
Descoberta
sobre as chuvas na Amazônia pode influir na previsão
Manaus, 15 de Outubro de 2002 -
Pesquisadores das áreas de física do clima, biogeoquímica e de química
da atmosfera do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da
Amazônia (LBA) descobriram que a tendência da água transpirada pela
floresta amazônica é de cair na própria região em volumes superiores
em relação aos admitidos atualmente. A descoberta vai mudar os modelos
matemáticos e climáticos de previsão do clima no País, tornando-a
mais refinada e confiável, de acordo com informações de Flávio Luizão,
coordenador do projeto, a participantes de um seminário sobre
desenvolvimento sustentável promovido pela Petrobras em Manaus, no último
final de semana.
Os modelos de previsão do clima adotados
no País consideram que as nuvens formadas na região se elevam a sete
ou dez quilômetros e por isso seriam transportadas, em grande
quantidade, para outras áreas do planeta. Os estudos do LBA demonstram,
no entanto, que essas nuvens se acomodam em níveis mais baixos e se
precipitam, com mais freqüência, sobre a própria Amazônia.
"Esse fenômeno pode explicar os freqüentes erros na previsão do
tempo para a região", comentou Luizão.
Os pesquisadores, conforme o coordenador,
concluíram que a transpiração também produz alguns compostos orgânicos
- ou grandes moléculas que se cristalizam na atmosfera e criam pequenos
núcleos em torno dos quais se juntam os vapores de água e dão origem
às gotas de chuva, muito abaixo das nuvens originárias do processo de
resfriamento e condensação, pelo qual estão orientados os
especialistas em previsão do clima atualmente.
Informações mais confiáveis
Para o pesquisador, a descoberta vai
gerar informações mais confiáveis aos setores que incluem fatores
climáticos em seu planejamento. "Necessitamos de informações
sobre as mudanças climáticas para planejar a nossa vida. Isso vai da
agricultura à navegação." Luizão explicou que o LBA tem mais de
mil pesquisadores envolvidos em cerca de 100 projetos, cujos resultados
serão aplicados na melhoria da qualidade de vida do planeta e de seus
habitantes.
O LBA é um projeto de cooperação científica
entre o Brasil, Estados Unidos e a Comunidade Européia para verificar
como a floresta funciona e como ela envolve e é envolvida pelas mudanças
climáticas do planeta. Os pesquisadores contam, além dos recursos
financeiros, com um aparato tecnológico dos três parceiros,
principalmente na área de sensoriamento remoto, no qual estão incluídos
os satélites Landsat 7, Spot, ERS, JERS, Radarsat, Adeos, Envisat e
CBERS, e a plataforma EOS e TRMM.
A coordenação geral do projeto está
instalada no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC)
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com sede em
Cachoeira Paulista, mas será transferida para a sede do Instituto
Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), em Manaus. Luizão informou
que a transferência será concluída na próxima reunião do grupo de
cientistas marcada para os dias 21, 22 e 23 de novembro, em Manaus.
"Com a coordenação na capital do Amazonas teremos mais
equipamentos necessários à formação de uma base de dados na região,
que é o foco principal do projeto."
O projeto foi criado em 1996 e se
estenderá ainda pelos próximos cinco anos. Luizão disse que as
pesquisas do LBA se concentram na busca de respostas sobre como as mudanças
climáticas - geradas dentro e fora da Amazônia - afetam o
funcionamento biológico e bioquímico da floresta. "Se entendermos
isso, poderemos dar um valor econômico e ambiental para a floresta e,
mais tarde, cobrar por isso", comentou.
Para Luizão, as pesquisas do LBA podem
construir uma base científica confiável para a floresta amazônica se
tornar um valioso bem econômico, sem a necessidade de derrubá-la, já
que seria possível incluí-la nas negociações de crédito por seqüestro
de carbono. "A Costa Rica, por exemplo, já está ganhando dinheiro
com crédito de seqüestro de carbono por floresta nativa."