Grupo prepara "projeto genoma" do clima

Efeito estufa pode estar causando redução do hábitat de araucárias, como as de Santa Catarina 

Estudo em larga escala deve avaliar os efeitos do aquecimento global sobre os principais ecossistemas brasileiros

05/10/2002
Pesquisadores de diversas instituições estão preparando aquilo que pode ser considerado o "projeto genoma" do clima brasileiro. Durante quatro anos, eles avaliarão os efeitos do aquecimento global sobre os ecossistemas do país até o fim do século.
O projeto, que tem custo estimado em cerca de US$ 2 milhões, tentará projetar como as mudanças climáticas globais estão alterando e irão alterar hábitats como a Amazônia, o cerrado e a mata atlântica, o regime de chuvas e a distribuição das espécies.
Trata-se do primeiro estudo climático em larga escala a integrar todos os principais biomas (conjuntos de ecossistemas) do Brasil. Um dos objetivos, afirmam os seus coordenadores, é produzir dados para tomada de decisão pública em áreas como conservação de espécies, agricultura e energia. Outro é capacitar pesquisadores brasileiros -como fizeram os projetos genoma nos últimos anos- para desenvolver modelos climáticos, uma habilidade necessária num planeta que está cada vez mais quente.
"Hoje nós dependemos de modelos de fora para esse tipo de análise", disse à Folha o ecólogo Enéas Salati, diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável e um dos coordenadores do projeto.
Segundo Salati, um dos resultados esperados será um atlas do clima e das chuvas no Brasil, que leve em conta variações provocadas pelo aquecimento geral da atmosfera. Isso poderia ser útil para a Agência Nacional das Águas e para o Ministério da Agricultura.
"Ninguém consegue prever o regime de chuvas no país", afirmou o climatologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), outro coordenador do estudo.
Não se sabe, por exemplo, em que lugares do país o aumento das temperaturas médias está elevando as precipitações (por causa da maior evaporação) e onde está deixando o clima mais seco.
"Vamos ter de aperfeiçoar esse tipo de modelo aqui", afirmou o pesquisador do Inpe.
O projeto vai usar dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) para reconstituir o clima brasileiro desde 1870. A data é considerada um marco nos modelos climáticos por marcar o início do período mais intenso da Revolução Industrial. Foi então que a interferência humana no clima passou a ser detectável, com o aumento das descargas de gases-estufa (especialmente o gás carbônico) na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis, como o carvão.
As projeções se estenderão até 2100, ano em que, segundo os cenários climáticos do IPCC, a Terra estará até 5,8C mais quente e os oceanos terão subido de nível até 88 centímetros, em média.
"Vamos poder saber o que já mudou e prever o que vai mudar", disse Salati.

Migrações
É esperado, por exemplo, que se detectem mudanças nos biomas. A subida média dos termômetros no planeta, de 0,6C no último século, já está provocando há pelo menos 40 anos a migração de florestas inteiras no hemisfério Norte. Na região dos Alpes a vegetação tem se deslocado vários metros montanha acima, para zonas de temperatura mais amena.
Não há dados sobre esse tipo de deslocamento na América do Sul, mas Salati acha que algo parecido pode estar acontecendo no Brasil -com as matas de araucária da região Sul, por exemplo.
"Elas vivem em isotermas [linhas de temperatura" bem definidas", afirmou. "A probabilidade de ocorrência aumenta ou diminui conforme a temperatura." O estudo irá gerar modelos de computador para saber se está havendo migração, o que reduziria a ocorrência das araucárias.
Outra fronteira que pode estar mudando é a da Amazônia com o cerrado, que é dada em razão da quantidade de chuvas em determinadas épocas do ano. "Vamos poder saber se a Amazônia expande ou se o cerrado expande", afirmou Salati.
Para os estudos da Amazônia, o projeto -que conta, ainda, com a participação de pesquisadores da USP, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e de consultores independentes- deverá usar dados do LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia), o maior estudo sistemático já conduzido em um único bioma.
"Mas esse não é um projeto de observação", disse Nobre. "É um projeto de modelagem, feito em computadores. E está muito longe de esgotar a questão."

 

 

 
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