Americano
propõe a troca da tradicional classificação das espécies de Lineu
por um sistema norteado pelas relações de proximidade evolutiva
entre os seres vivos
A nova ordem da vida
|
Associated
Press |
Fóssil de dinossauro carnívoro com penas que viveu há 130 milhões de anos, exposto no Museu Americano de História Natural, em Nova York (EUA) |
Sep. 30, 02
Em sã
consciência, poucas pessoas se arriscariam a colocar lado a lado
porcos e baleias, como se fossem parentes próximos. Sair chamando
galinhas de dinossauros ou cobras, animais rastejantes por
excelência, de bichos de quatro patas causaria um grau parecido de
estranheza. Contudo, mudanças como essas, com cara de absurdo, mas
fundamentadas pela própria história da vida na Terra, são algumas
das consequências mais instigantes do PhyloCode (uma abreviação
inglesa para "código filogenético"), um novo sistema para
denominar e classificar os seres vivos que promete reconduzir a
evolução, de longe a idéia mais importante e unificadora da
biologia, de volta a seu devido lugar. O principal idealizador do
PhyloCode é o americano Kevin de Queiroz, um californiano de 45 anos
que é, ele próprio, um enigma classificatório. "Sim, o meu
sobrenome é português", diz Queiroz, "mas o meu avô era
mexicano e se chamava Padilla. Ele mudou de nome várias vezes, volta
e meia adotando nomes portugueses. Queiroz é o nome que ele usava
quando meu pai nasceu." Para completar, o especialista em
répteis do Museu Nacional de História Natural, em Washington,
também tem sangue japonês. "Acho que meus nomes e meu sangue
são bem misturados", brinca. De qualquer maneira, essa confusão
genealógica não atrapalhou os traços característicos da
personalidade do pesquisador: ordem, lógica, coerência interna.
"Eu sou uma pessoa que se esforça muito para ser logicamente
consistente. E, além disso, gosto muito de pensar sobre as
consequências lógicas das coisas, e isso às vezes leva a idéias
novas, como a nomenclatura filogenética." Apesar de esquisita,
essa palavrinha de origem grega tem um significado que não é nem um
pouco extravagante: a filogenia consiste em olhar a diversidade das
formas de vida como uma grande família, organizando criaturas em
grupos de parentesco e descendência. Tudo muito de acordo com a
biologia evolutiva, sem dúvida. Mas acontece que a maneira usada para
organizar os seres vivos há quase 250 anos, argumenta Queiroz, não
leva esse princípio básico em conta. De fato, o sistema até hoje
usado para designar as formas de vida, conhecido de qualquer um que
já tenha usado o indefectível Homo sapiens para incrementar uma
redação de colégio, é a nomenclatura lineana. Seu criador, o
botânico sueco Carl von Linné ou Carolus Linaeus (1707-1778),
elaborou o conceito de um nome duplo, ou binômio, de origem latina ou
grega, cujo primeiro termo (Homo) designava o gênero, um agrupamento
mais amplo de organismos, enquanto o segundo (sapiens) era o nome
pessoal e intransferível de cada espécie. As espécies lineanas eram
agrupadas em gêneros, depois em famílias, ordens (a da humanidade,
até hoje, é a dos primatas), classes e reinos. De qualquer lado que
se olhe, a arquitetura teórica de Lineu (como é geralmente chamado
em português) foi um avanço mais do que respeitável: para dar uma
idéia, naturalistas europeus da era pré-lineana eram obrigados a
chamar uma simples roseira silvestre de Rosa sylvestris alba cum
rubore, folio glabro. O binômio de Lineu reduziu ao mínimo
necessário essa tagarelice latina e, de quebra, suas categorias
ajudaram a impor um pouco de critério científico, como o uso de
semelhanças anatômicas, numa época em que os animais eram divididos
em selvagens e domésticos, ou terrestres, aquáticos e aéreos.
