A interferência da poluição - anéis de crescimento

 

A essência da técnica da dendrocronologia, basicamente, consiste em contar o número de anéis de crescimento no tronco de uma árvore. Cada anel equivale a um ano na vida do vegetal ou então a um ciclo solar. O problema é que esta técnica deve ser mais aplicada apenas em espécies que habitam lugares com um tipo de clima bastante marcado. É exatamente o caso dos países europeus, onde as estações são mais definidas.

Na pesquisa publicada na 'Science' em dezembro, os pesquisadores utilizaram uma janela não absoluta da escala do tempo para identificar os períodos em que as árvores viveram, no caso este intervalo foi de 1.026 anos. Ou seja, a partir de um intervalo conhecido da escala temporal - estes troncos foram datados com radiocarbono - os períodos relativos de vida dos troncos das árvores são 'encaixados' nestas janela previamente conhecida. O computador se encarrega de fazer as devidas transformações das datas. a metodologia da dendrocronologia e do radiocarbono é complementar neste caso porque ambas podem ser utilizadas, sem restrições, neste tipo de amostragem. Na verdade, o carbono, apesar de informar de forma mais direta a idade dos objetos, tem uma precisão menor. São 11 anos contra um, no caso da contagem dos anéis de crescimento. Por causa ainda das características de cada metodologia, o radiocarbono é utilizado apenas para medições de até 40 mil anos atrás. Na dendrocronologia, este intervalo cai para 12 mil anos. O radiocarbono é uma das técnicas da família das metodologias isotópicas. Dentro destas metodologias, que se utilizam da meia-vida dos elementos químicos para a datação, as que chegam a períodos mais remotos da história do universo alcançam 4,5 bilhões de anos a partir do presente. Este é o caso da técnica isotópica que considera o decaimento químico do urânio para o chumbo. a investigação com base nestes dois minerais permite datações que vão de 1 milhão até os 4,5 bilhões de anos.

O universo, segundo estimativas científicas - as técnicas usadas são bem variadas -, teria algo em torno de 13 bilhões de anos. Entretanto, o método do urânio para o chumbo consegue, pelo menos até hoje, datar a rocha mais antiga do universo já encontrada, que teria 4,03 bilhões de anos. Isto é possível porque o período necessário que um átomo de chumbo demora para se formar, a partir do urânio, é de 704 milhões de anos. Este é o conceito chamado na química de meia-vida.

No caso da dendrocronologia uma descoberta preocupante foi realizada pela equipe de Peter Ian Kuniholm em seu último trabalho. Nunca antes uma diferença regional, em termos de carbono 14, foi encontrada pelos pesquisadores em árvores da mesma idade do ponto de vista da contagem dos anéis. E isto ocorreu, segundo Kuniholm, provavelmente, pela grande emissão de carbono que vem ocorrendo na atmosfera terrestre nos últimos tempos.

Em uma de suas experiências de calibração das escalas de tempo, o pesquisador norteamericano comparou árvores da Turquia com as da Alemanha. a hipótese de trabalho, para que a calibração pudesse ser feita, consistia em que as duas árvores tivessem a mesma concentração de carbono 14, já que ambas eram da mesma idade, do ponto de vista da contagem dos anéis de crescimento.

'Nós esperávamos que as duas amostras fossem também da mesma idade radiocarbônica, mas isto não ocorreu.' a principal resposta de Kuniholm para o fenômeno está nas diferentes taxas de absorção de carbono. a árvore turca, dentro dos períodos analisados, absorveu menos carbono durante os anos de inverno mais prolongado no hemisfério norte. Em compensação, a árvore alemã, que cresce mais no fim da primavera, absorveu mais carbono 14 durante as épocas mais frias. 'as árvores são como gravadores da radioatividade disponível no cosmos. O problema é que elas só gravam quando crescem.'

Como o carbono 14 é um elemento isótopo ao carbono normal, ele é produzido na atmosfera terrestre pela colisão de nêutrons, induzidos pelos raios cósmicos, com nitrogênio. Quando a atividade solar está muito alta, existe um maior impedimento para que as partículas mais carregadas de energia entrem na atmosfera. Ocorre, então, uma menor produção de carbono 14. Entretanto, quando a atividade solar está em fase de baixa, existe um pico na produção do carbono 14.

No caso específico da Europa, em condições normais, esta fase de maior entrada de carbono 14 na atmosfera (em forma de dióxido de carbono 14) ocorre no fim da primavera. Como as árvores na Turquia crescem antes, no início da primavera, terão mais condições de absorver as moléculas de carbono do que as alemãs, que se desenvolvem só no fim desta fase de maior disponibilidade de carbono 14 no ambiente. Mas, por que os cientistas também encontraram o contrário? Quando o período analisado é muito frio, o pico de carbono 14 é maior e mais duradouro. assim, a situação se inverte e os pinheiros alemães passam a absorver mais carbono 14 do que as árvores turcas. Como a atividade humana está pondo cada vez mais átomos de carbono no ambiente, os cientistas acreditam que este desequilíbrio poderá afetar também os registros nas árvores. 'Com tanto carbono no ambiente, é provável que as árvores deixem de dar as respostas, com sinais tão significativos, que vêm dando até hoje.' (Fim de Semana/Página 9)(E.G.)

