Reunidos em Goiânia, cientistas reagem ao relatório da WWF
 
       18/10/2002

 O relatório divulgado esta semana pela organização não governamental WWF, que aponta para um abuso da exploração dos recursos naturais do Planeta, foi recebido sem surpresas na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece em Goiânia. O professor do curso de pós-graduação em Recursos Genéticos da Universidade Federal de Santa Catarina, Miguel Pedro Guerra, afirmou que desde o final da década de 60 especialistas já alertavam que o aumento da atividade econômica e da população iria tornar, a curto prazo, a base de recursos naturais insatisfatória. Guerra foi o escolhido entre os pesquisadores brasileiros para uma conferência sobre "Biodiversidade, Agricultura Insustentável e Insegurança Alimentar" na SBPC. O professor destacou que um dos aspectos mais preocupantes que emergem do relatório da WWF é o da diminuição da biodiversidade, como resultado da degradação ambiental.

      Sete mil espécies

      "O estreitamento da base genética, ao lado da redução da base alimentar, nos leva a uma série de vulnerabilidades, com repercussões consideráveis sobre a segurança alimentar do Planeta", alertou. Segundo Guerra, ao longo da história da agricultura foram utilizadas cerca de sete mil espécies vegetais, a maioria delas totalmente domesticadas. Atualmente, na média dos países, são utilizadas somente em torno de 120 espécies e 90% do consumo mundial de calorias repousa em 30 delas. "Estima-se que 75% desse consumo de calorias esteja baseado em quatro espécies: arroz, trigo, milho e soja", disse. Na opinião de Guerra, o estreitamento da base genética é resultado também da organização recente do chamado "complexo-genético-industrial", que visa a incorporar os recursos genéticos vegetais no setor industrial mundial, sob a égide das leis da propriedade intelectual. "Para a maioria das indústrias, não interessa a diversidade alimentar e sim a comoditização da comida". Guerra afirmou que daqui para frente a única saída é adotar uma agenda agrícola sustentável, que tenha como pressupostos básicos a redução do emprego de insumos químicos e a preocupação com a saúde humana e ambiental.

      Peculiaridades ambientais

      "Este novo sistema agrícola não busca maximizar a produção a qualquer preço e sim ajustar a capacidade produtiva dentro das peculiaridades ambientais de cada comunidade", disse. Ele defende também a regionalização da produção como forma de contraponto à grande agricultura produtora de commodities. Esse custo tentaria reverter os estragos da chamada revolução verde, baseada no uso intensivo de variedades modernas, fertilizantes e agrotóxico, com foco central na produtividade e não no ambiente e com a promessa tecnológica de terminar com a fome.

      "Nem preciso lembrar que fracassou, mas é bom destacar que essa proposta ocorreu em uma conjuntura marcada pelo predomínio da pesquisa pública e pelo fluxo livre de informações e recursos genéticos". Segundo o pesquisador, a intenção agora é reverter o argumento de que uma agricultura produtora de alimentos de alta qualidade biológica é cara, ineficiente e pouco produtiva.

      Guerra ressaltou que uma agricultura mais integrada ao ambiente não é sinônimo de retorno aos métodos arcáicos, mas sim intensiva em conhecimento e não em insumos. Segundo ele, isso implica em duas medidas.

      Em primeiro lugar na introdução de propostas destinadas a melhorar a compatibilidade da produção agrícola com o ambiente. Em segundo, na adoção de medidas que garantam o papel dos agricultores na manutenção da biodiversidade e da riqueza do ambiente natural.

      

 

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