Rebocado, pintado e ampliado, o edifício lineano continua firme de
pé. O grande problema, porém, é que Lineu fixou seu sistema em 1758
-exatos 101 anos antes da publicação de "A Origem das
Espécies", de Charles Darwin, o livro que instala de vez a
evolução no trono da biologia. Para Lineu, as subdivisões da vida
eram só um recurso prático, organizacional: "A invariabilidade
das espécies é a condição da ordem [na natureza]", proclamava
o naturalista, filho de um pastor luterano. É difícil achar algo
mais distante do que queria Darwin: "Nossas classificações
deverão se tornar, até onde for possível adequá-las,
genealogias". A frase, não por acaso, abre o artigo de Queiroz
que se tornou o embrião do PhyloCode.
Organizando lagartos
A idéia começou a se formar na cabeça de Queiroz e de seu colega
Jacques Gauthier em meados dos anos 80, quando os dois tentavam
traçar uma genealogia dos lagartos ("o que inclui as
cobras", ressalta o americano, com cuidado para evitar a
confusão entre aparência e parentesco evolutivo). Gauthier propôs
que a dupla definisse os grupos de lagartos com base nas espécies
vivas hoje, ligando-as à espécie fóssil que fosse seu ancestral
comum mais recente. "Eu concordei com ele e nós começamos a
falar sobre as vantagens disso quando uma lâmpada acendeu, como nós
dizemos em inglês; sem se dar conta disso, ele havia bolado uma forma
nova e explicitamente evolutiva de definir o nome de um taxon [grupo
de seres vivos"", conta o pesquisador de Washington.
"Não quero sugerir que nós tenhamos inventado essa teoria a
partir do nada", ressalta Queiroz. A intenção de tornar a
filogenia o conceito central da taxonomia, explica ele, existe desde o
trabalho do alemão Willi Hennig, nos anos 50. Hennig foi o primeiro a
propor que os grupos de seres vivos só contivessem espécies
monofiléticas (trocando em miúdos, as que contêm um ancestral comum
e todos os seus descendentes, sem deixar ninguém de fora). "De
certa maneira, essa idéia é o ponto de partida da sistemática
moderna", afirma Dalton de Souza Amorim, do Departamento de
Biologia da USP de Ribeirão Preto (interior de São Paulo) e
especialista em filogenia de insetos. Hennig e seus sucessores
acabaram se tornando a voz dominante na hora de repensar as relações
de parentesco entre os seres vivos, que andaram mudando como loucas
graças à profusão de novos fósseis e às técnicas cada vez mais
refinadas de interpretá-los. A taxonomia ameaçou até virar
cladística -do grego "klados", ramo, forma mais comum
tomada pelas novas genealogias da vida. Mas as categorias criadas por
Lineu e outras adicionadas posteriormente, sem nenhuma implicação
evolutiva, continuavam sendo usadas, dificultando ou confundindo as
alterações que a história da evolução sugeria ao sistema. Para
Queiroz e seus colegas, como Gauthier e Phil Cantino, o buraco era
mais embaixo: sem uma reformulação completa dos conceitos que
fundamentam a teoria lineana, uma mudança adequada nunca ocorreria de
verdade. Mas a idéia de simplesmente criar um novo código, que
substituísse os atuais ICZN (Código Internacional de Nomenclatura
Zoológica) e ICBN (Código Internacional de Nomenclatura Botânica),
demorou para aparecer. "Eu mesmo não queria escrever um novo
código", conta Queiroz. "Acho que estava esperando que as
pessoas que cuidam dos códigos tradicionais vissem o valor do nosso
enfoque e mudassem os códigos existentes. Mas essa era uma idéia
muito ingênua. Você precisa ter em mente que fazer isso seria
substituir a própria fundação -os pressupostos mais básicos- dos
códigos tradicionais", afirma o pesquisador americano. A
mudança espontânea, claro, não aconteceu. Depois de muita
argumentação científica durante os anos 90, atraindo companheiros e
criando opositores, os defensores da filogenia decidiram sair do
embate teórico e organizaram um simpósio em 1998, na Universidade
Harvard, que reuniu cerca de 30 cientistas de vários países. Na
pauta estava o desenvolvimento de um código efetivo, passível de ser
oficializado no futuro de acordo com o nível de consenso que ele
alcançasse. Os que compareceram ao encontro se tornaram uma espécie
de conselho informal do código que estava nascendo, e o PhyloCode foi
finalmente estabelecido, com suas regras e recomendações, ainda
preliminares, publicadas na internet (www.ohiou.edu/phylocode).
