Sonda Aqua aperfeiçoa previsão de chuva
02/10/2002
Até o final do ano um sensor brasileiro de apenas 60 kg a bordo
de um satélite espacial do tamanho de um microônibus vai aperfeiçoar
a previsão das chuvas pelo Brasil -e portanto contribuir para
diminuir os riscos de inundações, como as que certamente
castigarão a Grande São Paulo na próxima estação chuvosa.
O HSB -sigla em inglês para Sensor de Umidade para o Brasil
("Humidity Sounder for Brazil")- foi lançado em maio a
bordo do satélite americano Aqua, que faz parte de um abrangente
programa de observações espaciais da Terra, o EOS. O objetivo é
obter informações sobre as mudanças climáticas pelas quais está
passando o planeta, notadamente as causadas pelo homem.
"Estamos verificando os parâmetros de calibragem do
instrumento. Em agosto já teremos informações úteis para
pesquisa. E em seis meses os centros meteorológicos começarão a
assimilar os dados", disse Roberto Vicente Calheiros, da
Unesp em Bauru (SP), que ontem fez uma palestra na reunião da
SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) abordando
o tema.
O HSB é um instrumento que faz a varredura da atmosfera por
microondas para obter dados de intensidade de chuva, densidade de
nuvens e perfis de vapor d'água. Seu desenvolvimento por uma
empresa estrangeira -mas incluindo alguns componentes fabricados
no Brasil- foi coordenado pelo Inpe (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais), que também fez os testes iniciais de
calibragem em sua sede em São José dos Campos (SP). Técnicos do
Inpe depois integraram o instrumento ao satélite nos EUA.
"É o melhor instrumento hoje a bordo do satélite, com a
melhor sensibilidade", diz Calheiros. O sensor foi projetado
para se adequar às necessidades específicas do Brasil.
Dimensões continentais
Devido à sua extensão, o país é muito dependente de satélites
para a obtenção de dados que englobem todo o território. Há
regiões de difícil acesso, como o interior da Amazônia, onde é
mais complicado obter dados meteorológicos contínuos e de
qualidade.
Os comitês da comunidade científica internacional ligados ao
estudo das mudanças climáticas elegeram as principais informações
que precisam ser coletadas de modo sistemático para não só
melhorar a qualidade das previsões de tempo, como também obter
dados para os modelos de simulação do clima.
São coisas como cobertura do solo, coloração do oceano,
sondagens da atmosfera ou o balanço da radiação da Terra (o que
entra e o que sai de energia radiante, como a solar).
"Ainda não temos medidas confiáveis de umidade do
solo", diz Calheiros. E um dos maiores problemas em
sensoriamento ambiental continua sendo a redundância de informação
-os mesmos dados captados por satélites de diferentes países ou
instituições pelo mundo.
"É um conjunto muito complexo de variáveis", afirmou
outro pesquisador na palestra, Juan Ceballos, do Inpe. E essas
variáveis interagem dinamicamente.
Por exemplo, a fumaça das queimadas brasileiras - "um círculo
de fogo em volta da Amazônia"- cobre milhões de quilômetros
quadrados, e com isso altera a formação das nuvens e das chuvas
em uma vasta região, incluindo o Sudeste brasileiro, afirma
Ceballos.
O pesquisador do Inpe lembrou a dimensão da mudança que a ação
humana está provocando ao emitir gases, principalmente através
de atividades industriais, que ampliam o efeito estufa
(aprisionamento da radiação na atmosfera). "Nos anos 80 e
90 houve o maior aumento de emissões dos últimos 420 mil
anos", diz ele. Em 1800 o gás carbônico na atmosfera, o
principal causador do efeito, estava na proporção de 280 ppm
(partes por milhão); hoje, o índice está em torno de 360 ppm.
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