Sonda Aqua aperfeiçoa previsão de chuva
05/10/2002
Até o final do ano um sensor brasileiro de apenas 60 kg a bordo de
um satélite espacial do tamanho de um microônibus vai aperfeiçoar
a previsão das chuvas pelo Brasil -e portanto contribuir para
diminuir os riscos de inundações, como as que certamente castigarão
a Grande São Paulo na próxima estação chuvosa.
O HSB -sigla em inglês para Sensor de Umidade para o Brasil ("Humidity
Sounder for Brazil")- foi lançado em maio a bordo do satélite
americano Aqua, que faz parte de um abrangente programa de observações
espaciais da Terra, o EOS. O objetivo é obter informações sobre
as mudanças climáticas pelas quais está passando o planeta,
notadamente as causadas pelo homem.
"Estamos verificando os parâmetros de calibragem do
instrumento. Em agosto já teremos informações úteis para
pesquisa. E em seis meses os centros meteorológicos começarão a
assimilar os dados", disse Roberto Vicente Calheiros, da Unesp
em Bauru (SP), que ontem fez uma palestra na reunião da SBPC
(Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) abordando o
tema.
O HSB é um instrumento que faz a varredura da atmosfera por
microondas para obter dados de intensidade de chuva, densidade de
nuvens e perfis de vapor d'água. Seu desenvolvimento por uma
empresa estrangeira -mas incluindo alguns componentes fabricados no
Brasil- foi coordenado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), que também fez os testes iniciais de calibragem em sua
sede em São José dos Campos (SP). Técnicos do Inpe depois
integraram o instrumento ao satélite nos EUA.
"É o melhor instrumento hoje a bordo do satélite, com a
melhor sensibilidade", diz Calheiros. O sensor foi projetado
para se adequar às necessidades específicas do Brasil.
Dimensões continentais
Devido à sua extensão, o país é muito dependente de satélites
para a obtenção de dados que englobem todo o território. Há regiões
de difícil acesso, como o interior da Amazônia, onde é mais
complicado obter dados meteorológicos contínuos e de qualidade.
Os comitês da comunidade científica internacional ligados ao
estudo das mudanças climáticas elegeram as principais informações
que precisam ser coletadas de modo sistemático para não só
melhorar a qualidade das previsões de tempo, como também obter
dados para os modelos de simulação do clima.
São coisas como cobertura do solo, coloração do oceano, sondagens
da atmosfera ou o balanço da radiação da Terra (o que entra e o
que sai de energia radiante, como a solar).
"Ainda não temos medidas confiáveis de umidade do solo",
diz Calheiros. E um dos maiores problemas em sensoriamento ambiental
continua sendo a redundância de informação -os mesmos dados
captados por satélites de diferentes países ou instituições pelo
mundo.
"É um conjunto muito complexo de variáveis", afirmou
outro pesquisador na palestra, Juan Ceballos, do Inpe. E essas variáveis
interagem dinamicamente.
Por exemplo, a fumaça das queimadas brasileiras - "um círculo
de fogo em volta da Amazônia"- cobre milhões de quilômetros
quadrados, e com isso altera a formação das nuvens e das chuvas em
uma vasta região, incluindo o Sudeste brasileiro, afirma Ceballos.
O pesquisador do Inpe lembrou a dimensão da mudança que a ação
humana está provocando ao emitir gases, principalmente através de
atividades industriais, que ampliam o efeito estufa (aprisionamento
da radiação na atmosfera). "Nos anos 80 e 90 houve o maior
aumento de emissões dos últimos 420 mil anos", diz ele. Em
1800 o gás carbônico na atmosfera, o principal causador do efeito,
estava na proporção de 280 ppm (partes por milhão); hoje, o índice
está em torno de 360 ppm.
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