Biodiversidade e empresa brasileira
Junho de 2002 - A biodiversidade é um assunto de capital
importância para a economia brasileira e, ao contrário do que muita
gente pensa, seu equacionamento é urgente. Isso porque, segundo
pesquisadores mais exigentes, da mesma forma que o mundo passará um
dia a prescindir do petróleo, a biotecnologia talvez possa prescindir
no futuro do material genético, cuja única fonte atual é nossa
biodiversidade. Embora hoje possa parecer exagero, esse enorme patrimônio
genético que o País dispõe hoje poderá, então, virar frustração
nacional, como ocorreu no século passado com a Hevea brasiliensis, a
seringueira nativa que teve mudas transportadas e cultivadas na Malásia,
criando lá fora as riquezas imaginadas para a Amazônia.
A biodiversidade compreende toda a
variedade de vida existente no mundo, incluindo variedades genéticas
de espécies encontradas na flora, na fauna ou em microorganismos, bem
como as funções ecológicas desempenhadas por tais organismos nos
respectivos ecossistemas. Princípios ativos exsudados ou extraídos
de espécies vegetais, utilizados desde sempre em comunidades
primitivas, definem todo um arsenal terapêutico e fitossanitário que
hoje é, predominantemente, industrializado pelos países de primeiro
mundo para, a seguir, nos exportarem na forma de medicamentos ou
defensivos agrícolas. O faturamento desse mercado no mundo ultrapassa
a casa de centenas de bilhões de dólares/ano.
O valor patrimonial da biodiversidade
brasileira está sendo levantado pelo Ipea em parceria com o Ibama.
Preliminarmente se estima um valor não inferior a US$ 2 trilhões, ou
seja, quatro vezes o PIB do Brasil, incluindo-se aí os principais
`serviços oferecidos` pela nossa biodiversidade, tais como a `oferta`
de oxigênio e água imprescindíveis à subsistência do primeiro
mundo em sua faina poluidora, além do banco de dados sobre princípios
ativos necessários para a produção de medicamentos, alimentos etc.
Calcula-se que o Brasil possui o maior
patrimônio biológico do mundo, representado por 23% de todas as espécies
de plantas, fungos e animais do planeta. Embora ainda não exista um
inventário biológico confiável sobre nossa fauna ou flora, já se
admite que nem 1% da biodiversidade brasileira é conhecida, fato este
que tem trazido desconfortáveis conseqüências para delegações
brasileiras no âmbito de negociações internacionais nessa área.
Visando assegurar a conservação da diversidade biológica, a utilização
sustentável dos seus elementos e a partilha justa e eqüitativa das
vantagens provenientes da utilização dos recursos genéticos, em
1992 foi aberta para assinaturas a Convenção sobre a Diversidade
Biológica, conhecida como ECO-92.
Constituída como o primeiro acordo
mundial sobre diversidade biológica, essa Convenção estabelece que
a conservação da biodiversidade constitui uma preocupação comum da
humanidade e é parte integrante do processo de desenvolvimento das nações.
Para realizar os seus objetivos, a ECO-92 definiu uma nova parceria
entre as nações, visando a cooperação científica e tecnológica,
o acesso a recursos financeiros e genéticos e a transferência de
tecnologias.
A informação contida na
biodiversidade brasileira, pelo seu significado econômico e social em
nível mundial, constitui um dos maiores patrimônios nacionais e,
como tal, merece constante preocupação de toda a sociedade. Como a
exploração comercial dessa riqueza não pode ser conduzida de forma
desregrada, preliminarmente o governo federal disciplinou a matéria
através de Medida Provisória, que vem sendo discutida e deverá ser,
ainda, bastante aperfeiçoada.
De acordo com essa norma legal, uma
instituição estrangeira só poderá ter acesso ao patrimônio genético
de espécies nativas do Brasil (plantas, animais ou microorganismos)
sob a coordenação e responsabilidade de uma entidade de pesquisa
nacional. A MP define regras para acessar o patrimônio genético
nacional, protege conhecimentos tradicionais associados à
biodiversidade e cria um conselho responsável pela fiscalização das
atividades pertinentes à matéria.
O arcabouço legislativo nacional assim
definido é abrangente, mas ainda é carente num ponto de extrema
relevância: o que mais interessa ao País é transformar a informação
contida na biodiversidade sustentada em mercadoria fabricada
localmente, para resultar em efetivo desenvolvimento tecnológico, na
criação de empregos pela indústria e na conseqüente geração de
renda nacional em toda a cadeia produtiva. Os incentivos aos centros
de P&D brasileiros para atuarem nessa área são de grande importância,
mas se tal medida não for complementada por instrumentos que
viabilizem a transferência dessa tecnologia para empresas
industriais, instaladas e operando no Brasil, corremos o risco de
propiciar a evasão dessa riqueza para o exterior.
Ao restringirmos nossa política pública
ao simples monitoramento de P&D, propiciamos a canalização
direta das informações contidas em nossa biodiversidade para
empresas localizadas no exterior que, lá fora, fabricarão os
produtos farmacêuticos, defensivos agrícolas e cosméticos para nos
exportarem a seguir, apropriando-se de todo esse imenso valor
agregado.
Para que se torne realidade um efetivo
projeto de Nação, é necessário apostar na empresa brasileira,
viabilizando-a fiscal e financeiramente para cobrir os riscos da
pesquisa e da produção exploratória nessa área, bem como
estimulando-a através de outros mecanismos de política tecnológica,
industrial e de comércio exterior. A aposta na empresa privada como
motor da inovação tecnológica tem sido a receita infalível seguida
pelo primeiro mundo em suas práticas internas, e razão de seu
sucesso global.
* Vice-presidente da Associação
Brasileira das Indústrias de Quimica Fina (Abifina)
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