Origem do alfabeto grego é redefinida - análise dos troncos das árvores
Idade do Bronze pode ser alterado.
Segundo
um livro escrito por Manning, em que coletou a informação de vários
estudiosos sobre a idade que eles acreditavam ter a Idade do Bronze
começado, chegou-se a uma diferença de 1700 anos. 'Isto É
insatisfatório para se escrever a história', diz Kuniholm. Os números
variaram de 4000 a.C. até 2300 a.C. 'Isto equivaleria dizer que
(Pedro Álvares) Cabral chegou ao Brasil entre 300 d.C. e 2000 d.C.',
compara o arqueólogo norteamericano.
No caso específico da descoberta recém-apresentada sobre a correta
idade dos artefatos encontrados na antiga Gordion, dentro do túmulo
do rei Midas, mesmo um intervalo de 22 anos É bastante grande em se
tratando de história. O próprio arqueólogo usa outra vez a história
das Américas para explicar o seu ponto de vista. 'Imagine se Cabral
tivesse descoberto o Brasil em 1478 em vez de 1500. Quem poderia
alardear ‘eu cheguei primeiro na América’, ele ou Colombo (a
descoberta da América É de 1492)? Imagino que historiadores
brasileiros e portugueses ficariam bastante entusiasmados se
conseguissem provar que Cabral chegou antes que Colombo às Américas.'
Animado com pedaços de madeira onde quer que eles estejam, o
professor da Universidade de Cornell vai mais longe em seu exercício
hipotético. 'Uma madeira de um navio afundado em 1490, por exemplo,
com características das utilizadas pelos portugueses, poderia dar aos
cientistas uma boa idéia de como era este navio', explica Kuniholm.
'Mas imagine se a madeira for datada como sendo do ano 300 d.C. e, além
disso, tiver características das usadas pelos romanos. Isto significa
que os romanos chegaram primeiro ao litoral brasileiro. E, com
certeza, o fantasma de Cabral ficará bastante desapontado por causa
desta descoberta.' (Fim de Semana/Página 9)(Eduardo Geraque de São
Paulo) São Paulo, 18 de janeiro de 2002 - Um dos importantes capítulos
da Idade do Ferro acaba de ser reescrito. Uma equipe que explora vários
sítios arqueológicos próximos de Ancara, na Turquia - onde na pré-história
havia a cidade de Gordion, capital da Frígia -, conseguiu obter uma
datação muito mais precisa das construções erguidas na região. A
principal delas É a tumba do mítico rei Midas, que, segundo a lenda
grega, transformava em ouro tudo o que tocava. Os novos estudos,
publicados em dezembro na revista 'Science', aumentaram em 22 anos
(para 740 a.C.) a existência de todos os artefatos, quase 300,
encontrados dentro do túmulo do antigo monarca. A simples mudança na
idade das peças arqueológicas implica uma transformação
contundente na história da humanidade.
Esta nova datação coloca as inscrições gregas encontradas nos
objetos dentro do túmulo turco como uma das mais antigas da história
da humanidade. Agora, no mínimo, as letras reconhecidas como sendo do
alfabeto grego e grafadas sobre os tachos do interior do túmulo -
foram identificadas também inscrições etruscas - são tão antigas
como as outras achadas até agora em outros sítios. Por exemplo, a
bola de bronze enrolada em retalhos de cera com uma inscrição alfabética
datada agora em Gordion como sendo de 740 a.C. É do mesmo período
que um jarro de vinho achado em um cemitério de Atenas e de um copo
da antiga colônia de Pithekoussai (atual ilha de Ischia), localizada
na bacia de Nápoles. As inscrições identificadas nestes três
artefatos são consideradas pelos cientistas como as primeiras aparições
da escrita grega em todo o mundo. O alfabeto grego originaria depois o
latim e, depois ainda, o próprio português.
'Este único ALFABETO, que originou depois de várias modificações
outras linguagens bem diferentes, surgiu na própria Grécia no período
entre 725 a.C e 740 a.C. A data varia de acordo com o especialista
consultado', explica Peter Ian Kuniholm, da Cornell University, um dos
quatro autores do artigo da 'Science'. Para o pesquisador
norte-americano, a grande contribuição desta nova datação, em se
tratando de inscrições alfabéticas, É mostrar a rapidez com que o
dialeto GREGO se espalhou. 'O alfabeto grego, que se originou do fenício,
se espalhou para o oeste de forma rápida. Tradicionalmente pelo mar,
mas agora fica evidente também que ele se deslocou por terra',
explica Kuniholm. A nova cronologia, para o arqueólogo norteamericano,
mostra com clareza a evolução do deslocamento da linguagem.
'Realmente, o ALFABETO pegou.' Os estudos mais recentes feitos por
especialistas em várias partes do mundo reforçam a tese de que o
nascimento de todas as línguas ocidentais, inclusive do GREGO e do
romano antigo, ocorreu na Fenícia (atual Líbano, Israel e
Palestina). A inscrição fenícia mais antiga encontrada até hoje
estava em Biblos, no Líbano, no epitáfio de Ahiram. A datação
indicou que a amostra era do século XI a.C. No Mediterrâneo, o
alfabeto grego migrou com mais rapidez porque ele foi o escolhido
pelos mercadores da época. Para eles, era muito mais fácil utilizar
em seus negócios diários as recentes letras gregas do que as inscrições
cuneiformes ou então a Linear B.
