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Trufas, os diamantes da gastronomia

São Paulo, 4 de Outubro de 2005 - Brancas ou
negras, do Piemonte ou de Perigord, esses cogumelos sempre valem
muito. É chegada a época das trufas na Europa e a gastronomia se
transforma em festa.História
Contar a história do tubérculo é como contar a história da
civilização. Já em 3500 a.C., acha-se nas escrituras a palavra "tabarli"
ou cogumelo subterrâneo. Em 1700 a.C., usa-se "tigla", cogumelo
em armênio, termo ligado à "teckel", o cachorro farejador.
A Roma antiga era ávida por trufas - em especial, as pretas do
Egito. As brancas não eram tão apreciadas. Em meados do século
XVI, tem início o uso do porco, animal de olfato privilegiado,
para procurá-las. Esfregavam-se as tetas da mãe com suco de
trufa, acostumando assim os porquinhos a seu gosto e sabor.
Coleta
Usavam-se porcos jovens, de três meses a um ano. Hoje, por
comodidade no transporte, usam-se mais freqüentemente cachorros
treinados (teckels). São conhecidas 32 espécies de trufas no
mundo todo. Comercializam-se apenas sete. Para os amadores deste
tubérculo, na realidade, existem somente duas.
Tipos
As brancas de Alba, na Itália, tem início de safra em outubro,
com trufas boas até pouco antes do Natal. As pretas do Perigord,
na França, são mais tardias. Atingem o auge da qualidade a
partir de meados de janeiro. A safra termina em março. Os
principais produtores são as regiões do Luberon e da Provence.
O feudo da trufa branca, bastante difícil de encontrar, é a
esplêndida cidade de Alba, que deu seu nome a trufa. Sua procura
é espécie de "lei do silencio". Ela não deixa uma "queimada"
(espaço sem vegetação), como deixa a trufa preta, na redondeza
das árvores. Seu custo, exorbitante, atinge €4.000 o quilo (R$
12 mil). É encontrada perto das raízes das árvores, como
choupos, aveleiras ou salgueiros.
A sua cor é amarelo sujo, indo para o bege, lembrando marfim
velho. A superfície é lisa. Seu perfume, potentíssimo, vai para
o cogumelo, com uma mescla de alho, húmus, parmesão e gás - uma
mistura de complexidade fantástica. Ao contrário da exuberância
do seu bouquet, seu paladar é fraco, delicado para alguns,
praticamente inexistente para a maioria.
O bouquet deve chegar até você. Nunca a trufa deveria ser levada
a seu nariz, acredite. Neste caso, algo está errado. Pode ser
trufa velha (mais de seis/sete dias), ou ainda, com origem que
não é do Piemonte - e sim da China ou de outras regiões da
Itália (que produz a "bianchetta" bem menos perfumada) ou mesmo
da Eslovênia.
Já a trufa negra no corte se parece com um mármore negro e bege.
Tem um perfume estupendo, menos intenso que a branca, e
diferente. É muito animal, com toque de húmus. Contrariamente à
branca, seu sabor é maravilhoso. Lá reside grande parte do seu
charme. Seu paladar é único, inesquecível, enche a boca de noz,
avelã, terra, sub-bosque e castanha. A preta é cultivável. Após
anos de pesquisa, nasceu o carvalho-trufeiro (chene-truffier),
que leva uns oito anos antes de produzir o tubérculo. É difícil,
até diria impossível, perceber a diferença entre uma
melanosporum selvagem e uma de cultivo. A trufa preta vale cinco
vezes menos que a Alba.
Já a trufa do Perigord pode ser degustada sozinha. A branca nem
sempre necessita de acompanhamento. Importante é saber que
existem trufas brancas na Eslovênia e na China, insossas e sem
perfume. Também na Itália e na Espanha e mesmo em outros países
existem trufas pretas, contudo seu sabor fica longe da francesa.
Estas trufas "piratas" valem em média US$ 50, contra €4 mil as
verdadeiras.
O que um restauranteur ou chefe de cozinha inescrupuloso poderia
fazer, com a ajuda de azeite de trufas, manteiga de trufas ou,
ainda, misturando verdadeiras com piratas? O consumidor deve
cheirar o prato, antes que nele seja raspada a trufa. Caso já
tenha aroma de trufa, cuidado. Trata-se de uma pirata e, para
dar um aroma similar e acentuado o chefe joga azeite de trufa no
prato.
Especialistas e estudiosos chegaram à conclusão de que trufa não
tem sexo. Como elas se reproduzem? Aí está um segredo, que além
do seu bouquet fenomenal (branca) e de seu sabor fascinante
(preta), aumenta ainda mais o mistério deste extraordinário
tubérculo.
