
Raios cósmicos afetam nuvens, alerta
estudo
Efeito pode ser de aquecimento
Um pesquisador da Universidade de Nova York em Albany, nos EUA, está
advogando em favor da espécie humana: ele quer inocentar parcialmente o
homem pelo aquecimento global. A culpa por parte significativa do
aumento médio de temperaturas observado no último século, diz o
cientista, é das energias cósmicas.
Esclarecendo: Fangqun Yu não é entusiasta do projeto de lei que quer
regulamentar a profissão de astrólogo, nem nada parecido. Suas conclusões
são baseadas em ciência sólida e estão publicadas na última edição
da revista "Journal of Geophysical Research" (sprg.ssl.berkeley.edu/jgr).
A pesquisa parte de uma premissa sabidamente verdadeira, embora pouco
destacada: o planeta não é uma ilha isolada de prosperidade na imensidão
do espaço, como muitos podem pensar. Partículas elementares emanadas a
esmo das profundezas galácticas chegam a todo instante. Quando há
muitas delas, o planeta sofre uma era glacial. Quando há poucas,
aquecimento global.
O elo perdido entre raios cósmicos e aquecimento global, segundo Yu,
está nas nuvens. Para o cientista, há uma ligação direta entre o
quanto de radiação cósmica chega à Terra e o processo de formação
de nuvens. Hoje (e nas últimas décadas), os raios provenientes de fora
do Sistema Solar estão num período de vacas magras. "A redução
de raios cósmicos faz com que se formem menos nuvens de baixa
altitude", diz.
Com menos nuvens, o resto do raciocínio é simples: mais radiação
solar incide sobre a superfície da Terra, aquecendo-a. "Fornecemos
um mecanismo microfísico para ligar a formação de nuvens à radiação
cósmica", conta Yu.
"Que radiação cósmica afeta a atmosfera, todo mundo já
sabia", diz Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP e membro
do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática). "A
grande questão é: quanto?"
Yu admite que não tem a resposta, mas faz estimativas. "Eu diria
que o efeito estufa [causado pela ação humana] ainda é o maior
responsável. O efeito dos raios cósmicos seria no máximo metade do
que o efeito estufa faz", diz. "Mas é uma hipótese. Eu não
fiz um modelo climático."
Artaxo concorda sobre as incertezas. "O estudo de Yu só mostra que
o fenômeno pode ocorrer. É um trabalho especulativo", diz. Mas
ele não descarta nada. "Ainda não conhecemos os mecanismos que
regulam o clima global, mesmo em seus funcionamentos básicos. Surpresas
como essa, da influência de raios cósmicos, podem realmente
acontecer."
Travessia galáctica
Um outro estudo, feito por Nir Shaviv, da Universidade de Toronto (Canadá),
sugere que a radiação cósmica emitida dentro da Via Láctea esteja
ligada às glaciações na Terra. Ele comparou a época dos grandes períodos
glaciais com os momentos em que o planeta, assim como o Sol, estava
atravessando os braços da galáxia, em sua órbita ao redor do centro
(veja quadro acima).
As datas bateram precisamente, exceto para o último bilhão de anos (a
Terra tem 4,5 bilhões). As passagens pelos vários braços da galáxia,
assim como as glaciações, aconteciam em média a cada 143 milhões de
anos. O estudo está na última edição da revista "Physical
Review Letters" (prl.aps.org).