Lodo enriquece lavouras do Cerrado
 
      09 de Julho de 2002 - O término da colheita e a proximidade da época de preparo do solo para o próximo plantio produzem um movimento inusitado nos pátios da Estação de Tratamento de Esgoto Sul (ETE-Sul), no Distrito Federal. São as filas de caminham que se formam para o carregamento de uma pasta rica em nitrogênio, fósforo, potássio e material orgânico resultante do tratamento do esgoto da população do Plano Piloto. A crescente utilização do lodo na produção de alimentos confere nobreza a um dos dejetos mais desprezados pelas civilizações e comprova a viabilidade de realimentação do ciclo biológico. No auge da procura pelo lodo em Brasília, entre os meses de julho, agosto e setembro, chegam a ser formadas filas de 20 caminhões nos pátios da ETE-Sul.

      No DF, a grande procura dos agricultores pela ´torta´ produzida pelas estações de tratamento motivou a Companhia de Água e Esgoto Brasília (Caesb) a destinar R$ 1 milhão à montagem de uma unidade industrial de higienização, que está em funcionamento na ETE-Sul. A higienização ocorre por meio da adição da cal ao lodo, que permite que os dejetos possam ser usados no cultivo de hortaliças, único tipo de lavoura para o qual a utilização do lodo era proibida. O produto é distribuído gratuitamente.

      Aumento da produção

      A Caesb produz cerca de 200 toneladas de lodo/dia, volume que, até o fim de fevereiro, aumentará para 400 toneladas/dia. Isto será possível pela entrada em operação das duas estações de tratamento de esgoto que estão em construção nas cidades-satélites do Gama e de Samambaia. ´Na época de preparo do solo para plantio, o lodo produzido é insuficiente para atender a todos, mas até o fim de fevereiro vamos dobrar a produção desta torta´, afirma o gerente da ETE-Sul, Carlos Eduardo Borges Pereira.

      Além de duplicar a oferta do lodo, também será aumentado o volume higienizado. Conforme explica Carlos Eduardo, o processo de formação da torta começa com um gradeamento que retém madeira, materiais plastificados e produtos de uso pessoal como fraldas. Desta peneira sobram os restos de alimentos e fezes permeadas de bactérias imprescindíveis para a nutrição do solo. ´Esta torta também é rica em nitrogênio, fósforo e potássio, elementos essenciais para a agricultura, que formam o material orgânico´, reforça Borges Pereira.

      Mesmo sem passar pela unidade de industrialização e higienização, a torta de lodo é indicada no preparo de solos para o plantio de grãos e em culturas permanentes como frutíferas, café e capineiras e desde o ano passado vem sendo utilizada com intensidade pelos agricultores do Distrito Federal que plantam trigo, milho e frutas e também na recuperação de pastagens.

      Outros estados

      O lodo resultante do tratamento de esgoto da população do Plano Piloto também vem sendo utilizado por produtores de café de Patrocínio (MG), produtores de café e mamão de Correntina (BA) e por plantadores de frutas e milho e por pecuaristas de Goiás.

      Mediante a adição do cal, que está sendo feita em caráter experimental na unidade de industrialização e higienização da ETE-Sul, a torta de lodo será indicada também para a nutrição de hortas. A vantagem da adição do cal ao lodo decorre, segundo informa Borges Pereira, do aumento do Ph dos dejetos. Depois que se obtém o material formado por restos de alimentos e fezes em formato líquido, o lodo segue para um processo de desidratação e transforma-se em uma pasta. É nesta fase que para cada tonelada de lodo adiciona-se 50 quilos de cal virgem.

      ´A adição da cal faz com que o Ph de 7 passe para 12, os microorganismos perdem água por osmose neste meio alcalino e não conseguem sobreviver e se reproduzir´, explica o gerente da ETE-Sul. A unidade de industrialização e higienização entrou em atividade há dois meses e ainda opera em caráter experimental processando 120 toneladas das 200 toneladas/dia.

 
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