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Armazenagem
do vinho 'top' em barris de madeira.
Nos exemplares top França e Itália não abrem mão
da armazenagem em barris de madeira. É amplamente divulgada a
necessidade de criar os vinhos de certo nível qualitativo em
barricas de carvalho - que ajudam a "arredondar" o gosto do
vinho. Importante é permitir à bebida que continue sua vida de
progressão, até aquele ponto em que o produtor decida por seu
engarrafamento. Na garrafa o vinho vive, variando de gosto ao
longo da sua existência, até sua decadência.
O ponto de partida para a fabricação das barricas exige uma
madeira bem seca. A secagem considerada ideal é a de três anos
ou mais, ao ar livre. A barrica é queimada por dentro. São
usadas três formas de tostagem no barril. Se mais queimada, o
vinho terá um bouquet de tostado, lácteo, baunilha, caramelo,
podendo até mesmo esconder alguns dos seus defeitos. No caso de
queimada leve, poderá dar origem a vinhos mais frutados, porém,
menos "redondos". O ideal é uma queimada média.
Muito importante é que a tostagem seja realizada de forma lenta.
Também todo mundo sabe que as rolhas, tão discutidas hoje em dia
devido ao alto percentual de vinhos "bouchonnés" - com gosto de
rolha, que alcançam 6% ou 7% -, são tiradas do sobreiro (chêne-liège),
árvore da família do carvalho da qual se extrai a cortiça.
Saibam que vários produtores já estão trabalhando com rolhas
"artificiais" (sintéticas) e também com rolhas do tipo rosca
(vis).
Como os leitores podem observar, o que seria dos belos vinhos
sem a mágica do carvalho? Porém, o uso dessa madeira excede em
muito apenas o fabrico de barricas e rolhas. Nos países
produtores que são chamados de "Novo Mundo" ou "Terceiro Mundo"
do vinho (Argentina, Estados Unidos, Chile, Austrália, Nova
Zelândia) para uma porcentagem importante da produção as
barricas estão sendo substituídas por lascas de carvalho (sempre
o carvalho) encontrando assim, um meio mais econômico e de
poucas manipulações (encher e esvaziar as barricas) e resultados
aparentemente - digo bem aparentemente - "similares".
Por ser duvidoso quanto à qualidade do vinho, este procedimento
prossegue como um tabu tanto na Itália como na França. Os
consumidores franceses, aliás, estão totalmente na retaguarda.
Acreditam, que utilizando este sistema de lascas para criar seus
vinhos, a bebida - um orgulho do país - se transforma em
vinho-padrão, de gosto mundializado, globalizado, com tendência
a ser um produto industrial.
Por outro lado, vários produtores franceses, principalmente do
Sul do país, de Languedoc, Roussillon e Corbières, gostariam de
poder utilizar este sistema, o que lhes permitiria oferecer
vinhos de gosto mundializado, que é apreciado em especial pelos
bebedores principiantes. Poderiam, assim, exportar, a preços bem
menores que os atuais, e concorrer, a preços iguais, ou até mais
baratos, com os "vinhos-produto" fabricados pelos winemakers do
chamado Novo Mundo.
No momento, a regulamentação francesa é muito restritiva..
Permite o uso de lascas, exclusivamente a título experimental,
apenas para os "vins de pays", a categoria mais inexpressiva dos
vinhos franceses. Só 5%, ou um máximo de 5 mil hectolitros do
volume total comercializado por uma "cave" ou uma grande
cooperativa são autorizados a utilizar este sistema. Uma
quantidade que, na verdade, se assemelha, a uma gota d’água no
oceano.
Vale a pena ter medo da utilização de lascas de madeira para
criar vinho? Na realidade, é uma técnica como qualquer outra. No
final, o que mudará será a qualidade e a personalidade do vinho.
As lascas podem ser incorporadas ao vinho no momento da
fermentação alcoólica ou, ainda, no momento da criação (élevage).
As experiências deixam claro que agregar lascas no início da
fermentação favorece uma melhor extração dos taninos, evitando
também ter de colocar, no futuro, taninos artificiais, entre
outros. Todavia, estabiliza a cor da bebida. Nas experiências
realizadas no Sul da França foram geralmente utilizadas
quantidades da ordem de 1 a 3 gramas de lascas por cada litro de
vinho. No Chile, os winemakers raramente usam menos do que 4
gramas de lascas por litro de vinho.
