Belo Horizonte - Safra dos próximos dois anos
está praticamente vendida. Ágio do milheiro sobe. As empresas
mineiras que produzem mudas de eucalipto para uso próprio ou
para projetos de reflorestamento deverão plantar ou
comercializar 280 milhões de unidades até dezembro mas, a
despeito dessa elevada produção, a maior já ocorrida no estado,
não há mercadoria suficiente para atender á demanda.
"Recentemente, tivemos um inesperado excedente de 300 mil mudas,
em decorrência de aumento de produtividade em nosso viveiro e os
compradores pagaram até R$ 400 pelo milheiro, mesmo sabendo que
nosso custo de produção é bem inferior a R$ 200. Ninguém
questionou o preço", revelou o diretor da Celulose
Nipo-Brasileira S.A (Cenibra), Germano Aguiar, que é também
presidente da Associação Mineira de Silvicultura. Minas responde
por 70% do consumo brasileiro de eucalipto.
A situação não é diferente na Plantar S.A., que é a maior
empresa independente de produção de mudas do país. Seus dois
viveiros - em Curvelo (MG) e outro em Teixeira de Freitas (BA)
-, produzem 45 milhões anuais de plantas, cuja safra dos
próximos dois anos está praticamente vendida. Como a produção se
revelou insuficiente até para atender aos clientes tradicionais,
que são basicamente as siderúrgicas e fábricas de celulose, a
empresa iniciou em novembro a construção de um terceiro viveiro,
em Itumbiara (GO), que deverá produzir mais 15 milhões de mudas
a partir de 2006.
Naquele estado, a produção deverá atender, basicamente, a
grandes agroindústrias como a Perdigão e Cargill, que pretendem
substituir o óleo combustível pela lenha nos fornos de secagem
de grãos. Segundo o diretor comercial da Plantar, Marcelo
Corrêa, os sucessivos aumentos nos preços internacionais fizeram
do petróleo um combustível quatro vezes mais caro que a madeira.
A reflorestadora mineira irá investir R$ 16
milhões no projeto e tem a expectativa de administrar as
florestas dos clientes, como já ocorre em Minas e Espírito
Santo.
A impressionante demanda de eucalipto em Minas Gerais exige o
plantio de uma área anual superior três mil quilômetros
quadrados, que corresponde à soma dos municípios de São Paulo e
Rio de Janeiro e mais a baía de Guanabara. A produção é
utilizada como insubstituível insumo na fábrica de celulose da
Cenibra, que produz 1 milhão de toneladas anuais. E, ainda, na
produção do ferro gusa, que desemboca no aço. Uma tonelada de
ferro é obtida num alto forno, através da mistura de carvão
vegetal e minério de ferro, em partes praticamente iguais.
Em 2004, o preço internacional do ferro gusa disparou, superando
US$ 300 a tonelada e com a China adquirindo todo o produto
disponível no mundo. Comenta-se que na época, em Minas, quase
tudo foi utilizado para fabricar carvão, provavelmente até cabo
de vassoura. Naqueles meses, o metro cúbico carvão alcançou R$
140 e quando não houve mais madeira disponível no estado, os
guseiros foram buscá-la em Mato Grosso e até no Pará.
Consumidores em pânico, chegaram a realizar importação
experimental de madeira do Uruguai e da Argentina.
A queda no comércio internacional de ferro-gusa, registrada nos
últimos meses, não inibiu, porém o plantio de florestas. A
atividade está em pleno vapor, segundo Marcelo Correa, não
somente devido ao aparecimento de novos consumidores, como a
agroindústria mas, sobretudo, pelo déficit crônico na produção
de eucalipto para atender ao enorme consumo anual de madeira.
Segundo informou o dirigente, com a extinção
do programa de incentivo fiscal para reflorestamento, nos anos
80, houve negligência na atividade. "Sem apoio oficial, muitas
empresas se afastaram do ramo. Agora corremos o risco de não
dispor de madeira dentro de três anos. Será o apagão florestal,
semelhante ao que aconteceu com a energia elétrica", advertiu.
A produção de mudas em escala industrial é uma atividade
complexa e exige um demorado processo seletivo entre as melhores
árvores, das quais são retirados clones que por sua vez são
plantadas em gigantescos viveiros. A operação entre a escolha do
clone e a entrega da muda demora mais de 60 dias e inclui até a
aclimatação da planta em terreno semelhante ao do seu comprador.
Nas instalações da Plantar, em Goiás, irão trabalhar 300
funcionários, além de outras 700 pessoas que, de alguma forma
estarão ligadas ao empreendimento. O eucalipto estará pronto
para o abate somente sete anos após o plantio.
Indústrias de grande porte como a Cenibra ou siderúrgicas como a
Belgo Mineira, possuem florestas próprias, que alimentam em todo
ou em parte os seus altos fornos. Outros, como a Acesita, estão
substituindo seus fornos movidos a carvão mineral pelo vegetal,
que é mais barato e produzido aqui mesmo no País.
Nos últimos anos, porém, todas elas estão transferindo parte da
produção de eucalipto para fazendeiros, iniciativa tem o
objetivo de evitar grandes imobilizações patrimoniais em terras.
Estatísticas da Secretaria Estadual da Fazenda revelam que os
municípios cobertos com eucalipto no Vale do Jequitinhonha
apresentam receita fiscal superior aos dos vizinhos que vivem
exclusivamente da pecuária extensiva. Essas contas foram feitas
também pelos fazendeiros que aderiram ao programa denominado
Fazendeiro Florestal, com objetivo de criar alternativa de renda
para seus vizinhos.
Bom negócio
Durante esse tempo, desde 1967, quando o eucalipto começou a ser
plantado em escala industrial, que as florestas se revelaram
negócio mais rentável que a criação de rebanhos. Segundo estudos
realizados para Plantar pelo Instituto FNP, o eucalipto tem uma
rentabilidade de R$ 1 mil por hectare ao ano, enquanto a
pecuária de corte oferece R$ 120; a cana rende R$ 700; a soja R$
200 e o milho R$ 130. "Além disso, o eucalipto não tem
sazonalidade. Com novas tecnologias de muda, preparo de solo e
de cultivo, o plantio e a colheita acontecem 365 dias por ano",
informa Marcelo Corrêa.
Não há no horizonte, sinais de redução do consumo de madeira,
mas a ampliação da produção de mudas depende de encomendas
firmes, como lembra Aguiar. Ao sair do viveiro ela sobreviverá
durante apenas 90 dias, caso não seja plantada e por isso o
fornecimento atende prioritariamente aos grandes consumidores e
aos seus programas de reflorestamento. Esta é a dificuldade
desse mercado que sofre a interferência das pequenas e numerosas
usinas independentes de ferro-gusa, com mais de 100 fornos no
estado, que são ligados ou desligados de acordo com a demanda
internacional.
Quando os guseiros aparecem com seus caminhões
nas fazendas e suas ofertas elevadas, as regras são quebradas,
desorganizando o mercado. Um dia parado numa fábrica de
celulose, por falta de madeira, pode representar o prejuízo de
US$ 1 milhão.
kicker: Carvão vegetal é mais barato e substitui óleo
combustível usado em fornos de secagem de grãos de indústrias
como Cargill e Perdigão