
Demanda estrangeira e contrabando
podem levar o pau-rosa do Brasil à extinção.
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Veja mais:
Projeto defende cultivo de
pau-rosa e produção
de óleo das folhas na Amazônia
Pau-rosa (Aniba rosaeodora),
um doce aroma que pode morrer.
A lendária frase dita pela atriz Marilyn Monroe
de que dormia vestida apenas com algumas gotas de Chanel nº 5
guarda, quem diria, um toque bem brasileiro.
Fragrâncias da floresta
Até o dia em que o perfume Chanel Nº 5 chegou às lojas, em 1921, o
pau-rosa
(Aniba rosaeodora), conhecido nos Estados Unidos como
Brazilian rosewood, era apenas mais uma árvore abundante na Amazônia.
Mas a popularidade persistente da fragrância, da qual o óleo de
pau-rosa é um dos principais ingredientes, deu início a um processo que
levou ao comércio ilegal do óleo, e a árvore passou a ser designada como
espécie ameaçada.
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| Membro do grupo
Avive, que explora o pau-rosa sem destruir árvores, embala
sabonetes |
Em todo o mundo, a demanda por perfumes, sabonetes, bálsamos e velas
aromáticas disparou nos últimos anos, devido ao aumento do poder
aquisitivo feminino e ao surgimento de tendências New Age, como a
aromaterapia.
Devido ao toque de classe do pau-rosa, a demanda pelo óleo supera em
muito a oferta legal do produto, e alguns fabricantes da fragrância
pagam praticamente qualquer preço para obtê-lo.
"Esse aroma é incomparável, e faz com que as pessoas ajam de maneira
estranha", diz Paulo Tarso de Sampaio, co-autor do livro "Biodiversidade
na Amazônia" e cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia,
em Manaus. "A exploração intensa significa que todas as áreas nas quais
o acesso ao pau-rosa era fácil foram devastadas, mas a demanda continua
crescendo".
As companhias européias, em sua maioria francesas, que dominam a
indústria de fragrâncias, a princípio obtinham os seus suprimentos de
óleo de pau-rosa na Guiana Francesa, 800 quilômetros a nordeste daqui.
Mas quando a exploração se tornou tão intensa que a árvore foi
praticamente extinta naquela região, os fabricantes se voltaram para a
Amazônia brasileira.
No final da década de 80, as reservas de pau-rosa na Amazônia Oriental
brasileira também haviam sido destruídas. Alarmada, a agência brasileira
de proteção ambiental respondeu à situação acrescentando o pau-rosa à
sua lista de espécies ameaçadas.
A medida tinha como objetivo evitar a pilhagem da madeira. Mas como a
agência é incapaz de fazer valer a proibição, grande parte do comércio
de pau-rosa passou a ser feita ilegalmente, fazendo com que os preços
aumentassem e obrigando companhias como a Phebo, a mais antiga
fabricante brasileira de sabonetes, a procurar substitutos sintéticos
mais baratos, que são importados de países como a China.
"O sabonete de pau-rosa continua respondendo por metade das nossas
vendas, mas deixamos de usar a essência real por volta de 1990", explica
Roberto Lima, gerente da fábrica em Belém, na foz do Rio Amazonas. "Hoje
vendemos uma quantidade de sabonetes quase quatro vezes maior do que
naquela época, mas a escassez do extrato natural fez com que o seu preço
chegasse a um patamar tão elevado que só as grandes companhias
estrangeiras são capazes de adquiri-lo".
Nem sempre fica claro o que ocorre depois que os tambores de óleo
aromático deixam as instalações amazônicas nas quais o produto é
extraído e seguem para o mercado importador. Grupos ambientalistas dizem
que grande parte do óleo é destinada a um punhado de intermediários, a
maioria localizada na área de Nova York. Mas esses intermediários
relutam em dizer como obtêm o produto e como fazem para atender às
rígidas exigências do governo brasileiro.
