Enologia Brasileira a caminho do reconhecimento internacional

 
      14 de Novembro de 2002 - Associação Brasileira de Enologia (ABE) realizou, na semana passada, em Bento Gonçalves (RS), o 1º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil (CIVB).

      Certames como este tiveram grande prestígio no final do século XIX e início do XX. Algumas das medalhas conferidas em eventos daquela época constam até hoje em alguns rótulos, como se qualidade fosse virtude permanente.

      Com a globalização, nas últimas décadas as competições voltaram à baila. Eventos como a Vinitaly (Itália), Vinexpo e Vinalies (França), Selecciones Mondiales (Canadá), Zarcillos e Bacchus (Espanha) e Vinandino (Argentina) têm grande prestígio e integram um circuito internacional enológico. Dão fama aos vencedores, agitam o setor e promovem marcas.

      É importante informar ao consumidor o verdadeiro significado dessas provas. O neófito sempre questiona: "Uma medalha de ouro quer dizer um vinho extraodinário?", ou "se estes concursos são realmente sérios, por que vinhos como o Romanée Conti não ganham sempre?". Muitas empresas têm por norma não participar de competições, pois para produtos de reconhecida qualidade e projeção internacional estas olimpíadas pouco ou nada acrescentam. Uma medalha de ouro denota mérito sim, porém relativo. Indica superioridade sobre os outros concorrentes daquele evento específico. Além disso, é preciso diferenciar os concursos. Eles se multiplicaram, confundindo o consumidor, e nem todos são idôneos. Neste sentido, é fundamental a atuação da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho), entidade maior da vitivinicultura mundial em termos técnicos e científicos.

      A OIV estabelece regras e fiscaliza os campeonatos. Destes regulamentos fazem parte a obrigatoriedade das avaliações serem "às cegas" (a amostra é servida em uma taça identificada apenas por um número, o que impossibilita que o jurado saiba qual a marca ou a procedência do produto). Além disso, uma cota dos jurados deve ser de estrangeiros, com um mínimo de doutores em enologia, e um percentual máximo de vinhos pode ser premiado. A OIV também estabelece os critérios de avaliações, tendo criado há três anos, em conjunto com a União Internacional de Enólogos (UIOE), uma ficha padrão, unificando os critérios de julgamento de todos os concursos sob sua patronagem.

      O CIVB contou com 409 rótulos concorrentes, de 12 países (Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Eslováquia, Espanha, França, Hungria, Itália, Portugal, Turquia e Uruguai). Destas amostras, cerca de 50% provinham da América Latina. Um número muito bom para a edição inaugural. Para se ter uma noção, grandes concursos chegar a ter mais de 3 mil amostras.

      Foram 28 jurados e 12 convidados estrangeiros. Entre eles os doutores em Enologia Jean-Lucien Cabirol (França) e Maria Isabel Mijares (Espanha); a jornalista Lilyane Weston (Inglaterra); o ex-presidente do Instituto do Vinho do Porto, Bento Augusto de Carvalho (Portugal), e Vicente Sanchez Migallon (Espanha), presidente da União Internacional de Enólogos. O resultado do concurso foi bastante animador. Das 409 amostras avaliadas, 118 receberam medalhas. Foram 51 de ouro, 66 de prata e um "grande ouro" para o tinto chileno Casa Silva Quinta Generación 2000. Destas, o Brasil levou 20 de ouro e 27 de prata. Os brancos nacionais ficaram com três de ouro e quatro de prata e os tintos com cinco de ouro e quatro de prata. O esperado destaque coube aos espumantes nacionais, com um total de 30 premiações, sendo 12 de ouro e 18 de prata.

      Dos produtores brasileiros os mais premiados foram a Vinícola Aurora com seis láureas (uma de ouro e cinco de prata), seguida pela Vinícola Miolo com quatro (três de ouro e uma de prata) e pela Vinhos Salton, três de ouro. Entre os estrangeiros, o destaque ficou com os chilenos da Casa Silva, com 15 comendas (uma grande ouro, sete de ouro e sete de prata), seguido pela Viu Manent, com 11 (seis de ouro e cinco de prata).

      O argentino Félix Aguinaga, presidente da OIV, destacou o profissionalismo da Associação Brasileira de Enologia, organizadora do CIVB. "Este evento é mais um passo para um país que está a caminho do reconhecimento internacional."

      (Fim de Semana/Página8)

 

 

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