Nasa
vê traço de clorofila em Marte
Sinal da substância dá
alento à possibilidade de vida no planeta
18/10/2002
O planeta vermelho acaba de ganhar um toque de verde. Um estudo
conduzido por cientistas do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, encontrou
pequenas "manchas" na superfície de Marte que poderiam ser
traços de clorofila.
Caso seja confirmada, a descoberta pode trazer novo alento para a
perspectiva da existência de vida no planeta vizinho. Afinal de contas,
a clorofila é a substância usada pelas plantas na Terra para converter
a luz do Sol em energia para sua subsistência, no processo conhecido
como fotossíntese.
A identificação foi feita por Carol Stoker, trabalhando com imagens de
altíssima resolução produzidas pela Mars Pathfinder. Essa missão
marciana da agência espacial americana -que ficou famosa pelo robozinho
que a acompanhou na superfície, o Sojourner- enviou incrível
quantidade de informação à Terra em 1997.
Entre elas estava a Superpan, um mosaico de imagens ultradetalhado da
região em que a Pathfinder aterrissou. A foto é multiespectral -nome
bonito para dizer que ela não só mostra a luz visível, mas também a
de frequências invisíveis aos olhos humanos (como infravermelho e
ultravioleta).
Cada substância costuma refletir essa luz invisível em um certo padrão,
como se fosse uma "assinatura" própria. Stoker analisou a
imagem e encontrou seis pontos onde havia o "autógrafo" da
clorofila -quatro deles dentro da própria Pathfinder; dois na superfície
de Marte.
O resultado, claro, deixa todo mundo com a pulga atrás da orelha. Como
quatro dos sinais são falsos positivos (a não ser que a Pathfinder
estivesse planejando mudar de carreira e virar agricultora em Marte), é
bem possível que outros dois, na superfície do planeta, também o
fossem.
Por essa razão Stoker está sendo bem cautelosa na apresentação de
seus resultados, o que vai acontecer na semana que vem, em uma conferência
de astrobiologia promovida pelo Ames. E por isso também ela ficou
irritada com a divulgação da pesquisa ontem, pela rede britânica BBC,
e decidiu não conceder entrevistas.
De toda forma, a comunidade científica está interessada. "Esse
resultado é muito provocativo e, se verdadeiro, tem implicações
estonteantes", diz Max Bernstein, colega de Stoker no Ames e membro
do Instituto Seti. "Entretanto, ainda há questões que precisam
ser respondidas antes que digamos que há clorofila em Marte."
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, do Observatório Nacional, no Rio
de Janeiro, concorda. "Não há dúvida de que as imagens sugerem a
existência dessas moléculas", afirma. "No entanto, convém
considerar esse dado como um indício a ser confirmado."
"A melhor forma de entender esse resultado", diz Bernstein,
"é que esses cientistas estão usando essa técnica para procurar
coisas interessantes que devem ser assunto para missões futuras."