
Árvore amazônica
defende-se de traição de formiga destruindo abrigos para o inseto em
suas folhas, revela estudo
Mutualismo
Planta-Formigas
Planta engana formiga que engana planta
18/10/2002
Hirtella myrmecophila e Allomerus octoarticulatus vivem um casamento
desigual e tempestuoso, é o mínimo que se pode dizer. A aparência é
de uma relação consensual e de benefício mútuo, mas o parceiro vive
enganando a parceira, que revida com mais trapaça -assim como em muitos
relacionamentos humanos.
A analogia é tentadora, mas termina por aqui. H. myrmecophila é uma
pequena árvore de terra firme da região amazônica, que, como o nome
sugere, tem uma predileção especial por formigas ("myrmex",
em grego). A. octoarticulatus, por seu turno, é a espécie desse inseto
que a evolução encarapitou na planta, condenando-a a viver apenas nos
galhos daquela espécie vegetal.
Ambos os organismos contraíram uma relação que a biologia chama de
mutualismo, em que a associação traz benefícios para as duas partes.
No caso, a formiga protege a planta de outros insetos comedores de
folhas e dela recebe abrigo, em bolsas na base das folhas conhecidas
como domáceas (veja quadro à direita). Isso, claro, sem mencionar as
trapaças.
Traição
As mirmecófitas -como são batizadas as plantas ("phyto", em
grego) que se associam com formigas- são velhas conhecidas da biologia
e de Heraldo Vasconcelos, ecólogo do Instituto de Biologia da
Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais.
Também são estudadas e documentadas as traições por formigas, que
abusam da hospitalidade e acabam prejudicando o parceiro vegetal -por
exemplo, impedindo-o de produzir flores e, consequentemente, de se
reproduzir.
Inédita, para a ciência, era a adaptação que a H. myrmecophila
desenvolveu para revidar o logro por parte do inseto. Ela foi estudada
em detalhe por Thiago Izzo, orientando de Vasconcelos quando ainda
atuava no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em
Manaus.
Izzo estudou 600 plantas da espécie, numa floresta de 800 hectares
mantida pelo projeto Biodinâmica de Fragmentos Florestais (colaboração
entre o Inpa e a Smithsonian Institution, dos Estados Unidos) a 70 quilômetros
ao norte de Manaus.
Do total de árvores inspecionadas pelo cientista, 583 (97,16%) possuíam
colônias da formiga Allomerus octoarticulatus.
Quando a casa cai
Izzo percebeu que havia galhos sem domáceas e sem formigas, mas com
inflorescências (grupo de flores com um pedúnculo comum). Já nos
galhos com as bolsas cheias de formigas, não havia estruturas de
reprodução vegetal.
"A novidade do nosso trabalho está em demonstrar que a planta se
livra da domácea e, assim, das formigas quando essas se tornam indesejáveis",
diz Vasconcelos, referindo-se ao hábito incômodo do hóspede de cortar
inflorescências para abrir espaço às folhas.
Aparentemente, a planta desenvolveu algum mecanismo bioquímico que
derruba a casa das formigas quando as folhas alcançam certa idade. Com
o galho todo livre dos insetos folgados, as inflorescências podem enfim
brotar.
"No jargão dos estudiosos de mutualismos, chamamos isso de
"trapaça", já que, para benefício próprio, a formiga
prejudica o seu parceiro", diz o ecólogo da Universidade Federal
de Uberlândia.
MARCELO LEITE
EDITOR DE CIÊNCIA
FS