Para comer a trufa d’Alba há um estabelecimento na cidade
homônima onde o proprietário e chefe Bruno Cingolani trabalha
com os melhores produtos. No seu restaurante, Dulcis Vitis,
quando é época de trufa, basta entrar na casa para ficar
inebriado pela fragrância. Estava com o produtor de vinhos de
Barbaresco, Bruno Rocca.
Primeiramente, levaram à mesa um "fassone" (carne crua
piemontesa, cortada na faca), que por si só era divino - com uma
boa "ração" de trufas, melhor. A seguir, os leves e gostosos
piemonteses "tajarin", (pasta fresca com ovos), com outra boa
dose de trufas. Já estava quase sonhando quando surgiu em minha
frente um ravióli gigante de massa fina, deliciosa, al dente ma
non troppo, recheado com uma gema de ovo caseiro, inteira, e
trufa por cima, raspada na hora como se deve. Um manjar dos
deuses. Bruno e eu ficamos quietos de emoção.
O chefe ainda nos levou um cabrito assado no forno, macio e
saboroso, com umas maravilhosas batatas coradas. Terminamos o
jantar com queijo. O queijeiro da casa acabava de trazer seus
exemplares dos Alpes. A cada semana, este míni-produtor traz, em
sua pick-up velha seus queijos caseiros para os melhores
estabelecimentos de Alba.
Regamos este jantar inesquecível com um vinho que ainda não está
no mercado. Um Barbaresco "Riserva especial Maria Adelaide" -
homenagem do produtor Rocca à sua mãe de 96 anos. É incrível
como este vinho espetacular, envolvente e elegante combinava
perfeitamente com a trufa, o cabrito e o queijo.
Na Provença existe um rei não-coroado da trufa preta. É Guy
Julien, dono do bistrot La Beaugraviere, de Mondragon. Aquela
noite deixamos o chefe escolher o menu. Mandou à mesa suas
batatas "rattes" em salada com trufas e azeite e flor de sal. A
seguir, ovos mexidos mal-passados com uma boa porção de trufas
amassadas no garfo. Ambos deslumbrantes.
Uma das grandes criações de Guy é o "chausson" de trufa e foie
gras. O chefe junta uma trufa inteira, uma pequena escalope de
foie gras e uma fatia de bacon numa massa folhada. Quando chega
à mesa e a massa é cortada, desprende uma fumaça que enche a
sala do perfume da trufa. Trata-se de uma combinação
gastronômica memorável.
Acompanhamos este jantar fenomenal com um melífluo, elegante e
genial Chateauneuf du Pape 98, cuveé Centenaire de André Brunel
da Domaine Les Cailloux. Dilema. Qual das duas trufas é a
melhor? Os italianos preferem a branca. Mal reconhecem a
melanosporum da Provença. Os franceses preferem a negra. Mal
conhecem a Alba. Os verdadeiros gastrônomos reverenciam ambas.
Esta "briga" é e uma disputa similar a do vinho.
A partir de outubro, restaurantes trazem a trufa d’Alba a São
Paulo. Não acho que aqui elas estejam no seu apogeu, contudo,
sendo autênticas, devem ser muito boas. Já a verdadeira trufa
preta do Perigord nunca foi trazida, pelo menos comercialmente.
Como dizia o gastrônomo Brillat Savarin, as trufas deixam as
mulheres mais carinhosas e os homens mais amáveis.
kicker: O gastrônomo Brillat Savarin dizia que esses tubérculos
têm poder de deixar as mulheres mais carinhosas e os homens mais
amáveis
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Jacques Tréfois -
Consultor Vinhos/gastronomia/viagensE-mail: trefoisjac@uol.com.br)
Mais:
"Diamantes
negros da cozinha". É assim que muitos chefs chamam as raras e
caras trufas negras.
Elas são cogumelos subterrâneos, comestíveis, do tamanho de uma
maçã, que crescem a cerca de 30 cm abaixo da superfície, perto
das raízes das árvores - especialmente a do carvalho. Outras
espécies de trufas crescem também na Itália e na África, mas as
trufas negras, especialmente, são privilégio do solo francês.
Cães treinados farejam os torrões de terra até encontrar a
iguaria. Depois elas são limpas cuidadosamente, para evitar o
toque direto com os dedos, o que a levaria ao apodrecimento.
Frescas servem como tempero. Cozidas, possuem um sabor intenso e
incomparável. Os gourmets garantem: elas são o maior dos
prazeres!
Darse un homenaje
Hay cosas cuyo precio global
resulta de lo más disuasorio... pero cuyo precio aplicado a la
cantidad que realmente necesitamos lo es mucho menos cuando uno
se plantea darse, de vez en cuando, un homenaje, que bien
merecido lo tenemos todos.
