Um ministério para explorar as florestas
18/10/2002
Ainda não vi
nenhum candidato à Presidência se manifestar sobre os recursos
naturais brasileiros. Principalmente o setor florestal. O que não
devemos estranhar, já que eles devem pensar duas vezes antes de
emitir uma opinião e atrair a ira ou boa vontade das ONGs. Mas este
é um bom momento para se discutir como os recursos naturais do Brasil
podem contribuir para o nosso desenvolvimento econômico e social.
Hoje os conceitos de uso dos recursos
naturais, especialmente os originados das florestas, estabelecem que
as bases da sustentabilidade devem contemplar o crescimento econômico,
a diminuição das diferenças sociais e a distribuição eqüitativa
de renda com qualidade ambiental. Nesse aspecto, o Brasil possui posição
de destaque por ser o segundo país com maior área de florestas no
mundo, com cerca de 479 milhões de hectares. Porém, a potencialidade
do recurso florestal brasileiro não tem sido utilizada de maneira a
garantir respostas econômicas e sociais satisfatórias. A resposta
econômica, embora expressiva, está muito aquém do potencial
existente.
Anualmente, no Brasil, a exploração
florestal e sua cadeia de produção, industrialização e
comercialização geram receitas de mais de US$ 27,8 bilhões (4,5% do
PIB); contribui na carga tributária líquida com um valor de US$ 4,6
bilhões; utilizam mais de 6,7 milhões de pessoas (direta e
indiretamente) e propiciam o segundo melhor resultado líquido na
balança de pagamento, representando quase US$ 4,5 bilhões. Só para
comparar: produtos siderúrgicos geraram US$ 3,5 bilhões no mesmo
ano. Esses valores podem ser significativamente aumentados,
efetivando-se os instrumentos de política existentes e assegurando
continuidade a médio e longo prazo aos empreendimentos de base
florestal.
Pelo mundo afora difunde-se o conceito
de que as florestas são mantidas visando à conservação do meio
ambiente, habitat para espécies animais e vegetais, conservação do
solo e d'água e para produção de madeira visando o atendimento das
necessidades da sociedade. No Brasil, as formas de uso do recurso
florestal têm sido definidas mais pelo lado emocional (pressão
ambientalista) do que pela possibilidade técnica e científica do
aproveitamento racional, voltado à geração de bens e serviços
necessários ao desenvolvimento do país.
O comércio internacional de produtos
florestais tem crescido em média 2% ao ano. Realizou negócios de US$
210 bilhões em 1990 e de US$ 290 bilhões em 2000, sendo que a
participação brasileira esteve ao redor de 1,5%, um resultado pífio.
Países que têm representatividade neste bolo (Canadá, Chile,
Estados Unidos e Finlândia, por exemplo, com áreas florestais muito
menores que as nossas) colocam a gestão florestal em organismos
governamentais ligados diretamente à produção e à cadeia
produtiva, ao contrário do Brasil.
Temos mais de 470 milhões de hectares
de florestas nativas que poderiam ser utilizadas através das técnicas
de manejo florestal em regime de rendimento sustentado para a geração
de bens e benefícios à nação. Toda esta área tem condições climáticas
e edáficas favoráveis à atividade de produção da madeira e
facilidade de transporte, entre outras vantagens. Graças a isto, a
taxa de crescimento das florestas no Brasil é cerca de dez vezes
superior às taxas observadas em países com forte atuação no setor
florestal. Somente a área de florestas existente na Amazônia é
capaz, em regime de manejo sustentado, de possibilitar a ampliação
da participação do setor florestal dos atuais 4,5% do PIB para mais
de 7%, o que equivaleria a um valor anual de receita superior a US$ 43
bilhões.
A mudança para estes níveis poderá
ser realizada facilmente com a adoção de políticas permanentes e de
longo prazo, que possam transformar esse potencial em bens e serviços,
e também respostas econômicas e sociais significativas ao
desenvolvimento do país.
A estrutura organizacional do setor
florestal no Brasil hoje é de gestão descentralizada, baseada no
Pacto Federativo, e voltada prioritariamente à questão ambiental. A
produção florestal é entendida como parte da gestão ambiental.
Como referência para entender os procedimentos atualmente adotados na
gestão do setor florestal, isso equivaleria, por exemplo, a colocar
toda a política de extração de petróleo na costa brasileira sob a
coordenação dos órgãos ambientais, sob o argumento de que poderiam
degradar os recursos marinhos. Esse modelo tem gerado inúmeros
conflitos que prejudicam sensivelmente o desenvolvimento e a obtenção
de resultados positivos pelo setor. Não há políticas para estimular
o crescimento dos empreendimentos existentes e nem garantias e segurança
para sua continuidade, o que impede o crescimento e novos
investimentos, fatos estes agravados com a excessiva burocracia
institucional dos órgãos responsáveis pela consecução das ações
de comando e controle (fiscalização das atividades).
Acredito que o momento é oportuno para
se criar e discutir uma agenda para melhoria do setor florestal
nacional e a criação de uma instituição governamental nos moldes
de um Serviço Florestal vinculado a um Ministério de Produção são
as formas mais adequadas de viabilizar as melhores respostas para o
setor florestal, em especial o de exploração sustentável de
florestas. Essa instituição teria por finalidade precípua traçar a
política de aproveitamento econômico das florestas brasileiras. Os
aspectos de regulação ambiental como licenciamento, continuariam a
cargo dos órgãos do Sistema Nacional de Meio Ambiente, como o Ibama
e as Oemas.
Tal instituição deverá possuir,
principalmente, flexibilidade na tomada de decisões, ser capaz de
ampliar as ações voltadas à melhoria de toda a cadeia produtiva,
integrar as diversas políticas setoriais e contribuir para as mudanças
e modernização dos parques industriais existentes. O objetivo seria
o de se obter as melhores respostas sociais, econômicas e ambientais
possíveis. Para tanto, a alternativa institucional seria a do
estabelecimento, na estrutura administrativa do Ministério da Produção
escolhido, de uma organização, com competência para estruturar,
formular e implementar as diretrizes do governo para a política
florestal; preparar, implementar e supervisionar as ações e normas
de governo para as florestas, tanto no que se refere à produção de
madeira em toras, como no transporte, na industrialização e no comércio
de produtos e subprodutos, e ainda no estabelecimento de estímulos
para o fortalecimento da capacidade produtiva do setor; e efetivar as
providências para viabilizar as sugestões emanadas do setor
produtivo e da sociedade civil organizada, entre outras.
Existem, sim, possibilidades de se
explorar as florestas brasileiras atendendo todos os preceitos de
conservação e preservação do meio ambiente. Não temos que temer
as reações externas, nem as internas, porque não podemos desprezar
os recursos que o setor florestal trará ao desenvolvimento econômico
e social do País.
*Engenheiro florestal, professor da
UFPR e diretor da STCP Engenharia Florestal
J
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