 
Origem do alfabeto grego é redefinida
      Idade do Bronze pode ser alterado. Segundo um livro escrito por Manning, em que coletou a informação de vários estudiosos sobre a idade que eles acreditavam ter a Idade do Bronze começado, chegou-se a uma diferença de 1700 anos. 'Isto é insatisfatório para se escrever a história', diz Kuniholm. Os números variaram de 4000 a.C. até 2300 a.C. 'Isto equivaleria dizer que (Pedro Álvares) Cabral chegou ao Brasil entre 300 d.C. e 2000 d.C.', compara o arqueólogo norteamericano.

       No caso específico da descoberta recém-apresentada sobre a correta idade dos artefatos encontrados na antiga Gordion, dentro do túmulo do rei Midas, mesmo um intervalo de 22 anos é bastante grande em se tratando de história. O próprio arqueólogo usa outra vez a história das Américas para explicar o seu ponto de vista. 'Imagine se Cabral tivesse descoberto o Brasil em 1478 em vez de 1500. Quem poderia alardear ‘eu cheguei primeiro na América’, ele ou Colombo (a descoberta da América é de 1492)? Imagino que historiadores brasileiros e portugueses ficariam bastante entusiasmados se conseguissem provar que Cabral chegou antes que Colombo às Américas.'

       Animado com pedaços de madeira onde quer que eles estejam, o professor da Universidade de Cornell vai mais longe em seu exercício hipotético. 'Uma madeira de um navio afundado em 1490, por exemplo, com características das utilizadas pelos portugueses, poderia dar aos cientistas uma boa idéia de como era este navio', explica Kuniholm. 'Mas imagine se a madeira for datada como sendo do ano 300 d.C. e, além disso, tiver características das usadas pelos romanos. Isto significa que os romanos chegaram primeiro ao litoral brasileiro. E, com certeza, o fantasma de Cabral ficará bastante desapontado por causa desta descoberta.' (Fim de Semana/Página 9)(Eduardo Geraque de São Paulo) São Paulo, 18 de janeiro de 2002 - Um dos importantes capítulos da Idade do Ferro acaba de ser reescrito. Uma equipe que explora vários sítios arqueológicos próximos de Ancara, na Turquia - onde na pré-história havia a cidade de Gordion, capital da Frígia -, conseguiu obter uma datação muito mais precisa das construções erguidas na região. A principal delas é a tumba do mítico rei Midas, que, segundo a lenda grega, transformava em ouro tudo o que tocava. Os novos estudos, publicados em dezembro na revista 'Science', aumentaram em 22 anos (para 740 a.C.) a existência de todos os artefatos, quase 300, encontrados dentro do túmulo do antigo monarca. A simples mudança na idade das peças arqueológicas implica uma transformação contundente na história da humanidade.

       Esta nova datação coloca as inscrições gregas encontradas nos objetos dentro do túmulo turco como uma das mais antigas da história da humanidade. Agora, no mínimo, as letras reconhecidas como sendo do alfabeto grego e grafadas sobre os tachos do interior do túmulo - foram identificadas também inscrições etruscas - são tão antigas como as outras achadas até agora em outros sítios. Por exemplo, a bola de bronze enrolada em retalhos de cera com uma inscrição alfabética datada agora em Gordion como sendo de 740 a.C. é do mesmo período que um jarro de vinho achado em um cemitério de Atenas e de um copo da antiga colônia de Pithekoussai (atual ilha de Ischia), localizada na bacia de Nápoles. As inscrições identificadas nestes três artefatos são consideradas pelos cientistas como as primeiras aparições da escrita grega em todo o mundo. O alfabeto grego originaria depois o latim e, depois ainda, o próprio português.

       'Este único alfabeto, que originou depois de várias modificações outras linguagens bem diferentes, surgiu na própria Grécia no período entre 725 a.C e 740 a.C. A data varia de acordo com o especialista consultado', explica Peter Ian Kuniholm, da Cornell University, um dos quatro autores do artigo da 'Science'. Para o pesquisador norte-americano, a grande contribuição desta nova datação, em se tratando de inscrições alfabéticas, é mostrar a rapidez com que o dialeto grego se espalhou. 'O alfabeto grego, que se originou do fenício, se espalhou para o oeste de forma rápida. Tradicionalmente pelo mar, mas agora fica evidente também que ele se deslocou por terra', explica Kuniholm. A nova cronologia, para o arqueólogo norteamericano, mostra com clareza a evolução do deslocamento da linguagem. 'Realmente, o alfabeto pegou.' Os estudos mais recentes feitos por especialistas em várias partes do mundo reforçam a tese de que o nascimento de todas as línguas ocidentais, inclusive do grego e do romano antigo, ocorreu na Fenícia (atual Líbano, Israel e Palestina). A inscrição fenícia mais antiga encontrada até hoje estava em Biblos, no Líbano, no epitáfio de Ahiram. A datação indicou que a amostra era do século XI a.C. No Mediterrâneo, o alfabeto grego migrou com mais rapidez porque ele foi o escolhido pelos mercadores da época. Para eles, era muito mais fácil utilizar em seus negócios diários as recentes letras gregas do que as inscrições cuneiformes ou então a Linear B.

