Associação
da etnia craô quer taxa pelo uso de conhecimento tradicional feito
por cientistas
Tribo quer R$ 25 mi por ervas medicinais
03/10/2002
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Curandeiro
craô prepara um cipó usado em receita medicinal |
Índios
da etnia craô, moradores de uma reserva no norte do Tocantins,
pretendem exigir R$ 25 milhões da Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo) na Justiça, como compensação pelo suposto uso indevido da
sabedoria tradicional da tribo.
Informações sobre ervas medicinais recolhidas pelos curandeiros craôs
teriam sido usadas sem o conhecimento prévio de toda a etnia numa
pesquisa da Unifesp, que buscava plantas com potencial para se
transformarem, no futuro, em remédios fitoterápicos.
De acordo com os índios e com a Funai, citados em reportagem do
jornal "O Globo" do último dia 9, embora a Unifesp tenha
firmado uma carta de intenções afirmando que os direitos de
propriedade intelectual seriam dos indígenas, apenas três aldeias
craôs teriam participado desse acordo, deixando as demais (são 17
aldeias no total) fora dele.
"O que os craôs definiram foi o pagamento de uma taxa de
bioprospecção [no valor de R$ 20 milhões" e a indenização
por danos morais [de R$ 5 milhões"", disse à Folha Myrian
Monteiro da Rocha, 44, advogada da Kapey, associação que reúne as
aldeias craôs.
A regularidade do acordo da Unifesp com as três aldeias está sendo
averiguada pelo Ministério Público Federal. Contudo, a procuradora
Maria Luiza Grabner, que cuida do caso, diz que não se trata de denúncia
de biopirataria.
"Entendo que a coleta de recursos naturais na área indígena não
observou requisitos essenciais, tais como o consentimento prévio
informado de todos os índios da etnia craô e a distribuição
equitativa de benefícios", afirmou.
Desavença tribal
O farmacologista Elisaldo Carlini, 72, uma das maiores autoridades em
psicotrópicos do país, coordena o estudo da Unifesp, hoje
paralisado. O trabalho recolheu ervas medicinais craôs com efeitos
sobre o sistema nervoso e procurava firmar um acordo para que
eventuais remédios feitos a partir delas resultassem em royalties
(pagamento de propriedade intelectual) para os índios.
De acordo com ele, não houve má-fé ao firmar uma carta de intenções
com representantes da Wyty-Cati (pronuncia-se "votôcatí"),
entidade que representa três aldeias da reserva, algumas habitadas
por outras etnias. "Parece que houve uma briga interna entre
eles", diz Carlini. "Nós não sabíamos da existência da
outra associação [a Kapey"".
Carlini afirma que ocorreram reuniões sucessivas com advogados e
representantes do Ministério Público Federal sobre a pesquisa, nas
quais os juristas sugeriram a suspensão do estudo até que a questão
dos benefícios para os índios fosse decidida.
A pesquisa estava parada quando, no dia 25 do mês passado, surgiu a
oportunidade de discutir o problema com representantes de todas as
aldeias. "Mas os índios da Wyty-Cati que nós conhecíamos nos
disseram que eles preferiam discutir o assunto entre eles e nós não
fomos à reunião", diz Carlini.
De acordo com o pesquisador, houve entendimentos preliminares entre a
Unifesp, os craôs e três laboratórios nacionais (entre eles o Aché)
para explorar as ervas medicinais, mas nenhum acordo foi efetivado.
Tanto as amostras de plantas quanto os dados sobre elas permanecem em
poder da universidade, afirma Carlini.
O técnico indigenista Fernando Schiavini, 49, da Funai, que trabalha
há vários anos com os craôs, diz que existem divisões políticas
dentro da reserva, mas ressalva que as perspectivas de lucro com a
exploração das ervas teriam ajudado a acirrá-las.
Além disso, o trabalho de campo (feito para a tese de doutorado da bióloga
Eliana Rodrigues, orientada por Carlini) começou em 1999 sem a
autorização da Funai, diz Schiavini.
"O processo teve uma série de equívocos, não sei se por
ingenuidade ou por má-fé. A gente até acredita que possa ter sido
por ingenuidade, mas agora os craôs só aceitam discutir a
continuidade da pesquisa após o pagamento [da indenização]",
afirma.
De acordo com Cristina Theodore Assimakopoulos, 26, advogada da comissão
de propriedade intelectual da Unifesp, a pesquisa realmente começou
sem a autorização da Funai porque havia sido obtida uma permissão
da Wyty-Cati como representante jurídica dos índios da reserva.
"Antrópologos da Wyty-Cati disseram que bastava a permissão da
associação e que podíamos começar antes da permissão da
Funai", diz a advogada. A permissão da entidade só veio em
2001.
"Nós paramos o projeto em respeito aos índios, mas queremos
sentar com a procuradora e resolver esse problema de
representatividade. Para nós não faz diferença estabelecer o
direito de royalties para uma ou para duas associações", diz
Assimakopoulos.
As partes envolvidas podem se reunir em data ainda não definida, num
local neutro, para tentar desemperrar o caso. A advogada dos craôs,
contudo, diz que o pagamento de uma taxa de bioprospecção é uma
exigência lógica.
"Mesmo que não haja retorno para quem pesquisa, é como o
direito autoral de um livro: você paga para ter acesso àquele
conhecimento, que foi construído pelo esforço de gerações",
diz Rocha.
Caso gera debate sobre sabedoria de grupo étnico
O problema enfrentado pelos craôs e pela Unifesp coloca em discussão
o uso sustentável da célebre biodiversidade brasileira. O desafio é
remunerar o conhecimento das comunidades tradicionais sobre a fauna e
a flora e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento científico e
econômico.
"É um caso apropriado para colocar essa discussão para a
sociedade", diz Fernando Schiavini, da Funai. "O
conhecimento já adquirido por uma pesquisa não volta. Por isso, a
comunidade indígena poderia ter direito a um adiantamento",
afirma.
"Não é surpresa que esse tipo de problema ocorra", diz Lídio
Coradin, gerente do Projeto de Recursos Genéticos do Ministério do
Meio Ambiente. "Pode ter certeza de que vão aparecer mais casos.
Mas esses percalços vão facilitar a definição de regras no
futuro", afirma.
"É preciso um meio-termo que reparta os benefícios sem
afugentar as empresas que podem usar o potencial econômico do
conhecimento", diz Coradin.
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