A redução de custos prometida pela agricultura de precisão.
12 de Junho de 2002 -
O resultado da colheita de duas áreas
que somam 265 hectares com soja e milho no interior de Não-Me-Toque,
na região do Planalto Médio gaúcho, confirma o aumento de
produtividade e a redução de custos prometida pela agricultura de
precisão. As duas lavouras do Projeto Aquarius, uma parceria entre
a AGCO do Brasil e a Stara Sfil, formam o primeiro laboratório
aberto de testes práticos para o estudo do impacto da introdução
da nova tecnologia em escala comercial no País. Na área de 132
hectares cultivada com milho, a produtividade alcançou 5.880 quilos
por ha. O resultado é 20% superior à média regional, 4.680 quilos
por ha. O número também é 13% superior à média de 5.100 quilos
por hectare obtida em outras lavouras da mesma propriedade, a
Fazenda Anna, onde foram adotados os métodos convencionais.
Nos 124 hectares plantados com soja,
a produtividade chegou a 2.880 quilos por hectare. A média da região
ficou em torno de 2.040 quilos por ha (29% menor) e, a da
propriedade, 2.520 quilos por ha (12,5% menor). Um dos
administradores da fazenda e neto do proprietário, Fernando
Trennepohl, diz que, em virtude da estiagem que atingiu a região, a
produtividade verificada surpreendeu positivamente.
A comparação com as demais lavouras
da propriedade também demonstra a redução de custos com insumos.
Na área cultivada com milho, se obteve uma economia de 18% na
aplicação de adubo. Na agricultura convencional, com aplicação
à taxa fixa, seriam necessárias 59,4 toneladas (450 quilos por ha)
de um produto formulado (com fósforo e potássio), a um custo de R$
390 a tonelada, totalizando gastos de R$ 23.166,00. Já com a aplicação
à taxa variável, foram utilizados 52 toneladas de Super Simples
(SSP), um produto mais barato (R$ 255,00 a tonelada) da Serrana
Fertilizantes, colaboradora do projeto, e 14 toneladas de cloreto de
sódio (KCL), avaliado em R$ 414,00 a tonelada, somando gastos de R$
19.056,00 - uma economia de R$ 4.110 nos 132 ha. ´Com a análise do
solo em vários pontos, dá para saber onde se necessita apenas de
Super Simples e onde colocar apenas cloreto de potássio´, explica
o engenheiro Gregory Riordan, da AGCO, empresa fabricante dos
produtos Massey Ferguson.
Na lavoura de 124 hectares com soja,
a economia alcançou um percentual de 23%. Com a aplicação à taxa
fixa, seriam necessários 40,3 toneladas (325 quilos por hectare) do
fertilizante Microgran, também da Serrana, cujo custo é de R$
303,00 a tonelada. Neste caso, os proprietários teriam de
desembolsar R$ 12.210,00. Com a aplicação à taxa variável,
suprindo o nível de deficiência de cada ponto da área graças à
análise do solo, foram utilizadas apenas 31 toneladas do
fertilizante, reduzindo os custos para R$ 9.303,00, uma economia de
R$ 2.817,00. ´Multiplicando a área da lavoura por 10, para
chegarmos à extensão de uma fazenda comercial, a economia seria de
R$ 28 mil. E sem contar que, nos pontos onde havia deficiência, se
estaria produzindo mais´, reforça Riordan, ressaltando que os
benefícios da aplicação serão melhor sentidos na próxima safra,
porque alguns produtos demoram mais para agir no solo.
A agricultura de precisão nasceu na
Europa na década de 80, sendo definida como uma ferramenta
inovadora para o gerenciamento da propriedade. O segredo para o
aumento da produtividade e a redução dos custos está nos novos
instrumentos que possibilitam uma aplicação mais racional dos
insumos, seguindo a necessidade real de cada porção da área. A
agricultura de precisão é considerada um ciclo, que pode ser
iniciado tanto pela colheita quanto pela análise do solo. Na
primeira hipótese, sensores de rendimento implantados em
colheitadeiras permitem ao agricultor conhecer, dentro da área que
será cultivada, os pontos com maior ou menor produtividade.
Conhecendo o rendimento de cada porção da lavoura, a área é
esquadrinhada por uma análise de solo para que sejam detectadas as
deficiências de cada zona de manejo. Apenas deste modo será possível
corrigi-las, tornando a lavoura uniforme.
O terceiro passo do processo é a
aplicação do fertilizante para corrigir as manchas de baixas
produtividade, por meio de uma tecnologia implantada nos implementos
que permitem a variação das doses de acordo com a necessidade de
cada ponto. É a chamada aplicação em taxa variável, executada
através de equipamentos interligados no trator e no distribuidor.
Sem qualquer interferência do operador das máquinas, os
equipamentos reduzem ou aumentam a aplicação do insumo nos pontos
exatos.
Toda esta precisão foi possível
apenas com o advento do GPS (sistema de posicionamento global).
Anteriormente municiado pelo mapa de aplicação (um negativo do
mapa das deficiências detectadas na análise do solo) o aparelho de
posicionamento global, guiado por satélite, comanda a liberação
do produto na lavoura. No método tradicional, fertilizantes e
agroquímicos são distribuídos de forma uniforme em toda a extensão
da área cultivada, causando desperdícios e maiores riscos
ambientais devido à saturação de substâncias tóxicas. Além da
AGCO, da Stara Sfil (indústria de implementos agrícolas) e da
Serrana, também participam do projeto a Monsanto e a Insolo Soluções
Agrícolas.
Caio Cigana de Porto Alegre