O fato de utilizar as lascas somente na hora de criar o vinho
tende a trazer mais frescor aromático, evitando agregar demais
ácido tartárico, para dar uma necessária acidez (frescor). O
processo funciona da seguinte maneira: colocam-se de 2 a 4
gramas de lascas por litro de vinho, num saco de algodão. Estes,
por sua vez, são colocados nas cubas cheias de vinho,
infusionando durante cerca de dois meses. O fato de agregar
lascas de carvalho tem outra grande vantagem. Esconde a falta de
qualidade, de concentração, de maturidade das uvas - este último
ponto, ou seja, colher uvas maduras e sadias, é uma das
principais condições para produzir um grande vinho. Outra
técnica, que começa a ser divulgada, consiste em colocar tábuas
(evidentemente de carvalho), "staves" em inglês ou "douelles" em
francês.
As medidas geralmente usadas nas "staves" são de 1 metro por 5
centímetros, tendo 0,7 milímetros de espessura. Estas tábuas são
fabricadas a partir de madeiras francesas, americanas ou dos
países do Leste. São queimadas de forma similar às barricas:
leves, médias ou fortes. Para facilitar o intercâmbio do vinho
com a madeira, os winemakers usam normalmente quatro "douelles"
por hectolitro.
A vantagem das tábuas sobre as lascas é que ocorre uma
micro-oxigenação, procedimento que hoje está muito na moda, já
que permite arredondar a estrutura tânica, assim como melhor
dominar o bouquet. Um vinho bastante micro-oxigenado ficará em
condições de ser consumido, praticamente, quase que
imediatamente após seu engarrafamento.
A criação dos vinhos com lascas é bem mais rápida. Apenas um par
de meses é necessário para que os resultados desejados comecem a
aparecer. No caso das tábuas é preciso um mínimo de quatro ou
cinco meses para sentir os primeiros efeitos. Para bem entender
o interesse dos diversos procedimentos, vejamos os custos.
Uma barrica de um ano de uso, de carvalho francês, custaria,
incluindo a mão de obra, €70 ou €80 por hectolitro,
(aproximadamente R$ 2,10 por garrafa), na origem. No Brasil este
valor, calculando impostos e despesas, passa para
aproximadamente R$ 8. O custo de produção com as lascas,
calculando uma média de 2,5 gramas de lascas por litro, resulta
numa despesa de €2 por hectolitro (R$ 0,05 por garrafa na
origem, R$ 0,20 real no Brasil). Enquanto que as "staves" têm um
custo final de €10 por hectolitro, aí já incluída toda a
manipulação (R$ 0,25 por garrafa ou R$ 1 real no Brasil).
Não há dúvida de que a vantagem financeira não pode ser ignorada
pelos produtores de vinhos. Mundialmente utilizaram-se 9 mil
toneladas de lascas, contra 2 milhões de m² de "staves" em 2004.
Estimam os especialistas e pesquisadores que até o ano de 2007 o
uso das lascas não deveria crescer muito, porém o consumo de
tábuas duplicaria, ou seja 4 milhões de m² por ano.
Agora, os leitores poderiam me perguntar: qual é a diferença
entre um vinho fabricado com lascas ou tábuas e um vinho criado
em barricas, como normalmente são feitos os bons vinhos? Como
vocês podem perceber, em primeiro lugar, o preço, que é bem mais
em conta. Qualitativamente falando, o vinho criado com lascas ou
tábuas não chegará nunca perto daquele trabalhado em barricas,
sendo geralmente pesado, uniforme e cansativo.
Foi amplamente comprovado que o chamado vinho-produto,
trabalhado com lascas ou mesmo com tábuas, têm vida curta, uma
vez aberta a garrafa. Torna-se mesmo aconselhável beber rápido,
porque a bebida "morre" velozmente. Tanto seu bouquet, como seu
sabor são de curta duração.
Já aquele criado em barricas, uma vez aberta a garrafa,
comporta-se de modo diferente: é crescente em sabor e em bouquet,
que fica mais complexo. Quero deixar claro que no "Novo Mundo"
existem winemakers que realizam um trabalho similar, comparável
ao dos italianos e franceses, produzindo ótimos vinhos, criados
em barricas. Neste caso, resultam tão caros - e às vezes até
mais caros - quanto os europeus.
kicker: Nos países que formam o Novo Mundo vinícola, as barricas
estão sendo substituídas por lascas, nem sempre com o mesmo
êxito
São Paulo, 11 de Outubro de 2005
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Jacques Tréfois -
Consultor de vinhos, gastronomia e viagensE-mail: trefoisjac@uol.com.)
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