Mogno ganha plano científico de manejo
Estudo ecológico feito por ONG do Pará orienta projeto-piloto de exploração da espécie, a mais valiosa do mundo
Sep. 29, 02
No século 17 ele virou sinônimo de fortuna. No fim do século 20,
tornou-se caso de polícia. Agora, o mogno, a madeira tropical mais
valiosa -e ameaçada- do planeta, ganha seu primeiro plano de manejo
comercial guiado por dados científicos na Amazônia.
O projeto, que será realizado numa área de mil hectares pertencente
a uma madeireira no Acre, foi inaugurado ontem pelo ministro do Meio
Ambiente, José Carlos Carvalho, e o governador do Estado, Jorge
Viana.
A exploração será feita com base no estudo de doutorado do
americano James E. Grogan, da ONG de pesquisas paraense Imazon
(Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).
Ele pesquisou durante seis anos o comportamento e a ecologia do mogno
(Swietienia macrophylla King) na Amazônia. Descobriu que os critérios
adotados pelo manejo de baixo impacto para outras árvores não podem
ser aplicados à preciosa árvore vermelha, cujo metro cúbico serrado
alcança o preço de US$ 1.200.
O princípio básico do manejo sustentável é só cortar árvores de
um determinado tamanho (acima dos 50 cm de diâmetro) em parcelas de
floresta que serão deixadas em repouso por 30 anos, para que as árvores
jovens possam atingir o tamanho de corte.
Também é necessário deixar o dossel da floresta o mais intacto possível,
sem abrir clareiras.
Com o mogno nada disso parece funcionar. "Diferentemente de
outras árvores, ele se regenera bem em áreas perturbadas",
disse à Folha o ecólogo Adalberto Veríssimo, do Imazon. O
pesquisador cita estudos que detectaram uma maior ocorrência do
"ouro vermelho" em áreas atingidas por furacões e erupções
vulcânicas no México e na América Central.
A explicação é que, enquanto muitas árvores tropicais preferem
crescer na sombra, as plantas jovens de mogno precisam de luz. Para
elas, clareiras na floresta são um impulso ao desenvolvimento.
Na Amazônia brasileira, onde a espécie ocorre em matas de terra
firme -mais secas-, incêndios florestais causados pela ação do El
Niño no passado podem ter sido decisivos para a sua adaptação.
Uma das idéias dos pesquisadores do Imazon é plantar mudas de mogno
em clareiras de até um hectare -aproximadamente a área de um campo
de futebol- abertas na mata. "Muitas tentativas de manejo
fracassaram porque não havia luz o bastante para as mudas", diz
Veríssimo.
A outra é limpar as áreas por meio do fogo, para evitar a competição
com outras espécies, como bambu e palmeiras, contra as quais o mogno
costuma perder. "São queimas controladas, cirúrgicas até",
afirma o ecólogo.
Um terceiro elemento derivado das pesquisas de Grogan foi a escolha
dos locais para o manejo -o mogno se concentra em áreas baixas, próximas
a igarapés.
A extração na área começa no ano que vem. Os pesquisadores estão
animados com os aspectos ambientais, mas ainda temem pelo futuro
comercial: a União Européia fechou seus portos a todo o mogno
brasileiro. "É preciso uma certidão negativa, que é o selo do
FSC [Conselho de Manejo Florestal, o maior órgão certificador de
madeira do mundo]", afirma Adalberto Veríssimo. "Esta é a
última chance para o mogno."
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