos talhados, fluidos, de pasta,
de cortar, às mais elaboradas como manjares, arroz doce,
pudins. Entre os doces regionais estão a ambrosia, a canjica e
o cuscuz de tapioca, cuja receita originária do Espírito Santo
e registrada em "A Vitória do Leite" ilustra esta página.
Na Espanha, a leche frita , uma espécie de manjar empanado e
frito em azeite, é um prato típico do norte, principalmente da
Cantabria e do País Basco. "Esse doce surgiu para evitar
que o leite se estragasse quando havia sobras", diz Neide.
(Fim de Semana/Página8)(Arnaldo
Lorençato)