Universidade diz que não pagará indenização a tribo indígena craô
setembro de 02
Em entrevista coletiva realizada ontem, a Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo) deu sua posição oficial sobre o pedido de R$
25 milhões feito por índios craôs, do Tocantins, pelo suposto uso
indevido dos conhecimentos da tribo sobre ervas medicinais. De acordo
com Helio Egydio Nogueira, reitor da Unifesp, a universidade tem todo
o interesse de retomar as negociações, mas não pagará a indenização
pedida.
"A Unifesp não concorda [com a exigência dos índios" e
vai à Justiça, se necessário", afirmou Nogueira. "Temos
as assinaturas de representantes dos índios atestando a seriedade do
projeto", ressaltou o reitor, que disse ter "confiança
absoluta" na seriedade de Elisaldo Carlini, coordenador da
pesquisa, e de Eliana Rodrigues, cuja tese de doutorado, orientada por
Carlini, gerou um levantamento das ervas medicinais dos craôs.
Carlini e Rodrigues procuravam usar a sabedoria tradicional dos
curandeiros da tribo para desenvolver remédios fitoterápicos. Os
pesquisadores haviam assinado uma carta de intenções preliminar com
a Wyty-Cati (pronuncia-se "votôcatí), associação que
representa três das 17 aldeias craôs da reserva no Tocantins.
No documento, foi estabelecido que os indígenas teriam direito aos
royalties (pagamento de propriedade intelectual) por qualquer
medicamento que fosse desenvolvido pela pesquisa.
Mas a Kapey, outra associação indígena que reúne todas as aldeias
da etnia, diz ter sido excluída do acordo e pretende pedir R$ 20 milhões
de taxa de bioprospecção (pelo acesso aos conhecimentos craôs) e R$
5 milhões por danos morais, já que se sentiram
"ludibriados" pelos cientistas.
De acordo com Rodrigues, os pesquisadores só souberam da existência
da Kapey em julho de 2000, embora a pesquisa tivesse começado em
1999. "Houve então uma reunião com representantes de todas as
aldeias, inclusive as da Kapey, onde foi definido quem participaria
mesmo do projeto -três aldeias, uma da Wyty-Cati e duas da Kapey. As
aldeias da Kapey se filiariam à Wyty-Cati para assinar o acordo, mas
os royalties seriam divididos entre toda a etnia conforme eles
combinassem verbalmente", diz a bióloga.
A pesquisa só foi aprovada pela Funai em 2001, dois anos depois de
seu início, mas Carlini afirma que isso não enfraquece a posição
da Unifesp. "Tivemos o aval da Fapesp [Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo", do CNPq [Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico" e da reitoria da
Unifesp", diz o farmacologista.
Rodrigues afirma que o acordo com a Wyty-Cati foi adequado por incluir
outras etnias que falam a língua timbira e integram a associação, já
que o conhecimento sobre as ervas também pertenceria a elas. Uma
reunião dos índios está marcada para os dias 1º e 2 de julho,
enquanto Carlini se reúne com a Funai no dia 4 para tentar contornar
o impasse.
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