Estudo aponta salto em carbono no Brasil
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Termelétricas,
como esta, em Uruguaiana (RS), devem ajudar a elevar emissões
de gases-estufa |
Pesquisador
da USP diz que, em 2020, emissões domésticas de gás carbônico
serão equivalentes às da Índia hoje
05/10/2002
O Brasil mais do que triplicará suas descargas de CO2 na
atmosfera em 2020 e poderá chegar próximo dos níveis atuais dos
grandes emissores do mundo se mantiver o modelo energético
vigente. A previsão é de um pesquisador da USP, num livro que
aponta a insustentabilidade do uso da energia no país.
Para o engenheiro Célio Bermann, do IEE (Instituto de Eletrotécnica
e Energia) da USP, as taxas atuais de crescimento da demanda por
combustíveis fósseis lançarão o país na contramão do
Protocolo de Kyoto nas próximas duas décadas. Das atuais cerca
de 80 milhões de toneladas de carbono que o país lança
anualmente na atmosfera na forma de CO2, o volume de emissões
poderia chegar a algo em torno de 290 milhões em 2020.
É esse o nível de descargas de carbono da Índia, país que,
apesar de subdesenvolvido, é o quinto maior emissor de gás carbônico
do planeta. O Reino Unido, sétimo emissor mundial do principal gás
causador do efeito estufa, despeja na atmosfera 143 milhões de
toneladas de carbono.
No livro "Energia no Brasil: Para quê? Para quem?",
publicado em fevereiro (Fase/Editora Livraria da Física), Bermann
traçou dois cenários para o futuro da utilização de energia no
país. No primeiro, o "cenário tendencial", é mantida
a taxa de crescimento do consumo -5,1% ao ano.
Nesse panorama, as emissões cresceriam principalmente devido ao
aumento do consumo de derivados de petróleo -principalmente gás
de cozinha, cuja rede de distribuição aumenta no país, e óleo
diesel, para atender o sistema de transporte- e da instalação
das termelétricas a gás natural previstas pelo PPT (Programa
Prioritário de Termelétricas) do governo federal.
"É um cenário claramente insustentável", diz Bermann.
"Isso considerando que a eletricidade no Brasil continuará
dependendo muito [70%] das hidrelétricas [que não usam combustíveis
fósseis para funcionar]."
Poluentes
Além de aumentar as emissões de gás carbônico, as 49 termelétricas
(42 delas a gás natural) inicialmente previstas pelo PPT trariam
um segundo problema: um acréscimo nas descargas de óxidos de
nitrogênio (NOx), que, além de contribuírem para o aquecimento
da Terra, são poluentes do ar.
Segundo Bermann, o conjunto das termelétricas do PPT responderia
por 50,9 mil toneladas diárias de NOx na atmosfera. "A
legislação ambiental brasileira não prevê padrões de emissão
para o NOx, principal poluente das termelétricas a gás
natural", afirma o pesquisador do IEE.
"Portanto, não seria excessivo supor que a inexistência de
padrões ambientais para o NOx, num contexto de expansão da geração
termelétrica a gás natural, se constitua numa fonte de
conflitos", continua Bermann.
Segundo o Ministério das Minas e Energia, as projeções do livro
constituem apenas estimativas, "que se estendem para além
dos limites do PPT, que irá até 2004".
O MME afirmou ainda, por meio de sua assessoria de imprensa, que
"seria necessário conhecer os critérios adotados no
estudo", já que o gás natural é o mais "limpo"
dos combustíveis fósseis.
Num segundo cenário, que o pesquisador chama de "sustentável",
a participação dos combustíveis fósseis na receita energética
do país deveria cair em 43% em comparação com o cenário
tendencial. Seria evitada a emissão de 370 milhões de toneladas
de CO2, o que corresponde a cerca de 100 milhões de toneladas
carbono.
A maneira de chegar a esse ponto não parece simples: o país
precisaria reduzir sua demanda por combustíveis fósseis,
especialmente na indústria e nos transportes. "O Japão, com
a crise de energia dos anos 80, reorientou toda a sua produção
industrial. Nós deveríamos fazer o mesmo."
Também seria possível, segundo o pesquisador, aumentar a
participação das energias renováveis, como a eólica. "O
Brasil tem 29 mil megawatts de potencial eólico. Por que não
usar só 10% disso nos próximos quatro anos?"
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