Para descer a precisão de anos, os pesquisadores - além de Kuniholm
assinam o artigo Sturt Manning, Bernd Kromer e Maryanne Newton -
utilizam as técnicas da dendrocronologia, que relaciona os anéis de
crescimento dos troncos das árvores com os ciclos do sol (ver
reportagem nesta página). Outro método utilizado pelos pesquisadores
na Turquia É o do radiocarbono. Ele É usado em conjunto com a
dendrocronologia. Enquanto a análise dos troncos das árvores permite
uma precisão na data final de um ano, no radiocarbono usado nestes
estudos este intervalo de tempo pode conter um erro de até uma década.
Sendo quatro anos para mais ou sete ano para menos.
A datação dos objetos, no caso das pesquisas realizadas no sítio próximo
a Ancara pelo time transnacional, É indireta. 'Nós usamos grandes
toras de junípero (tipo de árvore em que os frutos são usados na
fabricação do gim), encontradas na câmara funerária em Gordion',
explica Kuniholm. O túmulo do rei Midas tem um grande interesse para
os arqueólogos que se utilizam das técnicas da dendrocronologia
porque É considerado o mais antigo prédio do mundo erguido de
madeira. Segundo o pesquisador, a datação É extrapolada também
para os quase 300 artefatos achados no interior do túmulo. 'Todos os
objetos estão do ponto de vista estilístico relacionados com o
ambiente. Esta nova cronologia nos assegura que tudo que está lá
dentro, metais, mobílias, restos de tecido e as inscrições alfabéticas
É 22 anos mais antigo do que se imaginava até agora', explica o
cientista.
A descoberta das novas datas em Gordion não É a primeira do time
formado por cientistas norte-americanos e europeus. Bastante
interessado nas civilizações antigas do Mediterrâneo oriental,
Sturt Manning - o principal autor do artigo da 'Science' e pesquisador
do departamento de arqueologia da Universidade britânica de Reading -
há vários anos também se dedica ao estudo da polêmica grande erupção
do vulcão Thera, uma ilha vulcânica do mar Egeu. Há cinco anos,
praticamente a mesma equipe conseguiu evidências, também por intermédio
da dendrocronologia, de que a grande erupção do Thera ocorreu no ano
de 1628 a.C. A lava e a fumaça lançadas na atmosfera encobriram o
sol e causaram um grande decréscimo da temperatura em várias partes
do mundo. Relatos mostram que o efeito deste fenômeno foi
identificado até onde hoje É os Estados Unidos. Mas, em compensação,
um pedaço do mundo lucrou com esta catástrofe. Segundo os dados
coletados na Turquia, os juníperos, os cedros e os pinheiros
cresceram oito vezes mais que o normal naquele período. A falta de
sol e o excesso de umidade no solo foram os protagonistas deste
verdadeiro boom vegetativo. Além de cravar o ano da grande erupção
que afetou boa parte do mundo, a equipe, sempre pelo método da
dendrocronologia aliado ao radiocarbono, vem identificando várias
novas datas de construção de importantes construções, todas de
madeira, da região ocupada hoje principalmente pela Turquia, no leste
do continente europeu.
Segundo os cientistas, por exemplo, a madeira utilizada para a construção
de um navio que continha jóias com o nome da rainha Nefertiti, um dos
escaravelhos de ouro foi usado por ela no momento da coroação, foi
cortada em 1327 a.C. - a data anterior, anunciada pela própria equipe
em 1996, era a de 1316. O palácio de Acemhöyük, da Idade do Bronze
Média, que havia sido determinado pelo time de Cornell como sendo de
1752 a.C. (a idade do corte das madeiras), ganhou uma nova data. Pelo
estudo de dezembro ele É mais antigo. O corte das madeiras (troncos
de cedro e de junípero) usadas no edifício foi em 1774. Além disso,
eles conseguiram determinar que o local foi usado por 61 anos. Esta É
a data dos anéis de crescimento das madeiras mais novas utilizadas
para os reparos no prédio. Todas estas descobertas, das construções
ao ALFABETO, vão provocar uma grande alteração na linha do tempo
das Idades do Bronze e do Ferro em breve.
'Apenas com o ALFABETO não É possível reescrever a linha do tempo.
Ele É apenas um detalhe bastante interessante dentro do processo.
Existem mais de 30 sítios arqueológicos em estudo. Todas as informações
se relacionam com uma outra ampla cronologia, escrita basicamente
pelos anéis de crescimento das árvores', diz Kuniholm. Segundo o
acadêmico, seus estudantes e os colegas europeus estão tentando
fazer uma grande cronologia da Idade do Bronze. Alguns fatos
conhecidos hoje poderão ser mudados dentro deste intervalo de tempo
em até alguns séculos. 'Provavelmente este estudo estará bem
acurado ainda até o fim deste ano.'
Com a precisão da datação ao nível de anos, a história terá
muitas novidades nesta nova reescrita. Até o próprio início da
| RETORNAR INDEX | SUBIR DOCUMENTO |