Os custos dos
incêndios na Amazônia
Belém, 24 de Setembro de 2002 -
Trabalho pioneiro do Ipam avalia que prejuízos causados pelo fogo
chegam a US$ 5 bilhões. A dependência do uso do fogo no sistema
agrícola da Amazônia tem causado perdas econômicas desnecessárias
à região. Por isso, uma das opções de cultivo que já está
sendo implementada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) é o plantio direto, prática que usa a mecanização
para o preparo do solo, desenvolvida especialmente para a área,
muito propensa à erosão. A técnica impede que o solo fique
totalmente descoberto e a lavoura é cultivada entre fileiras de
capim. "O problema é que, em geral, o pequeno produtor não
tem dinheiro para comprar os equipamentos usados na mecanização",
diz Maria del Carmen Vera Diaz, pesquisadora da organização não-governamental
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Ela informa
entretanto que está sendo negociada uma opção para liberar crédito
a esse produtor. A iniciativa é do Ipam em conjunto com a Federação
dos Trabalhadores da Agricultura da Amazônia (Fetagri). Maria del
Carmen adianta que a linha de crédito estará disponível por
meio do Banco da Amazônia (Basa), com recursos do Fundo
Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) e de outras
instituições financeiras. A ação decorre de pesquisas como a
que o Ipam acaba de divulgar, "O Preço Oculto do Fogo na
Amazônia: custos econômicos associados ao uso do fogo".
Prejuízos financeiros
Os incêndios florestais na Amazônia
são um dos maiores responsáveis pela emissão de carbono na
atmosfera (o outro é o desmatamento), além de causarem prejuízos
financeiros de porte. O estudo estima que os incêndios na
floresta Amazônica ocorridos em 1998, ano do fenômeno El Niño,
lançaram no ar cerca de 250 milhões de toneladas de carbono, em
média. O que significa o mínimo de 36 milhões de toneladas e o
máximo de 472 milhões de toneladas. Em 1995, ano em que não
houve o El Niño, foram liberadas em média 16 milhões de
toneladas de carbono - mínimo de três milhões e máximo de 29
milhões de toneladas. Na avaliação não está incluída a
liberação de carbono pelo desmatamento ou corte raso de
florestas.
O El Niño é uma conseqüência da
mudança climática global que torna o clima mais seco,
propiciando a propagação mais rápida do fogo nas matas. O fogo
é usado pelos agricultores na Amazônia para converter a mata
derrubada em cinza, a fim de preparar a terra para o plantio e
combater as plantas invasoras de pastagens. Maria del Carmen,
principal autora do estudo, explica que a grande variação na
estimativa deve-se às incertezas sobre áreas de incêndio
florestal, e sua variação de um ano para o outro, além da falta
de exatidão sobre o efeito do incêndio no estoque de carbono da
Amazônia.
O relatório aponta também que a
área de incêndio florestal, em 1998, chegou a cerca de 30 mil
km2 ou quase duas vezes a área desmatada anualmente na região
Amazônica. Essa avaliação não incluiu o grande incêndio de
Roraima, que aconteceu nesse mesmo ano, onde 13 mil km2 de
floresta foram incendiados.
A pesquisa ajustou o foco nas
propriedades agrícolas, onde as perdas mais significativas são
causadas pelo fogo que atinge as áreas vizinhas, quase sempre
florestadas. Entre essas perdas, contabilizou os prejuízos
associados com a queima acidental de pastagens - que implica no
arrendamento de outras pastagens até que o pasto se recupere -,
de cercas e de floresta ou perda de madeira comerciável. Na
sociedade, foram avaliadas as perdas com a liberação de carbono
na atmosfera, que provoca prejuízos na economia pelo aquecimento
global, e as perdas associadas a doenças respiratórias, na Amazônia.
Temperatura global
Em 1998, as emissões de carbono,
significaram um prejuízo econômico para o Brasil de US$ 4,7 bilhões,
em média, conforme mostra a pesquisa. Em 1995, o valor perdido
com as emissões foi de US$ 290 milhões em média. As comparações
seguem tendo como referência o fenômeno El Niño. "Está
começando a se desenvolver no mundo um mercado de seqüestro de
carbono. Em alguns países, paga-se para o agricultor não queimar
a floresta, a fim de não liberar carbono e, conseqüentemente,
evitar a elevação da temperatura global e o efeito estufa. A
Amazônia está perdendo oportunidades nesse marcado mundial. Os
valores do prejuízo financeiro retratado no relatório estão
relacionados ao preço do carbono no mercado", afirma Maria
del Carmen.
O estudo foi realizado em
aproximadamente dois anos pelo Ipam, em parceria com o Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), instituição ligada ao
governo federal, e o WHRC - Woods Hole Research Center, dos
Estados Unidos. O ineditismo do relatório, de acordo com Maria
del Carmen, está no fato das análises dos incêndios terem sido
feitas por meio de sobrevôos de avião, entrevistas detalhadas
com 202 proprietários rurais e imagens de satélites.
Normalmente, as emissões de carbono são medidas somente pela
observação das áreas desmatadas. Os desmatamentos na região
Amazônica são responsáveis em média pela emissão de 200 milhões
de toneladas de carbono por ano, segundo a pesquisadora.
Doenças respiratórias
Entre 1996 e 1999, as perdas médias
de pastagens e cercas com os incêndios foram de US$ 54 milhões
por ano, enquanto as de madeira foram de US$ 7 milhões. No nível
da propriedade, essas perdas significaram no período 0,1% do
Produto Interno Bruto (PIB) da Amazônia e 0,6% do PIB da produção
agropecuária regional por ano. As doenças respiratórias
provocaram em média perdas de US$ 6 milhões anuais, causando de
quatro mil a 13 mil internações por ano, considerada apenas a
rede pública de saúde.
No total, ainda segundo o estudo, a
média das perdas anuais provocadas por incêndios - emissão de
carbono, perda de pastagens e de cercas e doenças -, ocorridos na
região Amazônica, nos últimos quatro anos, somam US$ 102 milhões
a US$ 5 bilhões. O que representa entre 0,2% e 9,3% do PIB da
Amazônia ou de 2% a 7,9% do PIB agropecuário da região.
Entretanto não foi possível
contabilizar vários danos provocados pelo fogo, tais como, a
perda da biodiversidade nas florestas que sofrem incêndio,
impactos nos rios e igarapés, erosão do solo e os danos causados
pela exportação de fumaça para outras regiões. O maior prejuízo
vem mesmo das emissões de CO2, por representarem danos à
economia global. Mesmo de menor magnitude, os custos associados à
saúde indicam quanto está perdendo a população no seu
bem-estar por conta dos casos de morbidade e perdas de vidas.
"A perdas agropecuárias e florestais", diz Maria del
Carmen, "refletem os custos privados para os produtores
rurais, que não entram na contabilidade do sistema econômico".
A pesquisadora considera que a
sociedade brasileira deve fazer estimativas dos custos econômicos
do fogo na Amazônia de modo a ter uma visão mais integrada do
problema. "Com o corrente enfoque nas transações monetárias
como medida principal da produção econômica da região, os
prejuízos sofridos pela sociedade por meio da degradação
ambiental são geralmente excluídos das análises e os benefícios
econômicos do desenvolvimento passam a ser superestimados. Neste
sentido, a pesquisa do Ipam é pioneira", completa Maria del
Carmen.
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