Pesquisadores
testam eficiência do guaco contra úlcera e câncer
17 de Julho de 2002 - Conhecido por suas
propriedades fitoterápicas no combate aos problemas respiratórios,
na forma de chás e xaropes espectorantes, o guaco - erva nativa da
Mata Atlântica com alta concentração de cumarina - pode, a médio
prazo, começar a ser empregado contra inúmeros outros males.
Estudando a planta desde 1999 com a ajuda de financiamentos da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a pesquisadora
Vera Lúcia Garcia Rehder, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas,
Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), vem conseguindo importantes avanços na descoberta de novas
aplicações para o guaco.
Química de formação, Vera integra
uma equipe composta, ainda, por farmacólogos - entre eles o Dr. João
Ernesto de Carvalho - e pesquisadores da Faculdade de Odontologia de
Piracicaba da Unicamp, como Jaime Cury e Pedro Rosalen. "Uma das
descobertas aponta que o guaco é muito mais eficiente no combate à
úlcera gástrica do que inúmeras outras plantas utilizadas
regularmente na composição de medicamentos para a doença",
conta Vera. Isso porque os extratos e a cumarina presentes na planta
bloqueiam os receptores do neurotransmissor acetilcolina, diminuindo a
secreção de ácido produzida pelo estômago. O mecanismo de ação
é semelhante ao que ocorre no sistema respiratório - o bloqueio aos
mesmos receptores provoca a broncodilatação e a diminuição da
secreção brônquica.
Neste caso, a espécie utilizada é a
Mikania laevigata. "Existem dois tipos de guacos que, apesar de
serem fisicamente muito parecidos, possuem composições químicas
bastante diferentes", explica a pesquisadora. Após ensaios
microbiológicos com vários tipos de bactérias para verificar a ação
das plantas e extratos sobre elas, concluiu-se que, além das
atividades respiratórias e antiulcerogênica, este tipo de guaco também
inibe o crescimento dos microorganismos responsáveis pelo
desenvolvimento de cáries, da placa dental e da gengivite. "A
outra espécie de guaco - conhecida como Mikania glomerata- não
mostrou reações tão eficientes contra a úlcera. Isso porque ela
possui quantidades muito pequenas de cumarina", diz Vera.
Duas espécies
Em compensação, as duas espécies estão
sendo testadas para o combate ao câncer, sem apresentar diferenças
importantes - já que os princípios ativos, ácidos diterpêrnicos,
aparecem em ambas. "Estamos na fase dos ensaios in vitro para
analisar nove linhagens tumorais - mama, mama resistente a
medicamentos conhecidos, melanona (pele), próstata, cólon, leucemia,
ovário, rins e pulmão", conta a pesquisadora, revelando que o
melhor resultado foi obtido no caso do melanona, onde a morte das células
tumorais humanas chegou a 78%. Nos demais tumores, o índice ficou
entre 40 e 50%.
Vera explica que, apesar dos resultados
positivos, os testes estão apenas começando. "Daí até a
confecção de um medicamento pode demorar muitos anos", diz.
"Existe, ainda, a preocupação quanto à toxicidade e o conseqüente
poder de ação do guaco sobre as células. Como ele tanto inibe o
crescimento das células contaminadas quanto as destrói, há a
possibilidade de que aja também sobre as sadias. Esse é, atualmente,
nosso maior desafio." No caso de uma droga contra a úlcera, a
pesquisadora diz que o caminho pode ser mais curto, uma vez que os
testes em animais já foram concluídos. "Faltam apenas os
experimentos em seres humanos. Para isso, estamos buscando parcerias
com indústrias que tenham interesse em colocar o produto no
mercado."
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