O natural perfume dos Genes e do Corpo.
 
6 de Setembro de 2002 
 
Pesquisa
Dois cientistas alemães provaram que os cheiros emitidos pelo corpo são poderosos instrumentos de atração sexual, reforçados ainda mais pelos perfumes. Manfred Milinski e Claus Wedekind descobriram que a opção por determinados aromas é genética. Num teste realizado na Alemanha com 136 voluntários, homens e mulheres avaliaram 36 cheiros diferentes. Pessoas com sistemas imunológicos semelhantes tenderam a escolher as mesmas fragrâncias para si próprias, mas não para seus parceiros, revelaram os cientistas na revista "Behavioral Ecology".

      "Usamos perfumes para amplificar nossos cheiros naturais", concluiu Milinski, do Instituto Max Planck. Os genes envolvidos na escolha dos perfumes têm proteínas relacionadas ao sistema de defesa do organismo e os pesquisadores especulam que ao optar por um aroma para si e outro diferente para o companheiro, o que se está fazendo é tentar atrair parceiros que representem não só sexo prazeroso, mas biologicamente útil. Seria uma forma de garantir que os descendentes disponham de uma variedade maior de genes responsáveis pela resposta imunológica, mais aptos a combater doenças.

      Os aromas testados pela equipe de Milinski foram de origem natural. De acordo com o cientista, quando se trata de cumprir uma função biológica como a de atrair parceiros sexuais, a natureza fala mais alto. "Os ingredientes sintéticos imitam apenas uma pequena proporção dos ingredientes naturais. O óleo de rosa, por exemplo, consiste de centenas de diferentes ingredientes e por isso leva vantagem", afirma o cientista.

 

História

  Napoleão estava certo. Reza a lenda que nos intervalos das batalhas, ao saber que poderia passar alguns dias nos braços de Josephine, mandava-lhe antecipadamente uma recomendação específica para que não tomasse banho. O general se sentia especialmente estimulado pelo odor natural do corpo da amada. Um novo estudo acaba de reafirmar, indiretamente, que nas contendas amorosas Napoleão também era um grande estrategista. 

      Intuitivamente, a humanidade sempre soube do poder dos aromas. Para os egípcios os perfumes eram parte integral dos rituais de adoração dos deuses. Tanto a vida como a morte mereciam a dádiva dos aromas, que acompanhavam os mortos em sua jornada. A aristocracia se beneficiava dos conhecimentos que os egípcios desenvolveram acerca das flores e especiarias. Açafrão, óleo de cedro, canela e mirra eram alguns dos aromas que impregnavam a corte egípcia. Cleópatra (69 a.C./ 30 a.C), que entrou para a história como soberana versada nas artes da sedução, não dispensava os banhos com pétalas de flores ou óleos perfumados. E Alexandre, o Grande (356 a.C/323 a.C) teria no almíscar um dos segredos de seu poder sobre as mulheres.

      A crônica aromática da civilização humana antiga parece surgir com os medos e persas, no século 10 antes da era cristã, e florescer com os egípcios e gregos. Entre os romanos, a história registra certo arrefecimento até a entrada em cena de Nero. O imperador tinha preferência por incensos estrategicamente distribuídos pelo palácio e promovia banquetes perfumados, em que flores adornavam não só as mesas, mas os cabelos dos convivas. Conforme registra o livro "Brasil Essência – A Cultura do Perfume", de Renata Aschar (Best Seller, 2001), no século III "Roma tornou-se a capital mundial do banho - então mais luxuoso do que em qualquer outra cultura. O ritual incluía, naturalmente, poções aromáticas variadíssimas. No caso dos cidadãos abastados, até a sola dos pés era perfumada por escravos, que aplicavam cremes, loções, óleos e pós-aromáticos".

      Se a pudicícia e o recato não permitiam se entregar aos prazeres dos sentidos como tão bem faziam egípcios, gregos e romanos, os europeus do final da Idade Média, se não cultuaram os aromas, deles não fugiram. A prática do banho se tornou comum nas casas burguesas e se chegou à extravagância de infusões de flores. "Segundo uma receita de Galeno, rega-se o banhista com pétalas de rosa", descrevem historiadores em "História da Vida Privada" (Companhia das Letras, 1991). Os banhos compartilhados se tornam prática comum e as saunas proliferam.

      A descoberta das Américas revolucionou o mundo olfativo ao introduzir novas espécies botânicas. Os perfumes ganham ingredientes então exóticos, como coco e baunilha. Na corte francesa, Henry de Valois (1551-1589) asperge perfume até em seus cães de estimação. Luvas, leques e jóias são banhados em colônias para deixar uma nuvem de perfume após a passagem real.

