Americano considerado o pensador evolucionista mais influente desde Darwin foi vencido pelo câncer aos 60 anos

Morre o paleontólogo Stephen Jay Gould

O paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que morreu ontem, durante visita ao Brasil em 93



CAROL KAESUK YOON
DO "THE NEW YORK TIMES"

Stephen Jay Gould, o teórico evolutivo da Universidade Harvard cujas palestras, pesquisas e artigos ajudaram a revigorar o campo da paleontologia, morreu ontem às 11h25 (hora de Brasília) em sua casa em Nova York. Ele tinha 60 anos. A causa foi adenocarcinoma, informou sua esposa, Rhonda Schearer. Na semana passada, havia passado por cirurgia para retirada de dois tumores.
Possivelmente o mais influente e mais conhecido biólogo evolucionista desde Charles Darwin, Gould iniciou numerosos debates ao desafiar os cientistas a repensarem padrões e processos evolutivos. Ele é creditado por trazer a perspectiva paleontológica perdida ao "mainstream" evolutivo.
Gould atingiu uma fama sem precedentes entre biólogos evolutivos. De todos, foi o que chegou mais perto de se tornar um nome de uso doméstico, ao se tornar parte da iconografia popular quando fez uma aparição, na forma de desenho animado, em "Os Simpsons". Reformas de sua casa em Manhattan foram relatadas em detalhes em um artigo da "Architectural Digest".
Famoso pelo brilhantismo e pela arrogância, Gould foi admirado e invejado, reverenciado e apedrejado por colegas.
Nascido em 10 de setembro de 1941, em Nova York, Gould deu seus primeiros passos na direção da carreira de paleontólogo quando tinha 5 anos, em uma visita ao Museu Americano de História Natural, acompanhado por seu pai, um estenógrafo de tribunal.
"Eu sonhava me tornar um cientista, em geral, e um paleontólogo, em particular, desde que o esqueleto do tiranossauro me encantou e me apavorou", ele escreveu certa vez. Com uma infância e uma adolescência cheia de fósseis e dos Yankees, ele estudou na Escola Pública 26 e na Jamaica High School. Fez então geologia no Antioch College, em Ohio.

Mudanças repentinas
Em 1967, ele recebeu um doutorado em paleontologia da Universidade Columbia e foi lecionar em Harvard, onde ele passaria o resto de sua carreira. Mas foi na escola de graduação que Gould e um colega, Niles Eldredge, agora um paleontólogo do Museu Americano de História Natural, começaram a plantar a semente do mais famoso dos debates que ele iniciou.
Ao estudar o registro fóssil, os dois estudantes não puderam encontrar a mudança gradual e contínua nas formas fósseis que, ensinaram a eles, seria o material da evolução. Em vez disso, eles encontraram aparições repentinas (no tempo geológico) de novas formas de fósseis seguidas por longos períodos em que esses organismos mudaram bem pouco.
Os biólogos evolutivos sempre atribuíram essas dificuldades à famosa incompletude do registro fóssil. Então, em 1972, os dois propuseram a teoria do equilíbrio pontuado, que sugeria que tanto as aparições repentinas quanto a falta de mudanças eram reais.
Segundo a teoria, houve longos períodos de tempo, algumas vezes milhões de anos, durante os quais as espécies mudavam pouco, quando muito. Intermitentemente, novas espécies surgiam e havia uma rápida mudança evolutiva em uma escala de tempo geológica (ainda interminavelmente lenta para escalas de tempo humanas), resultando em uma súbita aparição de novas formas no registro fóssil. Ou seja, pontuações de mudança rápida contra um fundo de equilíbrio constante, daí o nome da teoria.