Categorias questionadas
As propostas do código já andavam povoando os trabalhos de Queiroz e
de outros pesquisadores de orientação filogenética alguns anos
antes da publicação do PhyloCode. Um dos pontos principais, talvez o
mais bem cotado para conseguir consenso entre os biólogos, é a perda
da importância das categorias mais amplas do sistema lineano
(praticamente do gênero para cima) em favor de duas unidades
básicas: "As categorias taxonômicas importantes são as que eu
chamo de ontológicas: espécie e clado", explica Queiroz.
|
"No meu entendimento, a nomenclatura filogenética representa o estágio mais recente de um processo que eu chamaria de evolucionalização da taxonomia. Não vejo razão para que esse processo acabe agora."
|
Organizando clados cada vez mais inclusivos (uma vez que, no fim das
contas, toda a vida na Terra descende de um só ancestral comum), o
agrupamento nesse esquema impediria a camisa-de-força lineana de
hoje, que exige a associação de cada nova espécie com todas as
categorias, da mais fundamental às maiores. Essa regra incômoda
costuma deixar pesquisadores perplexos na hora de lidar com espécies
fósseis, que têm pouco ou nenhum parentesco com animais atuais mas
que, mesmo assim, precisam ganhar um nome para sua família ou ordem
taxonômica (categorias acima do gênero). "Sem dúvida tais
categorias amplas têm pouco sentido evolutivo. Mas não porque os
agrupamentos em si sejam menos "reais" que o gênero ou a
espécie, mas porque eles não são equivalentes. Ou seja, uma ordem
de insetos não tem a mesma amplitude de uma ordem de mamíferos,
tanto em termos evolutivos quanto em biodiversidade", diz o
paleontólogo brasileiro Max Langer, especialista em dinossauros.
"Nesse ponto, concordo totalmente com o PhyloCode", afirma
Langer, que vê algumas fraquezas na proposta de Queiroz.
Baleia com casco
As mudanças mais chocantes do ponto de vista de um leigo devem nascer
da firme disposição de não permitir clados parafiléticos.
Tradução: se dois grupos hoje separados brotaram de um mesmo
ancestral comum, eles têm de estar juntos. "Nós já incluímos
as aves dentro dos dinossauros e provavelmente incluiríamos os
cetáceos [baleias" dentro dos artiodáctilos [mamíferos com
cascos e número par de dedos"", afirma Queiroz. Essas
mudanças, baseadas em reviravoltas mais ou menos recentes do registro
fóssil, sublinham o fato de que os animais que hoje têm penas
evoluíram não de qualquer grupo réptil, mas a partir de formas não
muito diferentes do célebre velociraptor, também cobertas de penas.
Ou que criaturas muito semelhantes aos suínos de hoje, vagando pelas
praias de 50 milhões de anos atrás, acabaram colonizando os oceanos
da Terra e dando origem a baleias e golfinhos. No caso de grupos que a
humanidade já encara há tempos como unidades naturais, o potencial
de transformação da nova proposta pode ser ainda mais radical,
sugere Dalton Amorim, da USP: "A partir do momento em que os
grupos parafiléticos desaparecem, os que hoje nós chamamos de peixes
deixam de ser uma unidade", afirma o pesquisador. "Aí, nós
enxergaríamos a relação muito clara que existe entre os chamados
peixes pulmonados e os vertebrados terrestres", diz Amorim. O
velho termo "invertebrados", útil para jogar no mesmo saco
animais tão distintos quanto um polvo e uma abelha, também cairia
por terra: "Os invertebrados deixariam de existir como grupo e
animais como os equinodermos [estrelas-do-mar e ouriços-do-mar"
seriam colocados numa posição mais próxima dos próprios
vertebrados", afirma Amorim. Para Queiroz e seus companheiros,
todo esse remanejamento um tanto amalucado de criaturas no tecido
evolutivo acaba com um mal-disfarçado domínio do arbítrio na
taxonomia, no qual critérios morfológicos subjetivos podiam fazer e
desfazer grupos de seres vivos ao capricho dos classificadores, quando
"alguém decide que dois taxa antes considerados duas famílias
distintas apenas "merecem" ser subfamílias, e então junta
as duas numa só família", diz o herpetologista. Por outro lado,
as idéias sobre o parentesco entre espécies atuais e extintas podem
virar do avesso por causa de um único fóssil, e isso aconteceu mais
de uma vez em tempos recentes. Segundo Langer, essa poderia ser uma
fraqueza da obsessão do PhyloCode com a história evolutiva.
