Intuitivamente, a humanidade sempre
soube do poder dos aromas. Para os egípcios os perfumes eram parte
integral dos rituais de adoração dos deuses. Tanto a vida como a
morte mereciam a dádiva dos aromas, que acompanhavam os mortos em
sua jornada. A aristocracia se beneficiava dos conhecimentos que os
egípcios desenvolveram acerca das flores e especiarias. Açafrão,
óleo de cedro, canela e mirra eram alguns dos aromas que
impregnavam a corte egípcia. Cleópatra (69 a.C./ 30 a.C), que
entrou para a história como soberana versada nas artes da sedução,
não dispensava os banhos com pétalas de flores ou óleos
perfumados. E Alexandre, o Grande (356 a.C/323 a.C) teria no almíscar
um dos segredos de seu poder sobre as mulheres.
A crônica aromática da civilização
humana antiga parece surgir com os medos e persas, no século 10
antes da era cristã, e florescer com os egípcios e gregos. Entre
os romanos, a história registra certo arrefecimento até a entrada
em cena de Nero. O imperador tinha preferência por incensos
estrategicamente distribuídos pelo palácio e promovia banquetes
perfumados, em que flores adornavam não só as mesas, mas os
cabelos dos convivas. Conforme registra o livro "Brasil Essência
– A Cultura do Perfume", de Renata Aschar (Best Seller,
2001), no século III "Roma tornou-se a capital mundial do
banho - então mais luxuoso do que em qualquer outra cultura. O
ritual incluía, naturalmente, poções aromáticas variadíssimas.
No caso dos cidadãos abastados, até a sola dos pés era perfumada
por escravos, que aplicavam cremes, loções, óleos e pós-aromáticos".
Se a pudicícia e o recato não
permitiam se entregar aos prazeres dos sentidos como tão bem faziam
egípcios, gregos e romanos, os europeus do final da Idade Média,
se não cultuaram os aromas, deles não fugiram. A prática do banho
se tornou comum nas casas burguesas e se chegou à extravagância de
infusões de flores. "Segundo uma receita de Galeno, rega-se o
banhista com pétalas de rosa", descrevem historiadores em
"História da Vida Privada" (Companhia das Letras, 1991).
Os banhos compartilhados se tornam prática comum e as saunas
proliferam.
A descoberta das Américas
revolucionou o mundo olfativo ao introduzir novas espécies botânicas.
Os perfumes ganham ingredientes então exóticos, como coco e
baunilha. Na corte francesa, Henry de Valois (1551-1589) asperge
perfume até em seus cães de estimação. Luvas, leques e jóias são
banhados em colônias para deixar uma nuvem de perfume após a
passagem real.
O primeiro perfume moderno surge em
1882, saído do laboratório do perfumista Paul Parquet e batizado
como Fougère Royale. De lá para cá, foram tantas as criações
que seria quase impossível listá-las. A base de todas é a
natureza, que contribui com as matérias-primas mais diversificadas:
flores, raízes, folhas e caules, musgos, madeiras e cascas de árvores,
sementes, grãos, especiarias, ervas aromáticas, frutas, resinas e
bálsamos. A mirra, por exemplo, resina extraída de uma árvore
natural da Arábia e Etiópia e usada para produzir incensos e
perfumes, foi, de acordo com a Bíblia, um dos três presentes (os
outros foram ouro e incenso) dados pelos reis magos ao menino Jesus.
O Perfumista
Criar uma fragrância exige
sensibilidade, harmonia e nariz privilegiado. A perfumista Francisca
Areias, da indústria Quest - empresa de matriz inglesa, no Brasil
desde 1979 - , conta que sempre esteve ligada aos aromas da
natureza. "Desde criança eu adorava perfumes e observava
muito, sabia perceber a diferença entre os cheiros das flores,
frutas, das especiarias e dos ambientes." A aptidão natural
acabou conduzindo-a a uma profissão rara e requisitada, cuja
especialização é feita no exterior e no dia-a-dia do trabalho.
Claro que o diploma de química foi essencial para entender melhor
as combinações, mas a paixão e o nariz farejador foram
determinantes.
Mesmo depois de um dia inteiro de
trabalho, o exigido aparelho olfativo não lhe nega fogo.
"Claro que pela manhã ele funciona melhor, com mais precisão",
admite. A perfumista se confessa viciada no que faz. "Mesmo
quando não estou trabalhando, nos fins de semana, sinto necessidade
de sentir aromas. Os cheiros jamais me enjoam e adoro usar perfume,
claro", diz. Francisca pode se dar ao luxo de usar criações
exclusivas, saídas de seu laboratório. "Às vezes alguém
sente meu perfume e pergunta o nome, aí fico sem saber o que dizer
porque geralmente é uma fragrância que inventei para mim."