Arquitetura
Gould e Richard Lewontin, também de Harvard, logo trabalharam sobre a importância de como os organismos são construídos, ou sua arquitetura, em um famoso estudo sobre uma característica das construções conhecidas como tímpanos.
Os tímpanos, espaços nos cantos sobre um arco, existem como um desfecho necessário da construção sobre arcos. Do mesmo modo, eles argumentavam, certas características dos organismos existem apenas como resultado de como um organismo se desenvolve ou é construído. Logo, os cientistas deveriam evitar assumir que toda característica existe por algum propósito adaptativo.
Gould também foi atacado por críticos vorazes e importantes. Alguns desses cientistas acusaram suas teorias, como o equilíbrio pontuado, de serem tão maleáveis e difíceis de definir que eram essencialmente intestáveis.
Depois de proclamar certa vez que Gould havia trazido a paleontologia de volta à alta roda da teoria evolutiva, John Maynard Smith, da Universidade de Sussex, no Reino Unido, escreveu que outros biólogos evolutivos "tendem a vê-lo como um homem cujas idéias são tão confusas que raramente vale a pena se preocupar com elas". Às vezes essas críticas caem na chamada "Gould-pataquada", onde as acusações são tão pessoais quanto intelectuais. O equilíbrio pontuado, por exemplo, já foi chamado de "evolução para idiotas".
Alguns que estudam evolução em menor escala dentro de espécies, chamados de microevolucionistas, rejeitam seus argumentos de que há características singulares para a grande escala, ou macroevolução. Em vez disso, eles dizem que a macroevolução é nada mais que a microevolução agindo sobre longos períodos.
Outros o criticaram por defender teorias que desafiam partes do escopo moderno darwinista, um ato que alguns vêem como ajuda e aprovação aos criacionistas. Mesmo tendo Gould sido um oponente visível aos esforços de tirar a evolução das salas de aula.
A maioria das pessoas conhecia Gould como um ensaísta divertido. A ele foi atribuída a salvação da arte moribunda do ensaio científico, ao contar histórias de insight científico juntando idéias ou coisas não-relacionadas (ele começou um ensaio juntando Abraham Lincoln e Charles Darwin, ao notar que os dois nasceram no mesmo dia).
Gould também popularizou idéias evolutivas em Harvard, algumas vezes descobrindo suas salas lotadas. Mas enquanto suas histórias de aventura tipicamente aconteciam na biblioteca, colegas diziam que Gould, cuja especialidade eram moluscos Cerion, das Bahamas, também era impressionante no trabalho de campo.
Gould recebeu inúmeros prêmios e honrarias, inclusive a bolsa "de gênio" da Fundação MacArthur, no primeiro ano em que foi concedida. Ele serviu como presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência, foi um membro da Academia Nacional de Ciências. Ele foi professor Alexander Agassiz de zoologia em Harvard e professor pesquisador visitante Astor de biologia na Universidade de Nova York.
Certa vez ele escreveu: "Adoro o amargo mote da Sociedade Paleontológica (tanto literal quanto figurativamente, para os marteladores da principal ferramenta de nosso negócio): Frango ut patefaciam -eu quebro para revelar".

