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Criança chinesa brinca nas mediações da cidade de Fengdu, às margens do rio Yang-Tsé, área que deverá ser inundada pela usina hidrelétrica de Três Gargantas, projetada para ser a maior do mundo e uma das mais criticadas por seus efeitos socioambientais |
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As pessoas que não vêm
prestando muita atenção à discussão em torno da biotecnologia humana
talvez pensem que a principal questão em pauta nesse debate diga
respeito ao aborto, já que os adversários mais veementes da clonagem,
até agora, têm sido os chamados defensores do direito à vida (ou
seja, adversários do aborto), que se opõem à destruição de embriões.
Mas existem razões importantes para que a clonagem e as tecnologias genéticas
que a seguirão sejam motivo de preocupação para todas as pessoas,
religiosas ou não, e sobretudo para aquelas que se preocupam em
proteger o ambiente natural. Pois a tentativa de dominar a natureza
humana por meio da biotecnologia será ainda mais perigosa e repleta de
consequências do que os esforços feitos pelas sociedades industriais
para controlar a natureza não-humana por meio de gerações anteriores
de tecnologia.
Se há uma coisa que o movimento ambientalista nos ensinou, nas duas últimas
gerações, é que a natureza é um todo complexo. As diferentes partes
de um ecossistema são mutuamente interdependentes, de uma maneira que
frequentemente não conseguimos compreender, e os esforços humanos para
manipular certas partes dele vão gerar uma multidão de consequências
não-pretendidas que vai retornar para nos assombrar.
Assistir hoje a um dos filmes feitos nos anos 1930 sobre a construção
da barragem Hoover ou da Tennessee Valley Authority (órgão federal
americano criado na década de 1930 para desenvolver o potencial hidrelétrico
do rio Tennessee e que acabou construindo 26 barragens no rio e em seus
afluentes) é uma experiência estranha. Os filmes têm um tom ao mesmo
tempo ingênuo e ligeiramente stalinista, celebrando a conquista da
natureza pelo homem e gabando-se da substituição dos espaços naturais
por outros feitos de aço, concreto e eletricidade. Essa vitória sobre
a natureza teve vida curta: na última geração, nenhum país
desenvolvido empreendeu um grande projeto novo de hidrelétrica,
exatamente porque hoje já compreendemos as consequências ecológicas e
sociais devastadoras geradas por tais empreendimentos. Na verdade, o
movimento ambientalista vem se esforçando para convencer a China a
desistir da construção da tremendamente destrutiva barragem das Três
Gargantas.
Se o problema das consequências não-pretendidas é sério no caso dos
ecossistemas não-humanos, será muito pior no campo da genética
humana. De fato, o genoma humano já foi comparado a um ecossistema, em
razão da maneira complexa pela qual os genes interagem uns com os
outros. Estima-se hoje que há apenas cerca de 30 mil genes no genoma
humano, muito menos do que os 100 mil que, até recentemente, se
acreditava que houvesse. Não é um número tão maior assim do que os
14 mil genes existentes na mosca-das-frutas ou dos 19 mil que possui um
verme nematóide (C. elegans) e indica que muitas das capacidades
humanas são controladas pela interação complexa de vários genes.
Os primeiros alvos da terapia genética serão enfermidades
relativamente simples causadas por um único gene, tais como a doença
de Huntington ou o mal de Tay-Sachs. Muitos geneticistas acreditam que a
causalidade genética de comportamentos e características de ordem
superior, tais como a personalidade, a inteligência ou mesmo a altura,
é tão complexa que jamais seremos capazes de manipulá-la. Mas é
precisamente aqui que mora o perigo: nós nos sentiremos constantemente
tentados a pensar que conhecemos essa causalidade melhor do que a
conhecemos na realidade e enfrentaremos surpresas ainda mais desagradáveis
do que enfrentamos quando tentamos conquistar o ambiente natural não-humano.
Nesse caso, a vítima de um experimento fracassado não será um
ecossistema, mas uma criança humana cujos pais, movidos pelo desejo de
dotá-la de mais inteligência, vão onerá-la com uma propensão maior
a sofrer de câncer, de fraqueza prolongada na velhice ou de algum outro
efeito colateral totalmente inesperado, que se manifestará muito
depois.
