|
Arqueóloga encontra no Pará vestígios de uma cultura indígena desconhecida, que podem ajudar a esclarecer como os índios tapajós se relacionavam com os povos vizinhos |
02/10/2002
À primeira
vista, a coleção de pequenos cacos de cerâmica que repousa
sobre uma bancada num laboratório do Museu de Arqueologia e
Etnologia da USP não impressiona muito. Os fragmentos não
ultrapassam os 15 centímetros de diâmetro e são destituídos de
pinturas, decorações elaboradas ou qualquer outro indício de
que tenham sido produzidos por alguma civilização
tecnologicamente adiantada.
No entanto, esses mesmos caquinhos desenxabidos podem ajudar os
pesquisadores a responder questões fundamentais sobre as ditas
sociedades complexas que habitaram a Amazônia entre o século 4º
e o século 16, e cuja própria existência é motivo de debates
inflamados entre os cientistas. A aposta é da arqueóloga Denise
Cavalcante Gomes, do MAE. Ela vem estudando os fragmentos cerâmicos
e instrumentos de pedra que desenterrou ao longo do último ano em
Parauá, uma comunidade rural a 120 quilômetros ao sul de Santarém,
no Pará. Gomes acha que a região esconde informações preciosas
sobre a mais emblemática -e uma das menos conhecidas- culturas da
Amazônia pré-cabralina: a tapajônica, que produziu a elaborada
cerâmica Santarém e que foi relacionada pelos primeiros
cronistas europeus à lenda das Amazonas, as mulheres guerreiras
da mitologia grega que acabaram dando nome ao maior rio do mundo.
Por estarem na periferia da área onde tradicionalmente têm sido
desenterrados objetos típicos dos tapajós, os sítios arqueológicos
da área de Parauá trazem pistas sobre as relações daquele povo
com os vizinhos.
De quebra, também deverão apimentar a sopa de teorias propostas
desde a década de 50 para explicar a presença de padrões
culturais complexos na floresta tropical, um ambiente tido como
pouco propício à expansão demográfica e ao desenvolvimento
tecnológico, por consequência. Os primeiros europeus a visitar a
foz do rio Tapajós (atual cidade de Santarém) entre os séculos
16 e 17 certamente não concordariam com a idéia de que o
ambiente amazônico não comporta nenhum tipo de sociedade indígena
muito mais organizada que as que se vêem hoje na região. "É
a maior vila e povoação que por este distrito conhecemos até
agora", relatou o ouvidor português Maurício Heriarte, que
navegou pela região em 1662. "Bota de si 60 mil arcos quando
manda dar guerra, e, por ser muita a quantidade dos índios tapajós,
são temidos dos demais índios e nações, e assim se têm feito
soberanos daquele distrito."
Lenda
Antes de Heriarte, em 1542, o frade espanhol Gaspar de Carvajal
também relatara um encontro -bem menos amistoso- com os
habitantes de Santarém. Carvajal narra a morte de um companheiro
de expedição pelas flechas envenenadas dos tapajós: "Não
durou 24 horas, e deu a alma a Nosso Senhor". A destreza das
mulheres de Santarém no manejo das armas provavelmente alimentou
nos miolos do cronista, já bastante afetados pelo calor, a visão
das míticas amazonas. Ao que tudo indica, a sociedade tapajônica
exerceu influência sobre um território extenso no baixo Amazonas
e no Tapajós. Vestígios da elaborada cerâmica cerimonial
produzida por aquele povo indicam uma organização social bem
maior do que a das sociedades amazônicas atuais - que teria sido
minada pela conquista- e foram encontrados numa área de 180 mil
km2. O grande problema de Santarém, assim como o das demais
sociedades complexas da Amazônia, é que ela bem pode ter sido
produto de uma degeneração, não de um avanço. Alguns arqueólogos
acham que os tapajós e outros povos contemporâneos a eles, como
os marajoaras, eram na verdade imigrantes recentes dos Andes que não
conseguiram se estabelecer na selva. Trouxeram consigo inovações
culturais -como a produção de vasilhas coloridas e decoradas e a
tecelagem- e desapareceram tão depressa quanto chegaram. Os solos
pobres e a falta de animais domesticáveis na Amazônia teriam
impossibilitado a sua expansão demográfica. A hipótese foi
proposta pela arqueóloga americana Betty Meggers, que escavou na
Amazônia na década de 50. Desde então, tem sido testada e
refutada, ao menos em parte. A teoria das migrações andinas, por
exemplo, está praticamente rejeitada: evidências obtidas nos últimos
20 anos levam a crer que a cerâmica decorada da Amazônia foi
produto local. Outra hipótese que parece condenada é a de que
todas as aldeias pré-históricas da Amazônia eram pequenas. Um
único sítio na várzea do Amazonas escavado pela equipe de
Eduardo Góes Neves, também do MAE, poderia ter abrigado até 10
mil pessoas. "Um dos sítios que eu encontrei em Parauá tem
700 metros de diâmetro", contou Denise Gomes à Folha.