      O primeiro perfume moderno surge em 1882, saído do laboratório do perfumista Paul Parquet e batizado como Fougère Royale. De lá para cá, foram tantas as criações que seria quase impossível listá-las. A base de todas é a natureza, que contribui com as matérias-primas mais diversificadas: flores, raízes, folhas e caules, musgos, madeiras e cascas de árvores, sementes, grãos, especiarias, ervas aromáticas, frutas, resinas e bálsamos. A mirra, por exemplo, resina extraída de uma árvore natural da Arábia e Etiópia e usada para produzir incensos e perfumes, foi, de acordo com a Bíblia, um dos três presentes (os outros foram ouro e incenso) dados pelos reis magos ao menino Jesus.

O Perfumista

      Criar uma fragrância exige sensibilidade, harmonia e nariz privilegiado. A perfumista Francisca Areias, da indústria Quest - empresa de matriz inglesa, no Brasil desde 1979 - , conta que sempre esteve ligada aos aromas da natureza. "Desde criança eu adorava perfumes e observava muito, sabia perceber a diferença entre os cheiros das flores, frutas, das especiarias e dos ambientes." A aptidão natural acabou conduzindo-a a uma profissão rara e requisitada, cuja especialização é feita no exterior e no dia-a-dia do trabalho. Claro que o diploma de química foi essencial para entender melhor as combinações, mas a paixão e o nariz farejador foram determinantes.

      Mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, o exigido aparelho olfativo não lhe nega fogo. "Claro que pela manhã ele funciona melhor, com mais precisão", admite. A perfumista se confessa viciada no que faz. "Mesmo quando não estou trabalhando, nos fins de semana, sinto necessidade de sentir aromas. Os cheiros jamais me enjoam e adoro usar perfume, claro", diz. Francisca pode se dar ao luxo de usar criações exclusivas, saídas de seu laboratório. "Às vezes alguém sente meu perfume e pergunta o nome, aí fico sem saber o que dizer porque geralmente é uma fragrância que inventei para mim."

      Ela compara a arte de criar uma fragrância a seguir uma receita de bolo. "Os insumos vêm prontos, nós armazenamos e misturamos." Seria simples assim, não exigisse a tarefa talentos raros. À aptidão acrescentem-se a memória olfativa e a capacidade criativa. Do pedido do cliente até o produto final podem transcorrer três meses. "Mas se tiver de criar um perfume em uma semana, eu crio", diz Francisca, de cuja palheta olfativa já saíram Myriad, Vert e Fleur, para O Boticário, Sabine, para Natura, e Musk Marine, para a Avon, entre muitos outros "filhos".

Área Comercial de Essências

      Antes de ser mostrado ao cliente, o novo perfume passa pelo crivo de um outro nariz apurado: o do avaliador. "Sou a ponte entre o perfumista e o cliente", define Sheila Nishi, avaliadora da Quest. Depois de receber o briefing da encomenda, ela analisa o pedido, faz uma pesquisa no mercado internacional e conversa com o perfumista, que cria uma série de ensaios. "Meu trabalho é avaliar se o que foi criado está de acordo com o pedido da empresa e com as necessidades do mercado. Sou como uma degustadora: aponto defeitos e também as coisas interessantes, ajudando o perfumista a tornar a fragrância mais adequada", explica.

      O perfume nasce de conceitos subjetivos, burilados em pesquisas de mercado. O assessor de marketing da Avon, Eduardo Bruder, conta como se dá esse processo tendo como exemplo o sucesso de vendas da linha Mulher & Poesia, lançada no último trimestre de 2001. "A partir da idéia de unir mulher e poesia, surgiu a associação com Vinícius de Moraes. Então elaboramos três perfis de consumidora - natural, sedutora e romântica - e escolhemos três músicas que representassem isso: ‘Morena Flor’, ‘Coisa Mais Linda’ e ‘Onde Anda Você’." O passo seguinte foi a pesquisa de mercado, feita em grupos de oito a dez pessoas cada um. O que se esperava dessa linha foi reunido num relatório, verdadeiro dossiê olfativo, enviado a cinco casas de fragrâncias, que elaboraram 15 versões. Escolhidas as vencedoras, chegou a hora da pesquisa de design.

      "Quando tudo está validado começa a campanha publicitária, e o produto vai para o catálogo", conta Bruder. O famoso livretinho tem tiragem de 5 milhões de exemplares, distribuídos a cada três semanas. Da idéia da nova fragrância até o catálogo lá se vai de um ano a dois. A demora e o investimento - no caso da linha Mulher & Poesia foram investidos R$ 8 milhões - compensam. Desde o lançamento, as vendas atingiram 2 milhões de unidades.

