France Presse - 23.mar.1998![]() |
Incêndio
em Mucajaí, perto de reserva indígena ianomâmi, em
Roraima |
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"Um Sopro de Destruição" mapeou textos de autores como José Bonifácio, Joaquim Nabuco e André Rebouças que alertam para as consequências sociais da destruição de florestas, erosão dos solos e dos desequilíbrios climáticos
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por Laymert Garcia dos Santos
Em 19 de junho passado o IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia Estatística) publicou, pela primeira vez, o relatório
"Indicadores de Desenvolvimento Sustentável", que veio
corroborar o que todos sabemos: do ponto de vista ambiental, o
padrão de desenvolvimento do Brasil é insustentável. Pior
ainda: dez anos depois da Eco-92, enquanto os dados comprovados
indicam que aumenta a taxa de desmatamento, de 2000 para 2001 o número
de focos de queimada detectados por satélite cresceu de 104 mil
para 145 mil. Constatação óbvia: a devastação continua
alegremente. Mas, na mesma notícia, o presidente do IBGE, Sérgio
Besserman Vianna, anuncia que o Brasil tem trunfos extraordinários
para mostrar na Rio +10, que começa em 26 de agosto, em
Johannesburgo, na África do Sul: "Temos uma natureza riquíssima
e uma população consciente e alerta para as questões do
ambiente. No entanto o país precisa combater a
desigualdade". Qualquer pessoa minimamente lúcida, ao ler o
parágrafo anterior, pensaria que há algo muito errado... ou
muito louco. E, no entanto, nem se pode dizer que algum dos seus
enunciados seja novidade: a convivência da banalidade do mal e do
ufanismo em relação à "nossa" natureza é tão
arraigada e tão antiga que já perdemos a noção do absurdo,
aceitando-o sem questionamentos. Parece que ainda não despertamos
de nossa conduta insana em virtude da dimensão continental do
Brasil. Havia e ainda há tanto para queimar que podemos seguir
por mais algum tempo na trilha inaugurada há 500 anos. E, quando
o líder indígena nos diz que a atitude dos brasileiros para com
a terra permaneceu fundamentalmente a mesma, que a mentalidade
predatória atravessou incólume todos esses séculos, somos
obrigados a reconhecer que, embora ele tenha razão, não estamos
dispostos a mudar. Até hoje há perguntas que nunca podem ser
feitas, que devem ser incessantemente recalcadas: por que
insistimos em considerar que a natureza brasileira era
"natural", isto é, não manejada, quando os portugueses
aqui aportaram, mesmo sabendo que milhões de indígenas habitaram
o território durante milhares de anos sem comprometê-la? Por que
a destruição sistemática dos recursos naturais só tem início
com a ocupação territorial pelos europeus? Por que consideramos
que o descobrimento e a colonização dão início a uma evolução,
e não a uma involução? Por que a superioridade da sociedade que
promove o desenvolvimento da destruição foi e continua sendo um
tabu?
Tradição esquecida
Tais questões foram suscitadas pelo auspicioso lançamento do
livro "Um Sopro de Destruição - Pensamento Político e Crítica
Ambiental no Brasil Escravista (1786-1888)" [R$ 29,50, 320 págs.,
Jorge Zahar Editor", no qual José Augusto Pádua lança uma
luz esclarecedora sobre o modo como a devastação foi percebida
no fim do período colonial e ao longo do império. Com efeito,
sua leitura reavivou uma forte sensação de desconforto com nossa
irresponsabilidade e principalmente nossa incapacidade de
transformarmos a consciência de que os recursos do país estão
sendo dilapidados numa ação efetiva que mude o curso das coisas.
O livro de Pádua tem, antes de tudo, o mérito de deslocar no
tempo uma discussão que se quer eminentemente contemporânea,
para mostrar que as gerações passadas já se preocupavam com
questões ambientais e, sobretudo, já viam o desmatamento como
uma questão política. Pádua faz parte da nova historiografia
que vem investigando as origens da controvérsia ambiental e
focalizando a importância das colônias tropicais européias para
o seu aparecimento.
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FAZENDEIROS, ESCRAVOS, ESTRANGEIROS, ESTADO... TODOS PARTICIPAM IMPUNEMENTE DA DEVASTAÇÃO, NINGUÉM É RESPONSABILIZADO POR NADA E NÃO HÁ MEDIDA LEGAL DE PROTEÇÃO QUE SE EFETIVE |
Como ele mesmo afirma na introdução, seu trabalho apresenta pela
primeira vez uma análise exaustiva do lugar do Brasil nesse
processo de rediscussão: "(...) Não resta dúvida,
comparado com o que tem sido descoberto em outros países, que
estamos diante de uma das maiores expressões nacionais, no período
anterior ao século 20, do que pode ser chamado de preocupação
intelectual com a degradação do ambiente. O material que fui
capaz de levantar incluiu cerca de 150 textos, produzidos por mais
de 50 autores, nos quais se discutiram de forma direta, em um período
de 102 anos, as consequências sociais da destruição das
florestas, da erosão dos solos, do esgotamento das minas, dos
desequilíbrios climáticos etc.". A descoberta, reconstrução
e análise desse corpus -efetuada a partir de um texto de José
Bonifácio escrito em 1823, que serviu de detonador da pesquisa-
produziram no cientista político a convicção de que se
encontrava diante de uma tradição, e não de um conjunto de
autores esparsos. Mais ainda: urgia recuperar tal tradição
esquecida para mostrar que discussão ambiental não é uma
importação descabida ou "fora do lugar" no debate político
brasileiro; muito ao contrário, sua própria existência já
indica que, no Brasil, sociedade e natureza vêm sendo pensadas
conjuntamente há muito tempo, muito embora essa reflexão sempre
tenha sido feita por correntes minoritárias da intelectualidade.
