Da uva ao
vinho, parte I (os brancos)
11 de Outubro de 2002 - "O
enólogo é quem, diante do vinho, toma decisões e o enófilo
é quem, diante das decisões, toma vinho!" Adolfo Lona (enólogo).
Para melhor apreciar este nobre
fermentado é importante que conheçamos, em linhas gerais, como
se dá o processo de transformação da uva, desde a colheita,
até seu engarrafamento como vinho.
A grande diversidade de vinhos
existentes não se obtém apenas da variedade de castas (tipos
de uva), solos e climas, mas também de muitas variações na
forma de sua elaboração. A linha mestra deste processo é,
contudo, semelhante para qualquer tipo de vinho e a veremos a
seguir, começando pelo brancos.
A vinificação tem como
protagonista o enólogo. É ele quem define qual o melhor
terreno, que castas plantar, quando e como colher, como fermentá-las,
como misturá-las, se e por quanto tempo o líquido será
amadurecido em barris de carvalho, etc.
A colheita ou vindima é a
primeira etapa. As uvas devem ser colhidas no momento certo,
normalmente no fim do verão. Quanto mais artesanal e cuidadosa
for melhor será o estado da matéria-prima. Conforme as condições
do clima pode-se antecipar a colheita para evitar apodrecimento
dos cachos ou retardá-la para aumentar o amadurecimento,
concentrando açúcares, sabores e aromas na fruta.
O próximo passo é a extração
do suco ou mosto. É importante notar que a cor dos vinhos
tintos provém unicamente das cascas das uvas e é possível
separá-las esmagando-se levemente os bagos. Por este processo
pode-se obter um blanc de noirs - vinhos brancos a partir de
uvas tintas, bastando não misturar suas cascas ao mosto. O
champagne é o exemplo mais famoso.
Por sua cor e sabor delicados, na
elaboração de vinhos brancos normalmente não são utilizadas
cascas, sementes e engaços (caule que prende as uvas ao cacho).
Estes provocariam um amargor indesejável. Então, para obtenção
do mosto branco, é necessário retirar os engaços e esmagar
cuidadosamente os bagos. A "desengaçadeira", um
cilindro dentado que ao girar retira os bagos dos cachos, faz o
serviço, rompendo os grãos sem esmagar as sementes. Durante
este processo a parte mais nobre do suco, o "mosto
flor", escorre e é separada. O restante (misto de polpa,
cascas e sementes) passará por prensas hidráulicas controladas
eletronicamente. O resultado desta primeira prensagem poderá
ser misturado ao mosto flor, para elaboração dos melhores
vinhos ou se destinar a vinhos de segunda categoria ou mesmo
para produção de destilados como a bagaceira e o cognac, ou de
vinagre.
O suco destinado à produção de
vinho receberá a adição de leveduras (agentes da fermentação)
e anidrido sulfuroso (SO2), conservante e anti-séptico
fundamental para a não oxidação de qualquer vinho. Neste
momento se inicia a fermentação alcoólica, reação química
em que o açúcar natural da uva é transformado em álcool etílico.
Esta pode acontecer em grandes cubas de aço inox, de preferência
refrigeradas (de 18 a 22º C), para que o frescor e aromas típico
dos brancos não se percam, ou ainda, diretamente em barricas de
carvalho, como muitos chardonnays do Novo Mundo, que assim
ganham cor dourada e aromas típicos como o de baunilha.
Existe uma tendência natural de
alguns vinhos de sofrerem uma segunda fermentação. Trata-se de
um desacidificação, chamada de "fermentação malo-lática".
Nela o ácido málico (da maçã) se transforma em ácido lático
(do leite), menos agressivo ao paladar. Esta é mais desejada
nos tintos, normalmente mais ásperos e usualmente evitada nos
brancos, beneficiados pela vivacidade conferida pela acidez.
O próximo passo (opcional) é o
corte, que consiste em misturar vinhos diferentes para obter um
resultado mais equilibrado e complexo. Vinhos compostos somente
por um tipo de uva são chamados de varietais, os demais são os
cortes ou assemblages. A mistura é feita em grandes tanques por
onde os vinhos passam antes de ser engarrafados. O vinho branco,
que normalmente é consumido mais jovem e fresco, estará então
pronto para ser recebido por nossas taças.
O processo descrito acima é uma
simplificação didática. Existem outras etapas, como o
clareamento, filtração, chaptalização, estabilização,
correções do mosto, etc. Na semana que vem será abordada a
elaboração dos tintos, com suas peculiaridades como maceração
e amadurecimento prolongado em barris de carvalho.
(Fim de Semana/Página8)