Produção paranaense cresce 800% em agricultura orgânica
22 de Julho de 2002 - A produção
paranaense de agricultura orgânica cresceu 800% nos últimos cinco
anos, passando de 4,5 mil toneladas em 1996 para 35 mil toneladas na
última safra, segundo levantamento da Empresa Paranaense de Assistência
Técnica e Rural (Emater). Embora ainda represente menos de 3% do
volume da produção convencional, a taxa de crescimento do cultivo
de orgânicos no Brasil é de 30% a 40% ao ano, bem acima do índice
médio mundial de 20%. `O que 'puxa' o mercado é a demanda, que está
crescendo com a busca de produtos diferenciados. Além de ser uma
oportunidade para pequenos proprietários rurais`, explica Onildo
Benvenho, consultor e coordenador estadual de agronegócios do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Os orgânicos
são aqueles produtos nos quais não são utilizados agrotóxicos ou
agentes químicos em sua produção.
O Paraná tem uma área de 10,3 mil
hectares ocupada com orgânicos, a maior parte concentrada na região
metropolitana, que possui 650 produtores dedicando-se principalmente
ao cultivo de frutas e hortaliças. A região Sudoeste é a segunda
maior, com 600 agricultores, especialmente de grãos - soja, feijão
e trigo. E foi justamente no Sudoeste do estado que o Sebrae iniciou
o Programa de Agricultura Orgânica. Com pouco mais de dois anos, já
atende 70 municípios nas regiões Oeste, Norte, Noroeste, Sudoeste,
Região Metropolitana de Curitiba, Centro Sul e Litoral, e tem cerca
de 3 mil produtores rurais em fase de capacitação ou em conversão
(o período de tempo utilizado para desintoxicar o solo da
agricultura tradicional, que usa agrotóxicos).
Mais de 200 propriedades rurais já
foram vistoriadas e aguardam a certificação pelo Instituto Biodinâmico
de Botucatu (IBD), de São Paulo. `Esta certificação é
reconhecida internacionalmente, o que permite ao produtor exportar.
Mas a produção ainda é pequena, o que faz com que 80% dos
produtos sejam consumidos regionalmente`, diz Reni Kovalski, técnico
da secretaria de agricultura do município de Cruzeiro do Iguaçú
(região sudoeste do Paraná).
O programa do Sebrae desenvolve ações
e projetos de horticultura, fruticultura, produção de cereais,
plantas medicinais e criação de animais diferenciados, como suínos
e frangos. E também realiza ações específicas com a produção
de cana-de-açúcar e seus derivados, inclusive cachaça orgânica e
também na pecuária leiteira.
Cinqüenta produtores de cachaça
artesanal e orgânica das regiões Oeste e Sudoeste estão iniciando
a formação de um consórcio para a exportação. Paulo Porsch,
consultor do Sebrae e coordenador do projeto, salienta que o
trabalho visa incluir os pequenos produtores no Programa Brasileiro
de Desenvolvimento da Aguardente e da Cachaça (PBDAC), realizado em
parceria com a Agência de Promoção de Exportações (Apex). A
expectativa é que o consórcio esteja constituído já no segundo
semestre deste ano. De acordo com coordenador estadual de agronegócios
da entidade, já existem negociações para exportação da cachaça
para a Suíça.
A preocupação com a qualidade do
alimento consumido em várias partes do mundo está fazendo com que
aumente a demanda pelos alimentos orgânicos. Mas o ingresso na
atividade exige um processo demorado. O período de conversão é,
em média, de 3 anos, mas, segundo os especialistas, a longo prazo a
cultura é mais eficiente e rentável, além de menos agressiva para
o meio ambiente. Segundo pesquisa da Emater, cada produtor de orgânicos
no Paraná ganhou no ano passado R$ 4,3 mil a mais. `O custo da
produção é 30% menor do que a convencional e o preço de
comercialização é em torno de 30% maior`, afirma o consultor do
Sebrae.
`A agricultura orgânica é uma das
ferramentas que disponibilizamos hoje para a organização
principalmente da agricultura familiar. Já que o produto orgânico
não exige grandes áreas`, completa .
Com uma propriedade de nove hectares
no município de Cruzeiro do Iguaçu, o produtor rural Ademar Roos
abandonou a pecuária leiteira há cinco anos, quando passou a
utilizar uma área de quatro hectares para a produção de orgânicos,
principalmente de pepino. No ano passado, no ciclo de três meses do
pepino, ele e a família, produziram entre 10 mil a 12 mil vidros de
conserva. A expectativa é produzir entre 15 mil a 20 mil unidades
neste exercício. Roos diz que o produto é comercializado a R$ 1,50
e tem uma rentabilidade de 22%. Com o aumento da comercialização,
o agricultor terá que aumentar a produção e já está
terceirizando o serviço. `Estamos integrando produtores para
produzir`, conclui Roos.
Mais de 2 mil agricultores em conversão
Ao todo, segundo dados do Sebrae,
pouco mais de dois mil produtores rurais estão em pleno processo de
conversão para a agricultura orgânica no Estado e outros 800 estão
em fase de capacitação inicial, participando de mais de 35 turmas
do Curso Básico em Agricultura Orgânica que acontece
simultaneamente em vários municípios. Ao menos 230 produtores
capacitados estão atualmente em pleno processo de certificação
como produtores orgânicos.
Além da capacitação, o programa
também promove a organização dos produtores. Até o início do mês,
em 18 municípios atendidos os produtores rurais capacitados
constituíram uma associação de agricultores orgânicos. Ele é
realizado através de uma instituição especializada contratada
pela regional do Paraná do Sebrae, o Instituto Maytenus para o
Desenvolvimento da Agricultura Sustentável, com sede em Toledo. No
final de 1999 o Sebrae contratou a Maytenus para fazer um diagnóstico
amplo na região, quando foram detectados que em todos os municípios
havia algum produtor de pequeno porte produzindo de forma orgânica,
principalmente hortícolas. `Como já havia algumas experiências
isoladas, resolvemos agir estrategicamente para fortalecer esta tendência
e torná-la viável economicamente`, diz Benvenho.
A agricultura orgânica tem se
mostrado um importante aliado aos esforços para recuperação e
preservação dos ativos ambientais, uma vez que milhões de litros
de agrotóxicos e toneladas de fertilizantes químicos deixam de ser
despejados no campo a cada ano agrícola. `Os técnicos do Instituto
Maytenus estimam que, no Paraná, pelo menos meio milhão de litros
de agrotóxicos e cerca de 26 mil toneladas de outros insumos químicos
sólidos deixam de ser jogados na natureza apenas em duas safras das
mais comuns do ano agrícola para a maioria dos produtores, as de
soja e milho safrinha`, conclui o consultor.