       Para descer a precisão de anos, os pesquisadores - além de Kuniholm assinam o artigo Sturt Manning, Bernd Kromer e Maryanne Newton - utilizam as técnicas da dendrocronologia, que relaciona os anéis de crescimento dos troncos das árvores com os ciclos do sol (ver reportagem nesta página). Outro método utilizado pelos pesquisadores na Turquia é o do radiocarbono. Ele é usado em conjunto com a dendrocronologia. Enquanto a análise dos troncos das árvores permite uma precisão na data final de um ano, no radiocarbono usado nestes estudos este intervalo de tempo pode conter um erro de até uma década. Sendo quatro anos para mais ou sete ano para menos.

       A datação dos objetos, no caso das pesquisas realizadas no sítio próximo a Ancara pelo time transnacional, é indireta. 'Nós usamos grandes toras de junípero (tipo de árvore em que os frutos são usados na fabricação do gim), encontradas na câmara funerária em Gordion', explica Kuniholm. O túmulo do rei Midas tem um grande interesse para os arqueólogos que se utilizam das técnicas da dendrocronologia porque é considerado o mais antigo prédio do mundo erguido de madeira. Segundo o pesquisador, a datação é extrapolada também para os quase 300 artefatos achados no interior do túmulo. 'Todos os objetos estão do ponto de vista estilístico relacionados com o ambiente. Esta nova cronologia nos assegura que tudo que está lá dentro, metais, mobílias, restos de tecido e as inscrições alfabéticas é 22 anos mais antigo do que se imaginava até agora', explica o cientista.

       A descoberta das novas datas em Gordion não é a primeira do time formado por cientistas norte-americanos e europeus. Bastante interessado nas civilizações antigas do Mediterrâneo oriental, Sturt Manning - o principal autor do artigo da 'Science' e pesquisador do departamento de arqueologia da Universidade britânica de Reading - há vários anos também se dedica ao estudo da polêmica grande erupção do vulcão Thera, uma ilha vulcânica do mar Egeu. Há cinco anos, praticamente a mesma equipe conseguiu evidências, também por intermédio da dendrocronologia, de que a grande erupção do Thera ocorreu no ano de 1628 a.C. A lava e a fumaça lançadas na atmosfera encobriram o sol e causaram um grande decréscimo da temperatura em várias partes do mundo. Relatos mostram que o efeito deste fenômeno foi identificado até onde hoje é os Estados Unidos. Mas, em compensação, um pedaço do mundo lucrou com esta catástrofe. Segundo os dados coletados na Turquia, os juníperos, os cedros e os pinheiros cresceram oito vezes mais que o normal naquele período. A falta de sol e o excesso de umidade no solo foram os protagonistas deste verdadeiro boom vegetativo. Além de cravar o ano da grande erupção que afetou boa parte do mundo, a equipe, sempre pelo método da dendrocronologia aliado ao radiocarbono, vem identificando várias novas datas de construção de importantes construções, todas de madeira, da região ocupada hoje principalmente pela Turquia, no leste do continente europeu.

       Segundo os cientistas, por exemplo, a madeira utilizada para a construção de um navio que continha jóias com o nome da rainha Nefertiti, um dos escaravelhos de ouro foi usado por ela no momento da coroação, foi cortada em 1327 a.C. - a data anterior, anunciada pela própria equipe em 1996, era a de 1316. O palácio de Acemhöyük, da Idade do Bronze Média, que havia sido determinado pelo time de Cornell como sendo de 1752 a.C. (a idade do corte das madeiras), ganhou uma nova data. Pelo estudo de dezembro ele é mais antigo. O corte das madeiras (troncos de cedro e de junípero) usadas no edifício foi em 1774. Além disso, eles conseguiram determinar que o local foi usado por 61 anos. Esta é a data dos anéis de crescimento das madeiras mais novas utilizadas para os reparos no prédio. Todas estas descobertas, das construções ao alfabeto, vão provocar uma grande alteração na linha do tempo das Idades do Bronze e do Ferro em breve.

       'Apenas com o alfabeto não é possível reescrever a linha do tempo. Ele é apenas um detalhe bastante interessante dentro do processo. Existem mais de 30 sítios arqueológicos em estudo. Todas as informações se relacionam com uma outra ampla cronologia, escrita basicamente pelos anéis de crescimento das árvores', diz Kuniholm. Segundo o acadêmico, seus estudantes e os colegas europeus estão tentando fazer uma grande cronologia da Idade do Bronze. Alguns fatos conhecidos hoje poderão ser mudados dentro deste intervalo de tempo em até alguns séculos. 'Provavelmente este estudo estará bem acurado ainda até o fim deste ano.'

       Com a precisão da datação ao nível de anos, a história terá muitas novidades nesta nova reescrita.

 

 

 

 


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