Hace unos días pasábamos por nuestra frutería favorita, en la
madrileña calle de Ayala. Esa que solemos llamar 'Joyas Vázquez',
en la que se encuentra normalmente de todo, y lo mejor de todo,
lo que, inevitablemente, tiene el precio que tiene. Bien, pues
en este año que hasta ahora habíamos considerado de regular para
abajo en lo que a trufas se refiere, había unas trufas cuyo
aroma era irresistible.
Trufa negra, claro. Nuestra 'Tuber melanosporum', la de siempre,
la que grandes gastrónomos llamaron cosas tan bonitas como 'la
emperatriz subterránea' o 'el diamante negro de la cocina'.
También había algo de trufa blanca, el 'tartufo' del Piamonte,
la 'Tuber magnatum'.
La trufa blanca, carísima -allí estaba a la friolera de 3.500
euros el kilo-, goza de un inusitado prestigio últimamente. Me
temo que tiene más que ver con su precio que con sus auténticas
virtudes gastronómicas. Reconozco que tiene un aroma capaz de,
como decía Clermont-Tonerre de una liebre, embalsamar una
catedral; pero siempre acabo encontrando en ese aroma un
indisimulable olor a butano, o a lo que le ponen al butano para
que huela a algo. Me gusta; pero no me entusiasma.
Coincido con el gran cocinero catalán Santi Santamaría en que no
hay nada comestible que pueda costar ese dinero, y, mucho menos,
valerlo. Y también coincido con muchos más cocineros y gourmets
en preferir, sin la menor duda, la trufa negra, que huele,
sencilla y maravillosamente, a trufa.
Bien, pues allí estaban las 'melanosporum'. A 1.200 euros el
kilito. ¿Precio disuasorio? Pues, francamente, sí... si uno
fuese a comprarse medio kilo. Pero ¿para qué puedo querer yo, en
mi casa, medio kilo de trufas? Para darme un gustazo, un
homenaje, no necesito ni la mitad, ni siquiera la décima parte
de esa cantidad.
Seleccioné un ejemplar bonito, de tamaño 'pareja'. Una vez
pesado, me costó 24 euros. O sea: una trufa de veinte gramos.
Perfecta para el plan que empezábamos a gestar.
Plan que nos llevó a una buena mantequería de la misma calle, en
la que adquirimos un trozo de excelente queso 'parmigiano
reggiano'. Así las cosas, completamos las compras con un paquete
de 'tagliatelle' (cintas ni anchas ni estrechas) frescos. Con
todo ello, a casa; no vean cómo olía el coche al llegar:
embriagaba.
Receta
Pero había que proceder. Cepillamos escrupulosamente nuestra
trufa. Pusimos a hervir agua, con sal, y cocimos ahí nuestros 'tagliatelle',
dejándolos 'al dente'. Para estas cosas es bueno seguir las
instrucciones del fabricante... o probar el punto. Los
escurrimos bien, por el expeditivo sistema de echar todo el
contenido de la cacerola en un colador.
Mientras cocía la pasta, escalfamos dos huevos fresquísimos en
agua con un chorrito de vinagre y, una vez listos, les quitamos
las 'barbas' blancas superfluas. Con todo listo, y dos platos
bien calientes, añadimos a los 'tagliatelle' unos trocitos de
mantequilla y un chorrito de aceite virgen y rallamos sobre
ellos un poco de nuestro parmesano. Podíamos haberles puesto
algo de nata, pero no lo hicimos.
Colocados formando un nido en los platos, albergamos en sus
centros los dos huevos y, con todo listo, apelamos a la
mandolina y fuimos distribuyendo sobre ambos conjuntos finas
láminas de trufa; era un espectáculo ver sus preciosas vetas
blancas sobre el fondo negro del hongo. El calor hizo que el
aroma de la trufa se potenciara. Sin pausas, procedimos a la
consiguiente degustación. Sencillamente perfecta.
¿Coste? Pues... sumando todos los ingredientes, poco más de 30
euros. A quince o dieciséis por persona. Como verán, asequible.
Si lo hubiéramos hecho en un restaurante hubiéramos pagado
fácilmente el doble. O más. Y no critico al restaurante, conste.
Sólo quiero decir que estos homenajes, en casa, salen muy bien,
incluso de precio... por disparatado que nos pueda parecer lo
que cuesta, por kilo, el producto principal; los italianos, por
lo que pueda pasar y para evitar sustos -sobre todo cuando aún
contaban en liras- ponen el precio de las trufas no por kilo,
sino por 'etto' (ettogrammo, hectogramo). Y, aún así...
Pero no hacen falta cien gramos de trufas para darse un homenaje.
Ni medio kilo de perretxikos, que están al caer. O, en otoño, de
níscalos. Y así, pensando en la cantidad que vamos a necesitar,
las cosas resultan mucho más razonables, y un festín de
auténtico lujo acaba saliendo hasta más barato que un par de
copas en un local de moda.
Y no es por nada, pero... mejor no empezar a establecer
comparaciones.
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