Segundo estudos acadêmicos e empresariais, atualmente a produção legal
de óleo de pau-rosa no Brasil é de apenas um décimo do que foi no ápice
da atividade, no final dos anos 60, quando a extração anual era de 300
toneladas.
O número de fábricas registradas, que transformam troncos de pau-rosa em
óleo por meio de um processo ineficiente que parece devorar as árvores,
também diminuiu drasticamente, de mais de 50 na década de 40 para as
menos de oito atuais.
No entanto, há aproximadamente seis anos, um grupo comunitário nesta
pequena ilha no meio do Rio Amazonas deu início a uma tentativa de
ressuscitar a indústria, desta vez com base sustentável. Em vez de
simplesmente cortar as árvores e retirar os troncos da floresta, o
grupo, chamado Avive, decidiu podar ramos e folhas a cada cinco anos,
estendendo, desta forma, a vida útil de cada árvore de pau-rosa por
décadas.
Atualmente os integrantes do projeto, em sua maioria mulheres
camponesas, plantam e cuidam de mais de três mil mudas de pau-rosa no
coração da floresta. Eles também extraem o óleo do pau-rosa e fabricam
cerca de mil sabonetes por mês em uma pequena fábrica local.
"O meu marido trabalhava em uma das grandes fábricas. Eles cortavam a
árvore e não deixavam nada no lugar", conta Anete de Souza Canto, líder
do grupo. "Mas nós não fazemos isso. Tenho 47 anos e cinco filhas, de
forma que estou pensando no futuro".
O grupo começou também a colher outras fragrâncias exóticas de árvores
para a fabricação de sabonetes e pomadas, tomando sempre o cuidado de
repor aquilo que retira da floresta. "Estamos plantando tudo que é
perfumado", afirma com orgulho Márcio João Neves Batista, 25, que opera
a destilaria que ferve as folhas e os galhos, transformando-os em óleo.
Mas a tarefa da Avive não tem sido fácil. As áreas de floresta colocada
à disposição do grupo pelo governo para que fossem preservadas têm sido
devastadas. Os invasores simplesmente derrubam árvores maduras de até 30
metros de altura e retiram os troncos da floresta.
Segundo Sampaio, a concentração de óleo nas folhas do pau-rosa chega ao
dobro daquela encontrada no tronco da árvore. Mas são necessárias
grandes quantidades de ramos e folhas para a produção da mesma
quantidade de óleo e, como isso exige trabalho extra, é mais conveniente
e rentável para madeireiros ilegais e operadores de fábricas
clandestinas se apegar ao sistema antigo e predatório.
Os altos custos da mão-de-obra e da produção também significam um preço
mais elevado do produto final. Os intermediários têm se recusado a pagar
o preço extra enquanto as reservas ilegais ainda estão disponíveis, mas
alguns usuários dizem que comprariam com satisfação o óleo de pau-rosa
obtido de forma ecologicamente correta caso tivessem acesso a esse
produto.
"O ideal seria usar o óleo natural obtido de ramos e folhas, porque isso
é bom para a natureza e para o consumidor", afirma Lima, gerente da
fábrica de sabonetes. "Além da vantagem de marketing característica de
um produto ecologicamente correto, se pudéssemos obter um fornecimento
constante do óleo natural, não precisaríamos importar a essência do
exterior, algo que apenas eleva os nossos custos e não traz benefícios
para a nossa região".
LARRY ROHTER
Em Silves (AM)
Tradução: Danilo Fonseca
PS: O óleo do pau-rosa, árvore nativa da floresta amazônica que serve
de matéria-prima para perfumes famosos, como o Chanel nº 5, registrou
queda acentuada na produção. Na década de 80, eram 450 toneladas anuais.
Atualmente, não ultrapassa as 50 toneladas. O Brasil é o único produtor
mundial desse tipo de óleo, que movimenta US$ 1,5 bilhão por ano.
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