Corredor ecológico liga cerrado e Pantanal

 

Projeto conduzido por ONG ambiental tem US$ 2 milhões e deverá conectar parques e reservas privadas

02/10/2002

Rochelle Costi/Folha Imagem
Lobo-guará, uma das espécies beneficiadas pelo corredor


GABRIELA ROMEU
ENVIADA ESPECIAL A GOIÁS

Um corredor ecológico com 800 km de extensão será o elo de ligação entre ambientes do cerrado e do Pantanal, nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O objetivo é garantir de fluxo de espécies nessas regiões e evitar o colapso da fauna e da flora provocado pela ocupação humana do Centro-Oeste.
Construí-lo é o desafio de um grupo de 25 pesquisadores brasileiros, capitaneados pela organização Conservation International, no projeto Corredor Cerrado-Pantanal, que recebeu investimento de US$ 2 milhões para os primeiros cinco anos.
O corredor de biodiversidade, como é chamado, deve conectar áreas isoladas de mata a partir do Parque Nacional das Emas, no sudoeste de Goiás, até a região do Pantanal. Ele deverá interligar ambientes protegidos e reservas de propriedade particular.
Reinaldo Lourival, diretor regional da Conservation International no Pantanal, explica que a conexão entre os diferentes ecossistemas deve permitir que espécies animais e vegetais troquem genes e mantenham seus ciclos biológicos, garantindo, assim, sua sobrevivência a longo prazo. Espécies migratórias e de grande porte serão as mais beneficiadas.
Segundo Mônica Harris, coordenadora do projeto no Pantanal, quando animais de uma mesma espécie ficam acuados num território pequeno demais, num dado ambiente, o impedimento do fluxo de indivíduos diminui a diversidade genética do grupo. Sem a possibilidade de trocar genes, a espécie está excluída da capacidade de adaptação às mudanças ambientais e está, portanto, fadada ao desastre biológico.
Para evitar a reprodução dentro de um grupo isolado, pesquisadores detectaram regiões prioritárias para a conservação, escolhidas em função da existência de espécies endêmicas (que só existem numa dada região), da biodiversidade e dos problemas referentes à redução de área.
Alguns animais já estão sendo monitorados ao longo do corredor por métodos como o acompanhamento por rádio, a marcação de indivíduos e o inventário de espécies, entre outros.
É o caso de um grupo de onças-pintadas, monitorado pelo pesquisador Leandro Silveira, do Projeto Pró-Carnívoros, nas duas pontas do corredor: no Parque Nacional das Emas e na Fazenda Rio Negro, na região pantaneira. "A onça-pintada é bastante dependente do corredor, pois essa espécie é muito sensível a ambientes alterados", diz Silveira.

Semelhanças
Marcelo Gonçalves de Lima, pesquisador-associado da Conservation International do Brasil, explica que a importância da conectividade entre as duas regiões é devida às semelhanças de fauna entre o cerrado e o Pantanal. "Se existem pontos comuns, é interessante mantê-los conectados."
Isso fica mais claro quando são analisados os números do cerrado brasileiro, que correspondia, inicialmente, a 2 milhões de quilômetros quadrados do país.
A diminuição desse bioma ocorreu principalmente a partir dos anos 70, com a chegada de colonos gaúchos às regiões de cerrado, onde se tornaram grandes produtores agropecuários.
O desenvolvimento da agricultura e da pecuária na região fez com que 67% das áreas do cerrado fossem consideradas "altamente modificadas". Somente 20% estão preservadas.
"O cerrado é considerado um "hotspot" ["ponto quente" de biodiversidade", pois apresenta muitas espécies endêmicas e tem sofrido muitas reduções em seu território", afirmou Lima.
Já as ameaças ao Pantanal, a maior planície alagável do mundo, são majoritariamente derivadas dos problemas do cerrado. Vários de seus rios, por exemplo, nascem nas chapadas do cerrado.

Isolamento
No meio de extensas plantações de soja e campos de gado no Estado de Goiás está o Parque Nacional das Emas, uma reserva de terra de 132 mil hectares controlada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O parque recebeu o título de Patrimônio Natural da Humanidade da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) em 2001.
"Se nada for feito, a tendência é aumentar o isolamento do Parque Nacional das Emas", diz Leandro Baumgarten, pesquisador-associado da ONG Fundação Emas.
O mesmo problema ocorre com outros parques que estão nos limites do corredor ecológico (veja o quadro acima).
Uma saída para a preservação do cerrado tem sido a criação de condomínios de reserva legal, em que grupos de proprietários de terra que não estão cumprindo a lei de reserva legal (que é, no mínimo, de 20%) compram áreas fora de suas propriedades.
Segundo Paulo Augusto Prado, diretor da Conservation International do Brasil no cerrado, a alternativa já deu certo no município de Alto Taquari (MS). "O local concentra grande diversidade de carnívoros, como o gato-palheiro, o lobo-guará e a onça-parda."

Desafios
A missão do projeto Corredor Cerrado-Pantanal não é nada simples. "Cada animal tem uma característica. A ema e o veado-campeiro, espécies que ocorrem no cerrado, cruzam campos de soja com maior facilidade. Mas a maioria das espécies é sensível às alterações humanas", diz Lima.
Outra preocupação do grupo de pesquisadores é o surgimento de sumidouros, áreas que ficam sem recursos suficientes para a reprodução das espécies. "Por isso, é preciso identificar as áreas que não são boas para a conectividade", afirma Baumgarten.
Para Lourival, o principal desafio do projeto é resolver o conflito de interesses entre a atividade humana e a preservação da vida silvestre. "Temos de dar um passo atrás. Se as pessoas tivessem se preocupado com o ambiente antes, mantendo abrigo, alimento e local de reprodução para as espécies, não nos preocuparíamos com o corredor hoje", diz.

 

 

 
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