"Um outro tem 400 metros, e eu tenho quase certeza de que ele
seja um setor do sítio maior. E isso porque eles estão numa área
de mata de terra firme, que é considerada [ecologicamente"
mais pobre que a várzea", disse. No entanto, a duração das
ocupações nos grandes assentamentos ainda é um ponto em aberto,
principalmente na região da cultura tapajó, cujos limites ainda
são, na sua maior parte, desconhecidos. Também não se sabe como
os tapajós chegaram a dominar uma área tão grande: o mesmo povo
ocupava toda a região e falava a mesma língua? Havia um poder
central e tribos subordinadas? Ou havia simplesmente uma extensa
rede comercial pré-colonial, pela qual objetos -e influência política-
subiam e desciam o rio de uma tribo a outra?
Releitura
A pesquisadora da USP aposta nas duas últimas hipóteses. Após
quatro anos analisando a coleção de cerâmica tapajônica do MAE
para sua dissertação de mestrado -que acaba de ser publicada
pela Edusp em forma de livro, sob o título de "Cerâmica
Arqueológica da Amazônia"-, Gomes começou a reconhecer um
estilo próprio de produção de potes dos artesãos de Santarém.
"Você vê que esse estilo difere de todas as outras cerâmicas
da região, e permite dizer que uma peça saiu [da cidade] de
Santarém. E há indicações de que ele estava sendo copiado por
outras comunidades."
A idéia começou a ser testada em campo em maio do ano passado,
com a localização dos dois sítios em Parauá, a 5 quilômetros
da margem esquerda do Tapajós -a maioria dos sítios com cerâmica
Santarém estão na margem direita. "Eu queria um lugar
distante, na periferia, justamente para entender como a zona
central de Santarém se relacionava com o resto."
O que Gomes encontrou foram vestígios de uma cultura até então
desconhecida. As escavações revelaram cacos de cerâmica e
alguns instrumentos de pedra, como machadinhas, com marcas de uso
prolongado. Essa cultura, no entanto, "não tem nenhuma
associação com Santarém", segundo Gomes. As peças de
barro pertencem ao chamado estilo barrancóide, que teria
precedido as sociedades complexas amazônicas. Essa
"escola" de artesanato é marcada por peças simples,
com incisões feitas nas bordas e sem pintura colorida. "O
que eu encontrei foi uma típica sociedade de floresta tropical,
sem muita diferença das de hoje", diz.
Alguns detalhes no sítio, no entanto, sugerem algo mais que uma
simples tribo isolada de pescadores e comedores de mandioca.
Alguns dos fragmentos de cerâmica presentes em meio à miscelânea
de peças barrancóides têm exatamente o mesmo estilo das peças
tapajônicas. Não as "clássicas", provenientes de
Santarém, mas as tais "releituras" feitas provavelmente
por outros grupos da região. "Você vê que tem diferença",
diz Gomes, enquanto passa os dedos pela borda de um pedaço de
vaso, cheia de sulcos. "Em Santarém eles não faziam
isso", afirma a arqueóloga.
Até agora só foram encontrados dois cacos claramente associados
ao estilo da "escola" Santarém. Gomes descarta que eles
tenham ido parar no sítio barrancóide por acidente, ou em um período
posterior. "Estavam exatamente no mesmo nível. Foram usados
junto com o resto das peças", afirma.
Mas o que chama mesmo a atenção são os instrumentos líticos,
uma vez que aquela região do Tapajós não tem nenhuma jazida de
rochas. "As peças estão desgastadas demais, o que indica
que não deveria ser fácil conseguir pedras por ali. Eles usavam
até o toco", diz.
Os resultados preliminares das análises de Gomes, assim como duas
datações obtidas para os sítios de Parauá (uma do ano 1200 e
outra do ano 1300 d.C, o auge da cultura tapajônica), parecem
indicar que mesmo uma tribo menos adiantada tecnologicamente fazia
parte de algum tipo de rede regional de trocas. "Esses caras
claramente não estavam isolados", afirma. O nó central
dessa malha pré-colonial provavelmente era a aldeia de Santarém,
que produziu uma ideologia -traduzida pela cerâmica- que foi
incorporada pelas tribos "satélites" de ambas as
margens do Tapajós. Essas tribos não falavam necessariamente a
mesma língua dos moradores de Santarém (que, aliás, ninguém
sabe qual era), mas mantinham com a "capital" uma
comunicação constante e, ao que tudo indica, vital.
Se a hipótese proposta por Gomes vai se confirmar é coisa que não
se sabe. Os dados obtidos até agora também não permitem
estabelecer como Santarém integrava as outras aldeias: se na base
de um "despotismo esclarecido", como fizeram os incas,
no Peru, ou sob ameaça militar -há relatos coloniais inclusive
da prática de escravidão no Tapajós. Seja como for, o conceito
de tribos isoladas no meio do "inferno verde" da Amazônia
parece condenado a sumir da pré-história.
| RETORNAR INDEX | SUBIR DOCUMENTO |