Uso de droga evoluiu com a humanidade
Pesquisa
sugere que plantas psicotrópicas ajudaram humanos antigos a
sobreviver em ambientes difíceis
Sep. 30, 02
Se as drogas são tão ruins assim, por que tantas pessoas fazem uso
delas? Porque elas ajudaram nossos ancestrais, argumenta uma dupla de
antropólogos.
Nossa predileção por substâncias psicotrópicas é geralmente vista
como um acidente biológico. A visão convencional é que as drogas
induzem o cérebro a pensar -erroneamente- que está obtendo uma
recompensa quando, de fato, não está.
Mas os antropólogos Roger Sullivan, da Universidade de Auckland (Nova
Zelândia), e Edward Hagen, da Universidade da Califórnia em Santa
Barbara (EUA), ressaltam que os ancestrais da espécie humana
estiveram expostos a plantas que contêm substâncias psicoativas por
milhões de anos.
Na edição deste mês da revista "Addiction" (www.addiction-
ssa.org), eles argumentam que humanos têm predisposição ao uso de
drogas porque a espécie evoluiu para procurar plantas ricas em
alcalóides.
Consumir essas plantas poderia ter sido uma estratégia básica de
sobrevivência. "Alcalóides como nicotina e cocaína poderiam
ter sido explorados pelos nossos ancestrais para ajudá-los a suportar
condições ambientais difíceis", diz Sullivan. Por exemplo,
até recentemente, os aborígenes da Austrália usaram o "pituri",
uma planta rica em nicotina, para viajar pelo deserto com pouca
comida. E as populações dos Andes ainda mascam folhas de coca para
trabalhar em altitudes elevadas.
Evidências arqueológicas mostram que o uso de drogas era amplo em
culturas antigas. Nozes de bétele, uma planta aromática que contém
substâncias psicoativas, eram mascadas há 13 mil anos no Timor. E
artefatos descobertos no Equador estendem o uso das folhas de coca a
5.000 anos atrás.
Muitas dessas drogas eram potentes: o "pituri" contêm 5% de
nicotina, enquanto o tabaco hoje contém 1,5%. E mais: esses pioneiros
algumas vezes mascavam as plantas psicotrópicas com álcalis, como
cinzas. Esse processo, conhecido como "freebasing", libera a
forma livre da substância ativa e permite que ela seja absorvida
diretamente no sangue.
No entanto, nas culturas do Pacífico nas quais mascar nozes de
bétele ainda é um costume difundido, a planta é vista mais como uma
fonte de energia do que como uma droga, diz Sullivan. E algumas drogas
têm valor nutricional real: cem gramas de folha de coca, por exemplo,
contêm mais do que a dose diária recomendada nos EUA de cálcio,
fósforo, ferro e vitaminas A, B2 e E.
E, em ambientes como o deserto australiano, a dieta provavelmente era
tão pobre que as pessoas lutavam para produzir um número suficiente
de neurotransmissores, os mensageiros químicos do cérebro. Consumir
plantas contendo substâncias que imitam o funcionamento dos
neurotransmissores poderia ter ajudado a compensar essa deficiência.
Eles afirmam que essa parte da sua teoria poderia ser testada privando
cobaias de certos neurotransmissores e verificando se elas passam a
procurar comida rica nessas substâncias.
O modelo de Sullivan é perfeitamente plausível, diz Wayne Hall, da
Universidade de Queensland (Austrália), ex-diretor do Instituto
Nacional de Pesquisa de Álcool e Drogas daquele país.
"Certamente há evidência de que plantas evoluíram para imitar
neurotransmissores de mamíferos", diz. "Mas o problema hoje
é que temos doses muito maiores de substâncias muito mais potentes.
ABBIE
THOMAS
DA "NEW SCIENTIST"
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