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Ossos de anta encontrados num dos abismos da gruta Cuvieri, sítio paleontológico da região de Lagoa Santa, que ajudaram a compor quadro da sucessão de faunas que acompanhou a chegada dos primeiros seres humanos à área |
Essa preguiça aqui caiu
"de borco", com o rabo virado para cima." A frase, quase
inaudível, vem do fundo de um buraco de 4,5 m. Oficialmente, esse é o
"locus 3" de uma caverna na região de Lagoa Santa (a cerca de
50 km de Belo Horizonte), que abriga o mais importante conjunto de sítios
arqueológicos da América. Depois de mais de um século e meio de
exploração científica, Lagoa Santa recebeu, durante todo o mês
passado, um grupo de pesquisadores cuja meta final é reescrever a pré-história
do continente. Em tempo: "de borco", para quem não é do
interior de São Paulo e de Minas Gerais, quer dizer de barriga para
baixo. E a preguiça em questão não é um bicho qualquer, desses que
se encontram nas florestas brasileiras de hoje. Trata-se de um megatério,
grande demais para subir mesmo nas maiores árvores: uma preguiça terrícola
de 2,5 m que rondava as savanas do Brasil Central há uns 10 mil anos. A
voz que especula sobre o destino final da criatura é do antropólogo
Walter Neves, que sorri depois de voltar do buraco com a ajuda de uma
escada: "Lindo, não é? Eu nunca tinha escavado um bicho
extinto". Isso não é surpresa alguma, já que a especialidade de
Neves -pesquisador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP-
são os primeiros habitantes humanos do continente americano, e não fósseis
de animais. Foi estudando um crânio da região, encontrado num dos
abrigos de Lapa Vermelha e hoje conhecido como "Luzia", que o
antropólogo começou a popularizar seu modelo de povoamento da América,
que postula a chegada de dois povos fisicamente bem distintos ao
continente, o primeiro há 14 mil anos. Contudo, a palavra de ordem
entre os mais de 30 pesquisadores que se reuniram em Matozinhos, município
de 30 mil habitantes da região de Lagoa Santa, é unir as forças e as
técnicas até então díspares da paleontologia e da arqueologia. Com o
apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo), a meta do grupo é montar o quebra-cabeças deixado pela
passagem dos primeiros seres humanos por ali, do clima à morfologia
craniana, da produção de artefatos à fauna com a qual eles
conviveram.
Fauna exuberante
No meio desse caminho, os paradoxos vão aparecendo. Lagoa Santa, a região
mais rica do continente em restos humanos antigos, pode ao mesmo tempo
ter sido ocupada para valer há apenas 9.600 anos. Os primeiros
brasileiros, embora tenham convivido com uma fauna exuberante de grandes
mamíferos que incluía os megatérios, ou preguiças gigantes,
provavelmente não caçavam essas criaturas como seus primos da América
do Norte. E Luzia, o ser humano mais velho do continente, com 11.500
anos de idade, pode ser o único fóssil com essa idade na região,
preservado apenas por um golpe de sorte. No momento, a equipe do sítio
paleontológico Cuvieri (que ganhou o nome dos dois espécimes da preguiça
gigante Catonyx cuvieri já encontrados ali) não parece muito
preocupada com esse emaranhado de enigmas. Os ossos do bicho, definido
pelo geólogo Luís Beethoven Piló como "um bezerrão" (200
kg quando vivo), são cuidadosamente expostos e desenhados, de um jeito
nem um pouco comum para uma exploração paleontológica. O tamanho e o
peso do fêmur do animal não deixam esquecer por que os naturalistas do
século 18 o chamaram de megatério, ou "grande fera", mas ele
sai do buraco acolchoado e acondicionado como um bebê no berço (no
caso, uma bandeja de plástico). "O paleontólogo está interessado
no bicho, em identificar espécies. Nós estamos interessados em ver
como é que os conjuntos de fauna variam ao longo do tempo",
explica Neves. Por isso o cuidado quase neurótico em expor tudo
gradativamente e desenhar osso por osso, uma técnica que ele classifica
de "chinesa" e que jamais seria aplicada a um sítio paleontológico
como o Cuvieri. "Como é uma gruta pequena e escura, é o tipo de
local que o animal procura quando está doente, perdido ou para se
esconder de um predador. Por isso, a qualquer momento a gente pode topar
com uma ponta de flecha encravada ou algo do tipo." Neves conclui
invertendo o raciocínio: "Se um dia um tigre-de-dente-de-sabre
comeu um homem de Lagoa Santa e levou para lá, a gente pode encontrar
hominídeos no meio dessa fauna".
