Falta de estatísticas ambientais prejudica avaliações
Dados sobre o estado de saúde de ecossistemas foram menosprezados nos últimos 50 anos, diz presidente do IBGE
12/10/2002
A falta de dados e estatísticas ambientais consistentes em escala
nacional é um dos problemas mais citados por ambientalistas e técnicos
que trabalham na área. A divulgação ontem da publicação
"Indicadores de Desenvolvimento Sustentável", do IBGE,
evidenciou essa questão.
Para o presidente do instituto, Sérgio Besserman, há uma carência
de estatísticas ambientais: "Houve descaso na produção
dessas estatísticas no Brasil e no mundo nos últimos 50 anos. O
mundo acordou tarde para essa necessidade", diz Besserman.
O desconhecimento, patente nos chamados países megadiversos
-detentores da maior parte da diversidade biológica do planeta-,
acaba se refletindo, por exemplo, nas estatísticas de extinção,
geralmente subestimadas.
"Há uma crise de biodiversidade e a ciência não sabe, por
exemplo, se o número de espécies animais no planeta é da ordem
de 1 milhão, 10 milhões ou 30 milhões", diz o presidente
do IBGE.
Ele afirma, no entanto, que o Brasil não está muito pior do que
os países desenvolvidos. "Em todo o mundo, há uma enorme
carência de estatísticas ambientais", afirma o presidente.
João Paulo Capobianco, do Instituto Socioambiental, diz que essa
necessidade já estava evidente desde a realização da conferência
mundial Eco-92, em 1992, no Rio.
"Esse problema foi detectado antes da Eco-92, quando o
governo brasileiro teve de preparar o relatório do país e,
naquela ocasião, já se configurava o óbvio: não tínhamos
indicadores nacionais. Foram feitas várias orientações nessa
direção, mas pouco foi implementado", diz Capobianco.
Ele defende que o IBGE atue de maneira "menos
conservadora": "O IBGE deveria ter uma postura mais
formuladora de estatísticas nesse processo. Não pode apenas
fazer compilações de dados de outras fontes".
A maioria dos indicadores ambientais apresentados pelo instituto
na publicação teve como fonte ministérios, governos estaduais e
outros órgãos ligados ao ambiente, mas nada original.
Qualidade do ar
A falta de estatísticas em nível nacional fica evidente, por
exemplo, no indicador de qualidade do ar. O único dado
apresentado sobre o assunto foi monitorado pela Cetesb (Companhia
de Tecnologia e Saneamento Ambiental de São Paulo) e abrange
apenas a região metropolitana de São Paulo.
O indicador mostra que, de 1995 a 1999, houve um aumento no número
de violações da qualidade do ar causada por ozônio e diminuição
das violações causadas por monóxido de carbono.
Na questão do uso de fertilizantes e pesticidas por agricultores,
por exemplo, foi possível ao IBGE aferir a quantidade dispendida
nos plantios nacionais, mas o dado que seria mais relevante -o
quanto esses produtos foram utilizados de forma adequada na
agricultura- acabou ficando de fora (leia texto abaixo, à esq.).
O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, reconhece que
é preciso ampliar e melhorar as estatísticas ambientais.
"Desde que decidimos realizar, com o IBGE, essa publicação,
sabíamos que uma das lacunas da gestão ambiental era a falta de
indicadores", disse Carvalho à Folha, por telefone.
Para o ministro, os indicadores são necessários até para
estabelecer metas a serem acompanhadas pela sociedade. "As
estatísticas são fundamentais até para que a sociedade possa
acompanhar a evolução das questões ambientais no país. É
preciso estabelecer metas de qualidade para essa questão no
Brasil", diz.
Segundo ele, o ministério usará parte dos recursos do Banco
Mundial para o Programa Nacional do Meio Ambiente, da ordem de US$
300 milhões para os próximos dez anos, a fim de melhorar a
qualidade do monitoramento dessas questões.
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