      O sucesso se ancora nas pesquisas destinadas a captar "os caminhos olfativos" do consumidor, que mudam de região para região. "Os perfumes de lavanda no Brasil, por exemplo, se relacionam a bebês. No mercado americano estão associados a limpeza", conta Bruder. Assim, o que faz sucesso no Sul do país pode não agradar no Nordeste, que pelo clima quente exige fragrâncias mais frescas.
      A partir do dia 18, a Avon lança Dream Life, resultado de uma parceria global e com lançamento em 35 países. Numa empreitada conjunta como esta, os custos são rateados entre os 143 países onde a Avon está presente. Mas, se o mercado se abre para as novidades, por outro lado prova que tem memória olfativa, ligada ao emocional. A fragrância Toque de Amor é um exemplo. "É um produto adorado pelo consumidor, em catálogo há uns 40 anos", diz Bruder.

      Os perfumes são divididos em famílias olfativas femininas e masculinas. Entre as femininas estão floral, oriental, chipre e lavanda, todas subdivididas em categorias, como frutal, verde, doce, amadeirado. As masculinas principais são fougère (referência ao famoso Fougère Royale), oriental e chipre, que também compreendem subdivisões. As chamadas notas de saída são a primeira impressão que uma fragrância provoca, que não deve enganar o consumidor, pois logo evapora, dando lugar ao corpo, a personalidade propriamente dita do perfume. Por fim vêm as notas de fundo, as responsáveis pela permanência do produto na pele, que se manifestam de uma a duas horas após a aplicação do produto.

      Ao contrário do que se acredita, não existe um fixador, esclarece Sheila Nishi. "Isso é um mito. Existem diferenças de dosagem. A concentração da fragrância é dada pela classificação." Esta compreende: parfum (15% a 35%), eau de parfum (10% a 18%), eau de toillette (5% a 10%), eau de cologne (3% a 5%) e splash (até 3%). A mania, portanto, de dizer que o perfume nacional não permanece porque o fixador é ruim não procede. O que existe, segundo os especialistas, é uma concentração menor da fragrância, exigência de um mercado tropical, que não aceita tão bem perfumes muito marcantes. A nova fragrância masculina do Boticário, por exemplo, Arbo (árvore em esperanto), busca traduzir a relação do homem com a natureza por meio de um aroma que começa com frutas cítricas, lavanda e menta, passa num segundo momento pela artemísia e sálvia e finaliza com musgo, sândalo e musk. Leve e refrescante.

 
Dicas

      Alguns truques ajudam a conservar melhor os perfumes, ensinam os profissionais. Não se deve jamais deixar os frascos no banheiro, por exemplo, pois o vapor do chuveiro altera o produto. O ideal é manter o perfume fechado dentro da caixa, guardada num lugar onde não receba luz nem calor. Milena Siqueira, gerente de marketing da Quest, explica que a vida útil de um perfume normalmente é de três anos. Após esse período, a tendência é a oxidação, com alteração de cor e aroma. O efeito sobre a pele também pode ser enganador, já que perfil genético, transpiração, oleosidade e outros fatores modificam a reação química da fragrância. Por isso um perfume que fica bem em determinada pessoa pode ficar péssimo em outra. Para que permaneça mais tempo, o perfume deve ser borrifado em áreas de circulação intensa, como os pulsos ou atrás dos joelhos. Jogar um jato para o alto e ficar sob essa chuva perfumada ajuda a dispersar o produto pelo corpo todo.
 
Indústria

      A indústria de perfumes tem previsão de movimentar neste ano US$ 10 bilhões em todo o mundo. Se Cleópatra podia recorrer a flores que ela mesma escolhia para se impregnar de aromas sedutores, hoje as matérias-primas sintéticas se tornaram a saída econômica viável. Segundo Renata Aschar revela em "Brasil Essência", cada quilo de óleo essencial de determinada flor exige 3.750 quilos de pétalas, o que encarece muito a produção. Assim, a saída é recorrer às matérias-primas sintéticas. A tecnologia permite ainda poupar a fauna: para 454 gramas de almíscar são necessárias 20 bolsas glandulares retiradas de 20 cervos. Por mais perfeita que seja a imitação, entretanto, afirma o cientista Manfred Milinski, a melhor forma de atrair parceiros por meio do odor ainda está na natureza. "A coleção de ingredientes naturais se desenvolveu ao longo de milhares de anos e está perto do ótimo."

 

 
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