
Experimento feito nos EUA mostra que os
lagartos se acasalam com parceiros que dominam o melhor território
Lagarto fêmea escolhe macho pelas posses
Universidade Cornell
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Três tipos
de macho: o "machão" (à esq.), o "fiel"
(centro) e o "ricardão", que parece com a fêmea |
RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL
Fêmeas que normalmente fariam sexo com os machos maiores e donos dos
melhores territórios se mudaram rapidinho para o território de machos
menores, assim que eles passaram a ser proprietários dos melhores
locais. Mas mesmo assim elas não deixam de fazer sexo com os machos
mais vistosos, havendo a chance.
Essas fêmeas "interesseiras" foram descobertas na Califórnia,
Costa Oeste dos EUA. Pertencem à espécie de lagarto-pintado conhecida
pelo nome científico Uta stansburiana, um animal pequeno, do tamanho de
uma lagartixa.
A descoberta resultou de um experimento feito por dois pesquisadores da
Universidade da Califórnia, Ryan Calsbeek e Barry Sinervo,
respectivamente dos campi de Los Angeles e Santa Cruz. Eles notaram que
os machos mais fortes e aptos viviam em territórios com mais rochas.
Essas pedras servem para o bicho se esconder dos predadores e têm uma
função vital para regulação da temperatura -eles ficam
"lagarteando" em cima das pedras, se aquecendo ao Sol, e para
resfriar-se vão para a sombra, também provida por uma boa pilha de
pedras.
Pedras lisas para tomar sol, com boa visão do terreno à volta, boa
sombra e um macho vistoso tomando conta, são irresistíveis para as fêmeas.
Cobras, principais predadores dos lagartos, aparecem mais nos terrenos
piores.
Calsbeek e Sinervo fizeram o estudo no próprio deserto, transformando o
terreno ao mudar pedras do território dos machos grandes para as áreas
dos machos mais fraquinhos.
O resultado foi avassalador. Houve uma debandada de fêmeas para os
novos terrenos melhorados -37 das 51 fêmeas observadas se mudaram para
o território dos machos menores, enquanto nenhum dos 54 machos deixou
seu território inicial.
As fêmeas e os machos da espécie Uta stansburiana são altamente promíscuos:
81% dos conjuntos de ovos mostraram paternidade múltipla. O sêmen dos
machos armazenado na fêmea pode resultar em novas ninhadas, mesmo após
sua morte.
Os pesquisadores usaram testes de paternidade de DNA para mostrar que,
apesar de terem abandonado o território dos machos grandes, as fêmeas
continuavam copulando com eles. E mais: usavam o sêmen dos machos
grandes para produzir filhotes machos, e o dos machos pequenos para
produzir filhotes fêmeas.
"O reconhecimento do esperma é facilitado em muitas espécies por
apenas uns poucos genes expressados como sinais de proteínas na superfície
do gameta [a célula sexual, espermatozóide ou óvulo]. É provável
que os espermatozóides X e Y [que podem dar origens a machos, XY, ou fêmeas,
XX] expressem diferentes sinais que permitem à fêmea diferenciá-los.
Mas nós não demonstramos esse mecanismo", diz Calsbeek.
Na espécie estudada, há três tipos de machos. Os "machões"
com pintas alaranjadas na garganta são altamente agressivos e controlam
territórios com um grande "harém" de fêmeas. Os
"certinhos" de garganta azul são "fiéis" a uma ou
poucas fêmeas. E os "ricardões" de garganta amarelada, cor
similar à das fêmeas, aproveitam a semelhança para entrar nos territórios
de outros machos e copular com as fêmeas.
O estudo, publicado hoje na revista "PNAS" (www.pnas.org),
foi feito com machos de garganta azul, que constituíam 90% dos lagartos
no local.
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