Ouvir as pessoas da indústria da biotecnologia falarem sobre as
oportunidades que se abrem com a conclusão do sequenciamento do genoma
humano é, de maneira estranha, um pouco como assistir àqueles velhos
filmes de propaganda da barragem hidrelétrica de Hoover: há uma
confiança tingida de soberba em que a biotecnologia e a inventividade
científica vão poder corrigir os defeitos da natureza humana, eliminar
as doenças e, quem sabe, até mesmo algum dia proporcionar ao ser
humano o acesso à imortalidade. Vamos terminar como uma espécie
superior, porque compreendemos quão imperfeita e limitada é nossa
natureza.
Acredito que o ser humano é, em grau ainda maior do que os
ecossistemas, um todo natural complexo e coerente, cuja origem evolutiva
nós nem sequer começamos a compreender. Mais do que isso: possuímos
direitos humanos exatamente em função dessa natureza especificamente
humana. Como disse Thomas Jefferson no final da vida, os americanos
gozam de direitos políticos iguais porque a natureza não fez com que
determinados seres humanos nascessem com uma sela nas costas, prontos
para serem cavalgados por seus superiores. Uma biotecnologia que procure
manipular a natureza humana não apenas correrá o risco de desencadear
consequências imprevistas como pode solapar a própria base dos
direitos democráticos iguais.
Como, então, defender a natureza humana? As ferramentas para isso são,
essencialmente, as mesmas usadas para proteger a natureza não-humana:
procurar, por meio da discussão e do diálogo, fixar normas a serem
seguidas e usar o poder do Estado para regulamentar a maneira como a
tecnologia será desenvolvida e utilizada pelo setor privado e pela
comunidade científica.
A biomedicina já é, claro, fortemente regulamentada, mas existem
brechas enormes nos órgãos federais americanos cuja autoridade se
estende à biotecnologia. A Food and Drug Administration dos EUA só
pode regulamentar alimentos, medicamentos e outros produtos médicos com
base em sua eficácia e sua segurança de uso. Ela é proibida de tomar
decisões com base em considerações éticas e possui jurisdição
fraca ou inexistente sobre procedimentos médicos como a clonagem, o
diagnóstico genético prévio à implantação (pelo qual os embriões
são testados para a averiguação de suas características genéticas,
antes de serem implantados no útero) e a engenharia de células da
linhagem germinativa (na qual os genes do embrião são manipulados de
maneira a serem herdados pelas gerações futuras).
Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) criaram diversas regras
cobrindo a realização de experiências com seres humanos e outros
aspectos da pesquisa científica, mas sua autoridade abrange apenas as
pesquisas realizadas com financiamento federal, deixando livre a indústria
da biotecnologia privada. Só as empresas americanas de biotecnologia
gastam US$ 10 bilhões anuais em pesquisas e empregam 150 mil pessoas.
Outros países estão se esforçando para criar legislação que
regulamente a biotecnologia humana. Um dos dispositivos legislativos
mais antigos é o do Reino Unido, que criou a Agência de Embriologia e
Fertilização Humana há mais de dez anos, para regulamentar as experiências
com embriões. Vinte e quatro países já proibiram a clonagem
reprodutiva, incluindo Alemanha, França, Índia, Japão, Argentina,
Brasil, África do Sul e Reino Unido. Em 1998, o Conselho da Europa
aprovou um Protocolo Adicional a sua Convenção sobre os Direitos e a
Dignidade Humanos com Relação à Biomedicina, proibindo a clonagem
reprodutiva humana. O documento já foi assinado por 24 dos 43 países
membros do Conselho. Alemanha e França propuseram que a ONU redija uma
convenção global para proibir a clonagem reprodutiva.
Qualquer pessoa que acredite na importância de defender a natureza não-humana
contra a manipulação tecnológica deve acreditar igualmente na importância
da defesa da natureza humana. O movimento ambientalista europeu se opõe
com mais firmeza à biotecnologia do que seu equivalente nos Estados
Unidos e conseguiu barrar totalmente a proliferação de alimentos
transgênicos no continente. Mas, em última análise, os transgênicos
são apenas o primeiro tiro disparado numa revolução muito mais
prolongada, e suas consequências terão alcance muito menor do que as
das biotecnologias humanas que estão surgindo. Algumas pessoas
acreditam que, em vista da depredação causada pelo homem na natureza não-humana,
esta última merece a proteção mais vigilante. Mas, no final das
contas, ambas fazem parte do mesmo todo. Modificar genes de plantas
afeta só o que cultivamos e comemos; modificar nossos próprios genes
afeta quem somos.
A natureza -tanto o ambiente natural que nos cerca quanto a nossa própria-
merece uma abordagem baseada no respeito e no cuidado, não na dominação
e no controle.
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