Ital propõe utilização da levedura
 
    18/10/2002

 Subprodutos podem ser usados pela indústria de alimentos. A Cooperativa de Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar), que congrega 34 usinas, estuda uma maneira de transferir para a indústria sucroalcooleira uma nova tecnologia para beneficiamento de levedura, substância proveniente da fermentação do álcool nas destilarias. Num estudo elaborado durante 13 anos, um grupo de 20 pesquisadores formados por profissionais do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e estudantes de pós-graduação da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade de Campinas (Unicamp) desenvolveu quatro subprodutos da levedura: autolisado, extrato, parede celular e concentrado protéico.

      A novidade é que os produtos podem ser usados tanto na composição de alimentos, como massas e sopas, quanto no enriquecimento da ração animal. O estudo abre uma fronteira de pesquisa de levedura no Brasil, o que alarga o uso dessa biomassa para o mercado farmacêutico. Para se ter uma idéia, da levedura pode se extrair ácidos nucléicos para uso em fármacos ou nucleotídeo, substância com propriedades aromatizante que realça o aroma dos alimentos.

      Para as usinas, o projeto de pesquisa indicou mais uma importante fonte de receita para o setor sucroalcooleiro. Por ano, só as destilarias produzem cerca de 500 mil toneladas de levedura. Pelos estudos, co-financiados pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Copersucar, o processamento industrial, por mais simples que seja, consegue elevar o valor de mercado da levedura em até três vezes, ou US$ 2,40 o quilo. Estimativas de mercado indicam que o quilo da levedura bruta, sem qualquer tipo de processamento, é comercializado a US$ 0,80. Segundo Valdemiro Carlos Sgarbieri, coordenador do projeto no Ital e professor convidado da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, o processo de autólise consiste na quebra da parede celular e a ação das enzimas presentes na biomassa. Entre todos os derivados da levedura, diz ele, este é o que pode ser obtido com o processo industrial mais simples.

      O negócio já desperta o interesse de empresas do setor sucroalcooleiro. A Usina Santo Antonio, indústria do setor de açúcar e álcool ligada à Copersucar, é a primeira a demonstrar interesse na montagem de uma unidade para a produção do autolisado destinado a alimentação animal. Segundo Karl Leimer, líder do projeto na cooperativa e gestor da transferência de tecnologia para o setor industrial, a Usina quer montar uma unidade para aproveitamento de parte da levedura extraída da produção de álcool ainda nesta safra. O rendimento de levedura por metro cúbico de álcool produzido pode chegar a 20 quilos.

      Propriedade intelectual

      Um estudo ainda tenta identificar em quais tipos de ração pode ser adicionado o autolisado. Embora a demanda de mercado seja um tópico importante, a Copersucar ainda terá de resolver como fará a cessão de parte da propriedade intelectual para o uso da Usina Santo Antonio sem criar uma disputa interna entre os cooperados. O surgimento deste negócio trouxe à reboque um problema novo: qual o preço e até que ponto a exclusividade de uso de uma tecnologia sob o domínio de uma cooperativa deve ser protegida em benefício de um cooperado. Mais: quanto custará essa cessão de direitos dentro da perspectiva de exclusividade. Se, por um lado, a Copersucar enfrenta um dilema, por outro cabe ressaltar o respeito que começa a existir com a chamada propriedade intelectual. "Essa é uma discussão nova e importante. O setor começa a entender que o uso de uma tecnologia tem um custo que deve ser pago", diz Leimer.

      Antes de divulgar entre os cooperados todas possibilidades descobertas pelo Ital, a instituição precisa definir regras para o licenciamento desta tecnologia. O Ital receberá uma parcela única e refere-se aos recursos aplicados pela Fapesp no projeto, cerca de R$ 200 mil. O valor para a Copersucar ainda não foi definido.

      

 

 

 

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