Ossos do ofício
Para Piló, a gruta é o lugar ideal para estudar essa teia de relações.
"Só tem três opções: ou cai na direita, ou cai na esquerda, ou
cai lá no final", brinca ele, apontando para as três fendas, ou
"loci" (plural de "locus"; pronuncia-se "lóqui"),
para dentro dos quais os pesquisadores tiveram de descer usando
equipamento de alpinismo, para escavar. "É uma jazida paleontológica
excepcional e deve nos dar uma boa leitura do final do Pleistoceno e do
Holoceno [época geológica atual, que começou há 10 mil
anos"", afirma o pesquisador, ressaltando que os
"loci" são sistemas fechados -o que entra lá não sai. Pela
quantidade de fragmentos, dá para imaginar: são mais de 800 só no
"locus 2", o mais acessível para quem vem de fora e que
antigamente devia receber sedimentos de um curso d'água. Ali a fauna
ainda é a moderna, mas os outros dois "loci" renderam as duas
preguiças, membros da megafauna pleistocênica, sem muito esforço,
embora uma anta (Tapirus terrestris) estivesse por cima da segunda
preguiça. Grutas calcárias como a Cuvieri, assim como os abrigos
rochosos muito maiores que povoam a zona rural dessa parte de Minas,
foram formados quando a região inteira estava debaixo de mar, há mais
de 600 milhões de anos. Uma dinâmica complicada de lugares secos e úmidos
moldou uma série de microambientes nada previsíveis no carste de Lagoa
Santa, como a região é conhecida geologicamente. "No carste a
drenagem [de rios" é quase sempre subterrânea", explica
Pedro Lobo Martins, médico e aluno de mestrado de Neves em antropologia
física. "Nas regiões onde aflora o lençol freático você tem
lagos, todos mais ou menos temporários. E eles não têm relação
direta com a estação seca ou chuvosa. Isso depende mais dos sumidouros
[lugares por onde a água escapa para o subsolo]. Às vezes, se entope
um sumidouro, mesmo na estação seca a água sobe." Nesse sistema
instável, basta andar 50 metros para sair de uma depressão seca para
outra que agora é uma lagoa.
À sombra de Lund
Se há uma onipresença no carste, é a do naturalista dinamarquês
Peter Wilhelm Lund (1801-1880), o primeiro a descobrir a importância de
Lagoa Santa para a América pré-histórica. Lund varreu os abrigos da
região e enviou ossos humanos e de megafauna para Copenhague, para
Londres e para o Rio de Janeiro, descrevendo e batizando inúmeros mamíferos
extintos, entre eles a Catonyx cuvieri- cujo nome de espécie homenageia
um mentor de Lund, o naturalista francês Georges Cuvier.
Na variada equipe que acompanha Neves está o botânico dinamarquês
Michael Sterll, que veio para o Brasil para estudar a trajetória do
lendário naturalista. "Ele foi o primeiro a intuir que humanos e
megafauna conviveram, e não que os grandes animais pertenciam a um episódio
separado de criação divina", explica Sterll, num inglês sem
sotaque.
Lund definitivamente toca a imaginação de Neves. "Lagoa Santa tem
essa idiossincrasia romântica, glamourosa. Sem glamour, a vida não
serve para nada", afirma. "A arqueologia e a paleontologia do
continente começaram aqui. Foi aqui que alguém aventou pela primeira
vez a hipótese de que a ocupação humana era muito mais antiga do que
se pensava", afirma.
Quando os dados revelados pela análise de Luzia se tornaram públicos,
em 1998, a pré-história americana parecia estar à beira de uma revolução
desse tipo. Aquele era o fóssil humano mais antigo do continente, com
11.500 anos, o que desbancava de vez o chamado modelo "Clovis
first" ("Clovis primeiro", batizado a partir do sítio
arqueológico de Clovis, no Novo México, EUA). Segundo esse modelo, os
primeiros grupos humanos teriam atravessado o estreito de Bering e
entrado na América a partir da Sibéria há, no máximo, 11.400 anos.
A reviravolta cronológica, contudo, parecia bem menos radical que a
antropológica. O crânio de Luzia, assim como o dos demais paleoíndios
(nome dado aos americanos que viveram entre 12 mil e 10 mil anos atrás),
não tinha nada a ver com o dos indígenas modernos. Os índios de hoje
têm características cranianas muito próximas dos atuais asiáticos (a
chamada morfologia mongolóide), mas os traços de Luzia lembram muito
mais os modernos habitantes da África e da Austrália, um padrão
morfológico quase tão antigo quanto o próprio Homo sapiens.
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