Ela compara a arte de criar uma fragrância
a seguir uma receita de bolo. "Os insumos vêm prontos, nós
armazenamos e misturamos." Seria simples assim, não exigisse a
tarefa talentos raros. À aptidão acrescentem-se a memória
olfativa e a capacidade criativa. Do pedido do cliente até o
produto final podem transcorrer três meses. "Mas se tiver de
criar um perfume em uma semana, eu crio", diz Francisca, de
cuja palheta olfativa já saíram Myriad, Vert e Fleur, para O Boticário,
Sabine, para Natura, e Musk Marine, para a Avon, entre muitos outros
"filhos".
Área Comercial de
Essências
Antes de ser mostrado ao cliente, o
novo perfume passa pelo crivo de um outro nariz apurado: o do
avaliador. "Sou a ponte entre o perfumista e o cliente",
define Sheila Nishi, avaliadora da Quest. Depois de receber o
briefing da encomenda, ela analisa o pedido, faz uma pesquisa no
mercado internacional e conversa com o perfumista, que cria uma série
de ensaios. "Meu trabalho é avaliar se o que foi criado está
de acordo com o pedido da empresa e com as necessidades do mercado.
Sou como uma degustadora: aponto defeitos e também as coisas
interessantes, ajudando o perfumista a tornar a fragrância mais
adequada", explica.
O perfume nasce de conceitos
subjetivos, burilados em pesquisas de mercado. O assessor de
marketing da Avon, Eduardo Bruder, conta como se dá esse processo
tendo como exemplo o sucesso de vendas da linha Mulher & Poesia,
lançada no último trimestre de 2001. "A partir da idéia de
unir mulher e poesia, surgiu a associação com Vinícius de Moraes.
Então elaboramos três perfis de consumidora - natural, sedutora e
romântica - e escolhemos três músicas que representassem isso:
‘Morena Flor’, ‘Coisa Mais Linda’ e ‘Onde Anda Você’."
O passo seguinte foi a pesquisa de mercado, feita em grupos de oito
a dez pessoas cada um. O que se esperava dessa linha foi reunido num
relatório, verdadeiro dossiê olfativo, enviado a cinco casas de
fragrâncias, que elaboraram 15 versões. Escolhidas as vencedoras,
chegou a hora da pesquisa de design.
"Quando tudo está validado começa
a campanha publicitária, e o produto vai para o catálogo",
conta Bruder. O famoso livretinho tem tiragem de 5 milhões de
exemplares, distribuídos a cada três semanas. Da idéia da nova
fragrância até o catálogo lá se vai de um ano a dois. A demora e
o investimento - no caso da linha Mulher & Poesia foram
investidos R$ 8 milhões - compensam. Desde o lançamento, as vendas
atingiram 2 milhões de unidades.
O sucesso se ancora nas pesquisas
destinadas a captar "os caminhos olfativos" do consumidor,
que mudam de região para região. "Os perfumes de lavanda no
Brasil, por exemplo, se relacionam a bebês. No mercado americano
estão associados a limpeza", conta Bruder. Assim, o que faz
sucesso no Sul do país pode não agradar no Nordeste, que pelo
clima quente exige fragrâncias mais frescas.
A partir do dia 18, a Avon lança
Dream Life, resultado de uma parceria global e com lançamento em 35
países. Numa empreitada conjunta como esta, os custos são rateados
entre os 143 países onde a Avon está presente. Mas, se o mercado
se abre para as novidades, por outro lado prova que tem memória
olfativa, ligada ao emocional. A fragrância Toque de Amor é um
exemplo. "É um produto adorado pelo consumidor, em catálogo há
uns 40 anos", diz Bruder.
Os perfumes são divididos em famílias
olfativas femininas e masculinas. Entre as femininas estão floral,
oriental, chipre e lavanda, todas subdivididas em categorias, como
frutal, verde, doce, amadeirado. As masculinas principais são fougère
(referência ao famoso Fougère Royale), oriental e chipre, que também
compreendem subdivisões. As chamadas notas de saída são a
primeira impressão que uma fragrância provoca, que não deve
enganar o consumidor, pois logo evapora, dando lugar ao corpo, a
personalidade propriamente dita do perfume. Por fim vêm as notas de
fundo, as responsáveis pela permanência do produto na pele, que se
manifestam de uma a duas horas após a aplicação do produto.
Ao contrário do que se acredita, não
existe um fixador, esclarece Sheila Nishi. "Isso é um mito.
Existem diferenças de dosagem. A concentração da fragrância é
dada pela classificação." Esta compreende: parfum (15% a
35%), eau de parfum (10% a 18%), eau de toillette (5% a 10%), eau de
cologne (3% a 5%) e splash (até 3%). A mania, portanto, de dizer
que o perfume nacional não permanece porque o fixador é ruim não
procede. O que existe, segundo os especialistas, é uma concentração
menor da fragrância, exigência de um mercado tropical, que não
aceita tão bem perfumes muito marcantes. A nova fragrância
masculina do Boticário, por exemplo, Arbo (árvore em esperanto),
busca traduzir a relação do homem com a natureza por meio de um
aroma que começa com frutas cítricas, lavanda e menta, passa num
segundo momento pela artemísia e sálvia e finaliza com musgo, sândalo
e musk. Leve e refrescante.
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