Web no campo abre mercado à tecnologia
São Paulo, 25 de Julho de 2002 - Apesar do crescimento, apenas 6,7% das propriedades rurais paulistas usam computador. As empresas de informática têm um vasto campo para explorar no estado. Apesar do crescimento de 82% do uso a internet no meio rural entre novembro de 2000 e junho de 2001, apenas 10.086 (6,7%) das 277.127 propriedade rurais paulistas possuem computador. Os dados são de pesquisa recém-concluída do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria Estadual da Agricultura.
"A agricultura chega a sua terceira revolução", diz a pesquisadora Vera Lúcia Ferraz dos Santos Francisco, do IEA. "A primeira, foi a substituição da tração animal pela motora; a segunda, o controle químico de produção", explica. "Agora, a transformação se dá pela biotecnologia e a teoria da informação; quem tiver um dado em primeira mão, dá um passo adiante." Apesar do avanço no uso da web, o meio agrícola paulista apenas engatinha, se comparado com os Estados Unidos - onde o uso da internet teve crescimento de 29% em 1999 e de 43% em 2001. "Nossa realidade ainda é bastante diferente", diz a pesquisadora.
O levantamento identifica algumas razões para o uso da rede de computadores ainda ser pequeno no campo brasileiro. Entre os fatores limitantes à adoção da nova tecnologia, a pesquisa do IEA aponta a falta de informações, a resistência natural pelos proprietários tradicionais e experiências frustradas de uso do computador.
Ferramenta da nova geração
"Percebemos que a nova geração de agricultores passa a adotar cada vez mais a internet", afirma o engenheiro agrônomo Thomas Nitzsche, diretor do Sindicato Rural de Mogi das Cruzes. "É natural, pois hoje a ferramenta não é nenhuma novidade e é dominada facilmente por uma criança de dez anos." De acordo com Nitzsche, mais da metade dos 5 mil produtores do Alto Tietê já possuem computador. "Mas não sabemos qual porcentagem utiliza o equipamento para gerenciar sua propriedade ou para buscar informações que melhorem a produção." O sindicato tem procurado incentivar o produtor a se atualizar por uma página que mantém na rede.
O levantamento do IEA apontou que dos proprietários paulistas que declararam ter acesso à internet, 74% a utilizam para obter notícias sobre o setor agrícola; 71% para acessar dados do mercado agrícola (como preços e análises); 48% para obtenção de informações sobre extensão rural e ajuda técnica; e 28% para comercialização eletrônica.
E-business na agricultura
Embora a pesquisa não tenha meios de afirmar, o crescimento do uso da internet no meio rural pode estar ligado ao aumento dos negócios feitos on-line. Em 2001, as empresas movimentaram R$ 300 milhões no e-business (um acréscimo de 56% dos negócios) e estima-se que, em 2002, a cifra chegue a R$ 700 milhões.
Neste quesito, os números brasileiros também são pequenos. Nos Estados Unidos, em 1999, mais de US$ 2 bilhões foram comercializados em insumos agrícolas pela rede mundial e estima-se que, em 2004, o volume do comércio eletrônico chegue a US$ 120 bilhões - 8% do total.
No meio agrícola paulista, as empresas estão investindo em novas formas de comercialização, acreditando estar transformando os negócios pela internet em mais dinâmicos e com custos menores. Tanto é que a pesquisa do IEA apontou que o crescimento do uso da web ocorreu principalmente nas grandes propriedades.
Existe concentração do número de computadores em propriedades de grande área, de 5 mil a 10 mil hectares 65%), proprietários que possuem alto nível de escolaridade (56%), propriedades empresariais e entre aqueles que não residem na propriedade. Nas propriedades onde há utilização de computadores, 83% dos proprietários não residem no local e 67% são empresas.
Para o agronegócio, as tendências do mercado desta tecnologia são o uso de equipamentos de precisão e a utilização de sistemas gerenciais (incluindo a internet). Na primeira tendência identificam-se os produtos de automação do monitoramento do clima voltado à agricultura, sistemas de GPS e robótica, entre outros. Verificou-se, conforme estudo obtido pela pesquisa, que as empresas brasileiras estão aumentando seus investimentos nos softwares para atender demandas em integração de sistemas de produção, bem como instalação de sites agropecuários. Apesar da enorme diversidade de sistemas de produção e peculiaridades de cada unidade de produção, a pesquisa aponta o uso da informática em administração (contabilidade rural, controle de inventário, administração de trabalhadores); produção animal (reprodução, controle produtivo, sanitário, entre outros); e produção vegetal - principalmente na gestão do processo de produção.
Em novembro de 2000, as utilizações mais comuns declaradas pelos proprietários foram editoração de textos, cartas e similares (81%), contabilidade agrícola (77%), administração geral da fazenda (76%), administração rural (66%), administração na criação de gado (56%), administração de colheita (53%) e administração de máquinas (53%).
Produtores criam sites
Na região de Mogi das Cruzes, uma das mais produtivas do estado, a internet vem sendo usada por diversos agricultores. "Passamos a nos orientar cada vez mais pelo computador", afirma Sati Kengi, cujo marido produz hortaliças. "Acompanhamos o mercado e cotamos os preços de equipamentos que a propriedade necessita, além de obtermos informações sobre novas técnicas de plantio", diz.
"O uso da web tem sido cada vez mais indispensável", analisa Mirine Haga, que cultiva orquídeas no Alto Tietê. O produtor tem um site na internet em que apresenta seu produto para o mundo todo. "É uma grande vitrine e nenhum empreendedor pode deixar de expor", avalia.
De acordo com a pesquisadora do IEA, a logística passa a ser cada vez mais importante para o meio rural. "Com a possibilidade de vender a produção até na China, o agricultor vai ter que fazer seu produto chegar lá com qualidade", diz Vera. "Para isso, a associação entre produtores e empresas especializadas passa a ser indispensável."