
Animais artificiais feitos de PVC são
adotados pela Unifesp para ensinar os estudantes a realizar
microcirurgias
Cobaia de plástico salva a pele de ratinhos
Divulgação
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Rato
de verdade assiste uso de cobaia de PVC em microcirurgia |
SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de
Medicina) está introduzindo uma técnica para procedimentos microcirúrgicos
que vai salvar muitas vidas -de ratos. Chega ao país a cobaia de PVC.
Fabricado totalmente a partir dessa espécie de plástico (cujas moléculas
são compostas por longas cadeias de átomos de carbono, conhecidas como
polímeros), o modelo foi desenvolvido por uma ONG da Holanda e
apresentado naquele país há três anos.
"Nós começamos com a idéia de desenvolvê-lo em 1994 e concluímos
o trabalho na Holanda em 1999", conta René Remi, um farmacologista
e especialista em animais de laboratório que ajudou a desenvolver o
animal de mentira.
Remi está no Brasil divulgando a inovação. Faz parte da Microsurgical
Developments, a instituição sem fins lucrativos que desenvolveu o
sistema, hoje fabricado pela gigante belga Solvay Pharmaceuticals.
A idéia é substituir cobaias vivas no processo de aprendizado de
microcirurgias. "Atualmente, quando um aluno precisa aprender a
operar, ele tem de prestar atenção em duas coisas: na execução
correta da técnica e nos cuidados para que o animal não morra",
diz Remi. "Ele simplesmente não consegue prestar atenção nas
duas coisas, e o animal morre."
"Depois de matar um, dois, três, quatro ratos, ele chega para o
professor e diz: "Faça isso você. Eu não sei fazer
direito"." Com o rato de PVC, os dois aprendizados são feitos
separadamente, tornando o processo menos traumatizante para o aspirante
a médico.
Reprodução quase exata
O rato de PVC reproduz fielmente as texturas dos tecidos do animal. Os
órgãos internos são reproduzidos na região abdominal e no pescoço
do bicho. "Isso permite o aprendizado de cerca de 25 técnicas
diferentes de microcirurgia com o modelo", diz Remi.
O custo dos ratos de PVC pode parecer maior do que o de usar cobaias
vivas, mas é ilusão. "Uma cobaia artificial custa US$ 160. Um
rato de verdade, levando em conta tudo o que se gasta para tratá-lo,
acondicioná-lo e alimentá-lo, custa US$ 40. Mas um rato vivo, uma vez
usado, precisa ser descartado. O rato de PVC pode ser usado milhares de
vezes."
A cobaia artificial é acompanhada por um programa de computador, que
ajuda o aprendiz a simular os procedimentos pré-operatórios
(anestesia, preparação do animal) e avisa se algo está saindo errado
e oferece, no momento da operação, uma simulação dos sinais vitais
do animal. "Mas não há conexão entre o rato e o computador, os
dois funcionam separadamente", diz Remi. Assim, o computador não
pode reagir a um erro médico cometido durante a cirurgia e
"matar" o rato de PVC.
Salvando vidas
Para Remi, a principal motivação do trabalho é a redução da perda
de vidas. Ele diz que, só na Holanda, cerca de 7.500 ratos foram salvos
pela cobaia artificial. "Se pensarmos nesses números para o mundo
todo, podemos multiplicar isso por cem", diz.
Entretanto, há um limite para a tecnologia. "Acho muito improvável
que consigamos desenvolver um rato artificial totalmente funcional para
pesquisas e aprendizado. Já sabemos muito sobre ratos, mas não o
suficiente para reproduzir totalmente o sistema deles, que é muito
complexo."
E, eventualmente, os alunos de medicina precisam encarar os bichinhos de
verdade na sala de operação. A esperança é que, quando chegarem lá,
eles já terão dominado a técnica e precisarão ter em mente apenas
uma preocupação -a de proteger a vida e o bem-estar de seus pacientes.
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