"Para aqueles que querem ver a nomenclatura filogenética
classificando todos os seres vivos de uma forma completa e imutável,
isso é um problema." Queiroz, porém, apesar de suas críticas
ao que considera a arbitrariedade do sistema lineano, não se deixa
abater: "Esse tipo de instabilidade é uma coisa boa. Nós
precisamos ser capazes de revisar nossas idéias sobre a composição
dos taxa conforme adquirimos informações novas. Como algumas pessoas
dizem, "estabilidade é ignorância". O que nós vemos como
a vantagem do PhyloCode é que, nesse sistema, mudanças na
composição dos taxa só ocorrem se as idéias sobre a filogenia
mudarem", afirma o pesquisador.
É tudo invenção
O próprio binômio lineano, até agora sacrossanto nas muitas
reformas propostas ao velho sistema, não é exatamente intocável,
diz Queiroz. "Nomes binomiais para as espécies podem ou não
persistir. Não é algo que nós já tenhamos decidido. Mas, mesmo se
eles persistirem, o primeiro nome não seria mais o nome de um
gênero; seria apenas a primeira parte de um nome de espécie em duas
partes."
Alguém um pouco mais cético e menos enfurnado nas particularidades
da teoria evolucionista, de olho no escasso registro fóssil, poderia
questionar a validade de um apego tão grande à sucessão de
espécies para classificar a vida. Se os buracos nesse contexto nunca
serão totalmente preenchidos, parece possível relativizar o
critério filogenético. "É preciso ter em mente que filogenias
também são construções humanas, de modo que a classificação
proveniente delas não é mais real que outras classificações. Uma
coisa são as relações filogenéticas entre os organismos, que são
ciência empírica, "dura". Outra coisa é o nome que damos
aos diferentes grupos, algo que é subjetivo, mas utilitário",
diz Langer.
Queiroz, claro, se recusa a aceitar essa relativização. "Na
minha opinião, essa é uma visão datada da taxonomia. Os grupos são
vistos como classes, que não estão certas ou erradas, mas são
apenas mais ou menos úteis. Mas a visão moderna é que a taxonomia
pode nunca corresponder exatamente às verdadeiras relações
evolutivas, mas ela pode ser testada e avaliada de acordo com padrões
científicos, assim como qualquer outra teoria científica",
afirma.
Seja como for, Queiroz está disposto a efetivar os princípios do
PhyloCode, com a ajuda das opiniões da comunidade científica.
"Neste exato momento a coisa está bem controversa, com muitas
pessoas apoiando e outras se opondo a nós. Estamos tentando organizar
um segundo simpósio para tomar decisões sobre novas modificações
sobre o código. Depois dessas revisões e depois que elas forem
aprovadas pelo grupo consultivo tentaremos publicar o código e
torná-lo oficial", afirma.
Se o reinado lineano finalmente está com os dias contados, Queiroz
não tem uma data para essa mudança. "Essas coisas são
difíceis de prever. Mas, no meu entendimento, a nomenclatura
filogenética representa o estágio mais recente de um processo que eu
chamaria de evolucionalização da taxonomia", diz. "Não
vejo razão para que esse
processo acabe agora."
| RETORNAR INDEX | SUBIR DOCUMENTO |