Reconstituindo a linhagem de pensadores que atravessa o século
19, Pádua mostrou que há entre eles um denominador comum: como
herdeiros do Iluminismo, todos trazem a marca de um enfoque político,
cientificista, antropocêntrico e economicamente progressista.
"Os pensadores (...) não defenderam o ambiente natural com
base em sentimentos de simpatia pelo valor intrínseco, seja em
sentido estético, ético ou espiritual, mas sim devido à sua
importância para a construção nacional. Os recursos naturais
constituíam o grande trunfo para o progresso futuro do país,
devendo ser utilizados de forma inteligente e cuidadosa. A destruição
e o desperdício dos mesmos eram considerados uma espécie de
crime histórico, que deveria ser duramente combatido." Nesse
sentido, a solução do problema ambiental pressupunha a revogação
da mentalidade e das práticas do colonialismo predatório e a
modernização do sistema produtivo e das instituições; pois,
como observa o autor, com argúcia, "a destruição do
ambiente natural não era entendida como um "preço do
progresso", como na visão hoje dominante, mas sim como um
"preço do atraso'". Daí o nexo causal entre escravidão
e devastação. Pádua analisa, portanto, o legado do primeiro
ciclo teórico da crítica ambiental brasileira, que se inaugura
em 1786 com o "Discurso" de Baltasar da Silva Lisboa,
primeiro ensaio escrito por um brasileiro com reflexões políticas
amplas sobre os problemas ambientais do país, e se fecha em 1888,
com a abolição da escravidão.
Iluminismo brasileiro
Estruturado em cinco capítulos, o livro parte da inserção dos
primeiros críticos no contexto do Iluminismo luso-brasileiro;
analisa a realidade predatória da economia colonial e o choque
que ela provocou nos intelectuais retornados da Europa; discute a
síntese político-ambiental apresentada pela obra de José Bonifácio
(1763-1838), considerado o fundador da crítica sistemática da
destruição ambiental no Brasil; e explora, nos capítulos
finais, duas vertentes da intelectualidade: a vertente da elite
imperial, que se preocupou com a degradação do território a
partir de um reformismo tecnológico e administrativo, e a
vertente abolicionista, que retomou o pensamento de José Bonifácio
e, através de Joaquim Nabuco, André Rebouças e Frederico
Burlamaque, definiu o fim do escravismo como condição necessária
para o estabelecimento de uma relação não-destrutiva com a
natureza.
Ao longo das páginas, o leitor vê evoluir a percepção da
constante queima das matas, do comprometimento das águas, da
destruição estúpida de animais e plantas, que hoje denominamos
biodiversidade. Fazendeiros, escravos, estrangeiros, Estado...
Todos participam impunemente da devastação, ninguém é
responsabilizado por nada e não há medida legal de proteção
que se efetive. Às vezes irrompe no texto uma ou outra menção
ao extermínio dos índios ou à sua "integração".
Como o comentário de Muniz de Sousa, em 1834, que escreve:
"Tenho ouvido alguns homens, que pensam filosoficamente,
dizerem que não há vida igual à dos índios, porque seguem a
ordem da natureza. Não duvido. Porém só enquanto não é
interrompida por nós, ou pela nossa ordem social, a qual é toda
contraditória com a ordem da natureza que eles seguem. Além
disso, ocorre mais que nós lhes temos tomado grande parte de seus
terrenos e matas e por consequência os temos privado de todos os
socorros e comunidades que lhes franqueou a natureza. Por isso
vivem em continuada miséria". Mesmo então, jamais é
questionada a necessidade de converter os povos indígenas em nome
do ideal do progresso.
Os intelectuais progressistas do império acreditavam que o fim da
devastação estava vinculado ao fim do escravismo. Apesar de eles
não deixarem de ter razão em muitos pontos, o tempo se
encarregou de mostrar que não era bem assim. É que o sopro da
destruição não procedia, "apenas", do sistema
escravista colonial, como pensava Nabuco. O próprio Pádua
escreve: "Apesar da rápida transição para o trabalho
livre, a permanência das queimadas e das monoculturas continuou
produzindo intensa destruição -destruição que, na verdade, foi
intensificada pela abertura de novas regiões florestais e pela
maior capacidade de impacto fornecida pela tecnologia
industrial".
Laymert Garcia dos Santos é professor do departamento de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas e autor de "Tempo de Ensaio" (Cia. das Letras).
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