Inpa negocia
transferência de tecnologia para setor privado
Manaus, 27 de Setembro de 2002 -
Quinze produtos estão prontos para serem transferidos para
empresas. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
começou a negociar a transferência da tecnologia de produtos e
serviços desenvolvida em seus laboratórios para empresas. Cerca
de 50 delas já demonstraram interesse em realizar negócios com a
instituição. O Inpa espera obter R$ 1 milhão no primeiro ano de
funcionamento do Núcleo de Negócios, inaugurado anteontem.
"Temos hoje cerca de 15 produtos prontos para serem
transferidos para o setor produtivo", diz o coordenador do núcleo,
Fernando Paulo Teles.
A primeira tarefa assumida pelo núcleo
foi realizar um levantamento do volume tecnológico gerado nos últimos
48 anos pelos pesquisadores da instituição. Teles informa que,
no primeiro momento, os empreendedores se interessaram pelos
produtos mais divulgados pela instituição. Ele recomenda, no
entanto, que as empresas apresentem as suas necessidades para que
sejam avaliadas. "Queremos saber, também, qual é a demanda
do setor produtivo para atendê-lo dentro do que dispomos ou até
sugerir opções."
Curtume de peixes
O Inpa é referência mundial em
pesquisas da biodiversidade tropical. Há tecnologias conhecidas há
mais de dez anos, porém, sem aplicação por falta de articulação
entre a instituição e a iniciativa privada. É o caso dos
curtumes de peixes regionais desenvolvidos por pesquisadores do
Departamento de Tecnologia de Alimentos para a fabricação de
roupas, calçados e acessórios. "Hoje, o couro de peixes é,
no mínimo, mal usado", afirma Teles. Ele não revela nomes,
mas assegura que existem várias empresas interessadas nessa
tecnologia.
Outro exemplo é o da tecnologia
para aproveitamento de madeiras não-comerciais. Pesquisadores do
Inpa criaram uma fórmula de tratamento que aumenta a resistência
e a durabilidade da madeira que geralmente é desperdiçada na
região. Uma iniciativa que pode ser aplicada na construção de
casas populares, para, entre outros benefícios, reduzir a pressão
sobre as madeiras nobres e ameaçadas de extinção. Ainda nessa
área, foi criada uma maneira de aproveitar a serragem na fabricação
de pisos e móveis.
Já está em fase bastante
adiantada a parceria com a Oriam Sabores Exóticos da Amazônia,
fabricante de balas com frutas regionais. O Inpa vai repassar para
a empresa toda a metodologia de fabricação de geléias de frutas
regionais, com a garantia de maior durabilidade e padronização
de sabor. Há uma procura significativa por técnicas de manejo de
plantas medicinais, onde o Inpa atua com excelência. Só no herbário
do campus de Manaus, a instituição possui 240 mil espécies
catalogadas. "Essas tecnologias são estratégicas porque
criarão oportunidades de emprego e renda no interior da Amazônia."
Consultoria científica
O Núcleo de Negócios vai colocar
à disposição das empresas serviços de consultoria científica
e de laboratórios. O Inpa possui sofisticados equipamentos que
podem ser usados por terceiros mediante contrato, como o seqüenciador
de DNA, um aparelho de R$ 500 mil. "Será possível, por
exemplo, fazermos um contrato com o Ministério da Justiça para a
realização de exames de paternidade." Empresas de informática
e de eletroeletrônicos poderão testar microchips em Manaus, por
meio de um microscópio eletrônico de varredura, do Inpa, que tem
capacidade de redução de até 300 mil vezes.
O núcleo conta com profissionais
da área da Economia e Direito. Os recursos obtidos com a transferência
de tecnologia e serviços serão aplicados em pesquisa e na
manutenção da instituição, rubricas que têm orçamento anual
previsto de R$ 10 milhões. "Cada grupo de pesquisadores
receberá as royalties correspondentes aos contratos que
realizarem." O contratante da tecnologia receberá as
atualizações geradas pela instituição.
As empresas poderão vincular o
Inpa como instituição que dá aval a seus produtos e serviços
desde que cumpram os critérios científicos recomendados pelos
pesquisadores. "Como benefício, elas terão a marca Amazônia
e a competência científica do Inpa agregados aos seus
produtos", explica Teles.
Para o presidente do Centro das Indústrias
do Estado do Amazonas (Ciam), Maurício Loureiro, a iniciativa
coloca em prática a missão do Inpa - produzir conhecimento científico
com finalidade social. "Não adianta produzir ciência
enclausurada." O consultor de empresas Ronaldo Bonfim, da
Consultora Yamagishi, acentua que o projeto do Inpa rompe com a
separação histórica que existe entre a ciência e a iniciativa
privada no Brasil. "Quem aplica a ciência é a empresa.
Logo, tem que haver parceria entre as instituições científicas
e a iniciativa privada", diz.