Preços da castanha de caju
 
      Fortaleza, 16 de Setembro de 2002 - A colheita da castanha do caju no Ceará, estado que detém quase metade dos 650 mil hectares cultivados no Nordeste, iniciou neste mês num clima de forte expectativa em relação ao comportamento dos preços. Além da alta do dólar em relação ao real e do incremento de 15% na produtividade, outros fatores serão determinantes na fixação do valor da amêndoa.

      O setor, que movimenta US$ 230 milhões e gera 300 mil empregos, conforme dados do Banco do Nordeste (BN), está atento às estratégias dos concorrentes - Índia, Vietnã, além de alguns países africanos - e, com a portaria número 6, de 24 de julho, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) que permite a exportação do produto in natura.

      Prejuízo

      A portaria pode causar prejuízos não só para a economia cearense, que concentra cerca 90% da indústrias beneficiadoras da amêndoas, mas poderá repercutir também na pauta de exportações da região - que desde 1981 tem na exportação entre a terceira e quinta atividade que mais gera divisas.

      Segundo indústrias e produtores do Ceará, a medida pode desestabilizar a cajucultura no estado, que vem perdendo fôlego nos últimos anos. A receita com exportação caiu 36%, de US$ 137,47 milhões em 2000 para US$ 87,91 milhões no ano passado. No mesmo período, a participação do produto na pauta de exportações cearense recuou de 28% para 17%.

      Nos primeiros seis meses do ano, houve queda de 19,1% em relação ao primeiro semestre de 2001, totalizando US$ 37,77 milhões. Os números, que foram interpretados como resultantes de um fator conjuntural, já começam a ser lidos como uma sinalização de problemas estruturais na cajucultura. "Pensávamos que havia relação com fatos ocorridos nos EUA, nosso principal comprador, mas não observamos reação do mercado", diz João Hudson Saraiva, presidente do sindicato das Indústrias (Sindicaju). Das 22 indústrias em atividade sete ano, restaram apenas sete, segundo Saraiva.

      Preços em queda

      Além do jejum dos importadores, as dificuldades do setor são acentuadas com a queda na cotação da castanha. "Antes, recebíamos até US$ 2,30 por libra-peso (equivalente a 453 gramas) e agora esse valor é de US$ 1,50 por libra peso", afirma Hudson. Essa conjuntura pode frustar a expectativa de maior lucro dos produtores rurais. "Na região de Picos, no Piauí, já estão pagando R$ 1 por quilo da castanha in natura. O preço vai mesmo depender da cotação no exterior; do dólar; das empresas compradoras; e de qual será a safra dos concorrentes internacionais e suas estratégias de mercado", diz Carlos Prado, que cultiva 1,2 mil hectares no município de Canto do Buriti, a 400 quilômetros de Teresina (PI).

      O presidente do Sindicato dos Produtores de Caju no Ceará (Sincaju), Paulo de Tarso Meyer, confia num acordo com a indústria para o estabelecimento de um preço mínimo para a castanha. Mas em função da possibilidade de exportar o produto in natura, quer a contrapartida da indústria. O setor, que há um mês reivindicava piso de R$ 0,85 para o quilo - R$ 0,14 acima do ajustado no ano passado -, agora pede R$ 1. Segundo Meyer, nesta safra o Ceará vai colher 90 mil, 15% superior a 2001.

      A demanda continua retraída. "As indústrias aumentaram a capacidade instalada", afirma Meyer. A capacidade instalada da indústria é de 330 mil toneladas por ano, mas a ociosidade é de 58%.

      A maior oferta mundial também reduz a procura pela amêndoa. Outro problema é a mão-de-obra barata dos países concorrentes.

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