Consumo é maior que regeneração
Genebra, 10 de Julho de 2002 - WWF
revela que o mundo já não consegue compensar agressões contra meio
ambiente. O consumo de recursos naturais já supera em 20% por ano a
capacidade do planeta de regenerá-los. O alerta é de um novo relatório
da organização ecológica WWF, divulgado ontem em Genebra, 50 dias
antes do encontro de cúpula mundial sobre o desenvolvimento sustentável
em Johannesburgo.
O abuso na exploração de recursos
naturais é uma verdadeira bomba-relógio e a WWF alerta que se
medidas urgentes não forem adotadas para mudar a maneira de produzir
e consumir, haverá uma queda dramática, a partir de 2030, na produção,
esperança de vida, educação e outros índices de bem estar humano.
Baseado em fatores como o consumo de cereais, carnes, peixes, madeiras
e água fresca, além da poluição de suas indústrias e de seus
carros, o relatório ''''Living Planet" fornece um índice ecológico
que mostra quanto cada país usa de recursos naturais para o consumo
de seus habitantes.
EUA, a maior pressão
Os Estados Unidos aparecem como líderes
na pressão sobre esses recursos, comendo mais, usando mais madeira,
poluindo mais. Suas emissões de dióxido de carbono e excesso de
consumo alcançam o dobro do europeu - que tem o mesmo nível de renda
- e 20 vezes mais do que países africanos.
Usando a tecnologia atual, são necessários
9,70 hectares de terra produtiva e água para produzir o que um
americano consome e depois para absorver o lixo que ele gera. Em
comparação, o consumo do brasileiro necessita de 2,38 hectares, que
é a média mundial - e já está 0,4/h acima do que é
disponibilizado no País.
De fato, o relatório calcula que há
cerca de 11,4 bilhões de hectares de terras e de mares produtivos no
globo. Isso representa 1,9 hectare para cada um dos 6 bilhões de
habitantes. Mas a regra, sem surpresa, é de os países ricos
utilizarem mais, em média 6,5 h/habitante, enquanto os países de
renda média 2/h e os pobres 0,8/h. A WWF mostra que a América do
Norte necessita de seis vezes mais hectares do que o Brasil para
produzir os gêneros agrícolas que consome. A média mundial é de
1,55 hectare por habitante, enquanto no Brasil é de pouco mais de
0,5/h.
Destruição em 30 anosO Uruguai é o
campeão mundial no consumo de carne, produtos lácteos, peles e
madeira por habitante, seguido de Nova Zelândia, Mongólia,
Argentina, Paraguai e Brasil. O estudo de WWF, com base em dados científicos
recolhidos no mundo inteiro, revela que 37% de ecossistemas naturais
foram destruídos entre 1970-2000. As regiões tropical e temperada do
sul perdem sua biodiversidade mais rapidamente, enquanto as temperadas
do norte apresentam-se mais estáveis.
A super exploração sistemática
provocou declínio particularmente dramático de 55% de 195 espécies
que vivem nos rios ou zonas úmidas; de 35% de 217 espécies marinhas
e de 15% de 282 espécies que vivem nas florestas. O consumo humano
dobrou nos últimos trinta anos. E as projeções baseadas em cenários
de crescimento demográfico e desenvolvimento econômico e tecnológico
indicam que em 2050 a população humana consumirá entre 180 e 220%
do potencial biológico do planeta. ''''O planeta tem recursos
abundantes, mas limitados'''', diz Claude Martin, diretor do WWF
Internacional. ''''No ritmo atual, não se pode garantir nível de
vida aceitável para a maioria da população do globo sem ao mesmo
tempo proteger a integridade dos ecossistemas naturais''''.
Terra não suporta
Para a WWF, parece claro que a Terra não
pode suportar a superexploracão ecológica durante mais 50 anos sem
graves repercussões ecológicas. A organização propõe quatro mudanças
fundamentais: primeiro, melhorar as normas para utilização de
recursos naturais e mais eficiência para produzir bens e serviços.
Segundo, alterar os hábitos de consumo e equilibrar os diferentes
consumos entre países pobres e ricos. Terceiro, controlar o
crescimento demográfico, o que significa comprar briga com o Vaticano
e até com o governo Bush. E quarto, restaurar os ecossistemas
mundiais. Com seu relatório, a WWF mostra que a pressão para os países
melhorarem métodos de produção vai ser cada vez maior. Na União
Européia, consumidores tratam cada vez mais de saber como é
produzido o que compram, qual o volume da energia gasta e outros
fatores. Os exportadores que melhor se adaptarem são os que terão
melhores chances de negócios no futuro - para o bem de suas empresas
e do planeta.
As esperanças, no momento, são de que
a pressão mundial consiga validar nos próximos meses expedientes
como o do Protocolo de Quioto, que deve forçar os países
desenvolvidos a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. O
forum adequado para que isto aconteça é a Conferência de
Johannesburgo (Rio + 10), onde se espera que países como Rússia,
Canadá e Austrália ratifiquem o Protocolo e coloquem o mecanismo
para andar. Não será suficiente para reverter o quadro apontado pelo
relatório da WWF, mas o planeta começará ao menos a atenuar o
previsível quadro de elevação de temperatura capaz de produzir inúmeras
tragédias da metade do século para frente.
| ETORNAR INDEX | SUBIR DOCUMENTO |