Governo Bush reconhece o efeito estufa
05/10/2002
A administração de George W. Bush reconheceu pela primeira vez,
em um novo relatório, que as emissões de gases-estufa por
atividades humanas são a principal causa do aquecimento global. A
Casa Branca antes dizia que não havia evidência científica
suficiente para culpar as emissões industriais pelo efeito
estufa.
Também é a primeira vez que o atual governo americano legitima
dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática),
grupo de cientistas que se dedica a apontar causas e consequências
do aquecimento global. Bush recentemente foi acusado de manipular
a eleição para a presidência do órgão, substituindo um
climatologista que criticava sua posição sobre o tema.
O relatório, divulgado pela EPA (agência de proteção
ambiental) na internet (www.epa.gov/globalwar
ming/publications/car/index.html), afirma que as emissões
americanas devem continuar a subir nas próximas décadas e
apontou o impacto que o aquecimento global deve ter nos EUA.
No documento, enviado na última sexta-feira às Nações Unidas,
o governo americano prevê que o total de emissões de
gases-estufa pelo país irá aumentar em até 43% entre 2000 e
2020.
Apesar do reconhecimento, os EUA permanecem afastados do Protocolo
de Kyoto, acordo internacional que objetiva a redução das emissões
e que foi ratificado pelos 15 países da União Européia também
na sexta, isolando de vez o país do debate internacional sobre
mudanças climáticas.
O relatório diz que as temperaturas médias no país devem subir
de 3C a 5C durante este século. Ecossistemas sensíveis, como as
campinas das Montanhas Rochosas, vão provavelmente desaparecer.
Regiões de floresta do sudeste podem ver "grandes transições
de espécies", mudanças nos seus padrões de crescimento.
A elevação do nível do mar em até 48 cm por causa do
aquecimento global poderia ameaçar construções, estradas, redes
elétricas e outras construções em áreas sensíveis, aponta o
documento. "Com maior nível do mar, regiões costeiras
poderiam estar sujeitas a maior dano por inundação e pelo vento,
mesmo que as tempestades tropicais não mudem em
intensidade", conclui.
Benefícios
Mas nem tudo é má notícia para os americanos. O relatório
enfatiza que o aquecimento global também traz benefícios
potenciais para a nação, inclusive aumento do crescimento de
florestas e do potencial agrícola no norte do país, já que os
verões tendem a ser mais longos, as chuvas mais frequentes e a
presença de dióxido de carbono estimula a fotossíntese.
O governo Bush repete em seu relatório que a política
alternativa a Kyoto apresentada em fevereiro, que se baseia em
medidas voluntárias para controlar as emissões por parte das
companhias americanas, é o melhor meio de retardar o crescimento
das emissões de gases-estufa.
Espera-se que uma estratégia voluntária "obtenha reduções
de emissões comparáveis às prescritas pelo Protocolo de Kyoto,
mas sem as ameaças ao crescimento econômico que os limites de
emissão rígidos trariam".
"É importante seguir com a estratégia do presidente para
responder ao desafio da mudança climática, e isso é o que
estamos fazendo", diz Scott McClellan, um porta-voz da Casa
Branca, quando questionado sobre o relatório.
A administração também se defende apontando que os EUA lideram
os investimentos mundiais em ciência climática e que gastaram
mais de US$ 18 bilhões em pesquisa desde 1990.
"Eu acho o relatório altamente significativo", disse à
Folha José Goldemberg, secretário de Estado do Meio Ambiente de
São Paulo e membro do IPCC.
Segundo ele, o movimento dos EUA pode ser o resultado de pressões
do setor empresarial americano, que deseja participar do mercado
de controle de emissões aberto pelo Protocolo de Kyoto que passa
a ser usufruto da Europa com a ratificação.
"Ou [Bush] demite a chefe da EPA ou isso é uma preparação
para uma mudança de posição."
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