Evolução perde voz mais complexa

MARCELO LEITE
EDITOR DE CIÊNCIA

O câncer já havia atormentado Stephen Jay Gould duas décadas atrás, mas o tratamento mostrou-se então eficaz e ele continuou ativo na Universidade Harvard, em Cambridge (Massachusetts, Costa Leste dos EUA), e no Museu Americano de História Natural, em Nova York. Dividia seu tempo entre as duas cidades, mas nunca trocou sua paixão, o time de beisebol New York Yankees, pelos Red Sox de Boston.
Como era típico de seu temperamento, Gould transformou a experiência dolorosa da doença num ensaio ao mesmo tempo tocante e iluminador, "A Mediana não é a Mensagem". Nele, ensinava como ler estatísticas de sobrevivência de doenças fatais.
Com essa vitória tardia do câncer, a biologia, em particular a teoria da evolução, perde uma de suas vozes mais enciclopédicas, complexas e incômodas.
Mestre autocrático e polemista irascível, Gould soube, no entanto, conquistar o grande público com seus ensaios mensais na revista "Natural History". Eles foram suspensos somente em 2001, após 300 meses ininterruptos.
Reunidos periodicamente em livros, tornaram-se best-sellers até no Brasil. O último deles, "I Have Landed: The End of a Beginning in Natural History", foi lançado há poucas semanas (o título se refere a uma entrada no diário de seu avô imigrante, que chegara exatos cem anos antes à ilha Ellis, em Nova York).
O paleontólogo e evolucionista da Universidade Harvard também publicou muitas obras teóricas sobre biologia. Da estréia com "Ontogeny and Phylogeny", de 1977, até "The Structure of Evolutionary Theory", lançado em março passado, sua produção foi copiosa (a bibliografia compilada pelo próprio Gould tem 92 itens).
Esse último volume, um tratado de 1.400 páginas, é uma espécie de testamento intelectual. Nele Gould defende sua visão pluralista da evolução, em que há lugar tanto para críticas quanto para devoção intelectual a Charles Darwin, autor da noção de que as espécies surgem e desaparecem por meio da seleção natural.
Diferentemente de Darwin, Gould é adepto da tese de que a seleção natural não age apenas sobre os organismos (os mais aptos deixam maior descendência), mas em vários níveis hierárquicos: genes, linhagens de células, indivíduos, populações, espécies e mesmo grupos superiores de classificação, como gênero).
Tal concepção implicava também a crítica do determinismo e do reducionismo genéticos à moda do seu maior adversário intelectual, o britânico Richard Dawkins, autor do clássico "O Gene Egoísta" (Itatiaia/Edusp, 1979). Dawkins vê nos genes a única unidade de seleção e o fator determinante de todas as características dos seres vivos.
Gould combateu essa forma de reducionismo ao lado de Richard C. Lewontin, seu companheiro em Harvard, e outros integrantes do chamado "movimento da ciência radical", como Steven Rose, simpatizantes do marxismo na década de 1980. Outro alvo de seu combate científico-ideológico foi a sociobiologia de Edward Osborne Wilson, outro colega de Harvard, mas conservador.
Gould veria triunfarem, no entanto, as noções que criticava.
Primeiro, com a hegemonia obtida pela genética, que carreou bilhões de dólares de pesquisa para o sequenciamento do genoma humano -com a promessa de assim desvendar "o que significa ser humano", nas palavras de outra estrela de Harvard, o Nobel Walter Gilbert.
Depois, com a crescente popularidade da psicologia evolucionista de Leda Cosmides e Stephen Pinker, autor do best-seller "Como a Mente Funciona" (Companhia das Letras, 1998).
Foi, assim, com entusiasmo que recebeu em fevereiro de 2001 a notícia de que o genoma humano tinha apenas entre 30 mil e 40 mil genes, muito menos do que os mais de 100 mil antes estimados. Era pouco mais do que exibem moscas e vermes, e algo difícil de conciliar tanto com a complexidade óbvia da espécie humana quanto com a doutrina de que os genes contêm o código para tudo, de dezenas de milhares de proteínas ao comportamentos característicos de indivíduos e da própria "natureza humana".
"A complexidade humana não pode ser gerada por 30 mil genes, sob a antiga visão da vida corporificada no que geneticistas literalmente chamaram de seu "dogma central': o DNA fabrica RNA, que fabrica proteína", escreveu Gould em artigo para o jornal "The New York Times" em 19 de fevereiro de 2001, uma semana após a publicação das sequências-rascunho do genoma nas revistas científicas "Nature" e "Science".
A lista de realizações de Stephen Jay Gould parece não ter fim. Para muitos, ficará conhecido como o defensor intransigente da teoria da evolução, contra as teorias do criacionismo, populares entre fundamentalistas norte-americanos. Para outros, como advogado da tolerância nas relações entre ciência e religião, que resumiu na fórmula "magistérios que não se sobrepõem", tema do livro "Rocks of Ages" (1999).
Para outros, ainda, permanecerá a imagem de um professor severo, capaz de interromper a aula diante de 200 alunos para ridicularizar asperamente um retardatário, e a do pai de Jesse, o rapaz autista e calculista exímio de datas que imortalizou no final de "Questionando o Milênio" (Companhia das Letras, 2000).

BIOGRAFIA

10.set.1941
Jay Gould nasce em Nova York
1972
Publica estudo com a teoria do equilíbrio pontuado, com Niles Eldredge.
1974
Começa a escrever mensalmente para a revista "Natural History".
1979
Em estudo com Richard Lewontin, desafia a idéia de que todas as características dos organismos são adaptações moldadas pela seleção natural.
1980
Em estudo controverso, declara a morte da noção de que a seleção natural dentro das espécies pode explicar o conjunto de toda a evolução.
1982
É diagnosticado com mesotelioma abdominal, uma forma de câncer com sobrevida média de oito meses. Faz tratamento bem-sucedido.
2002
Publica sua "magnum opus", "The Structure of Evolutionary Theory", assim como sua última coleção de ensaios da "Natural History".
20.mai.2002
Morre em Nova York

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