Gelo da Groenlândia acelera rumo ao mar
Estudo
americano mostra ritmo de desprendimento maior que o previsto,
apontando subida do nível dos oceanos
05/10/2002
A velocidade com que as calotas polares da Terra estão
desaparecendo devido ao aquecimento global pode ser maior do que
se imaginava. Cientistas dos EUA descobriram que parte da capa de
gelo da Groenlândia escorre mais depressa rumo ao mar em anos de
verão mais quente.
Até agora, achava-se que o aquecimento da atmosfera só afetasse
a superfície das calotas polares. Como elas têm até centenas de
metros de espessura, os cientistas pensavam que pudesse levar de
centenas a milhares de anos para que o efeito do calor adicional
fosse sentido na sua base.
Num estudo publicado ontem na edição on-line da revista científica
americana "Science" (www.sciencexpress.org),
um grupo de pesquisadores liderado pelo glaciologista Jay Zwally
constatou que não é bem assim.
Medindo com o auxílio de satélites a velocidade de escoamento da
calota polar no centro-oeste da Groenlândia, o grupo descobriu
que ela cresceu em anos nos quais o derretimento do gelo
superficial foi maior que a média.
A massa glacial na região estudada escorre normalmente 31,3 centímetros
por dia mais rápido no verão do que no inverno. Em 1996, ano em
que o derretimento do gelo na superfície ficou um pouco abaixo da
média, essa velocidade cresceu 1,5 cm/dia a mais. Em 1998, um ano
quente no qual o derretimento fico acima da média, o deslocamento
acelerou em 8,8 centímetros por dia.
Segundo os pesquisadores, isso acontece devido a um efeito há
muito conhecido, mas que não era levado em conta para calotas
polares no verão: a chamada lubrificação basal.
O nome é engraçado, mas o fenômeno é muito simples: nos meses
de verão, partes da capa de gelo derretem e viram lagos ou poças
d'água. Essa água escorre por fendas na geleira até atingir a
sua base, diminuindo o atrito com o leito rochoso e fazendo com
que a massa de gelo escorregue.
"Ninguém imaginava que a água pudesse viajar tão rápido
210 metros gelo abaixo", disse Zwally, que é pesquisador da
Nasa.
Ele diz que é cedo ainda para saber se a aceleração observada
é de fato uma tendência. Mas, se for, os climatologistas podem
adicionar um demônio aos seus pesadelos. Afinal, a Groenlândia
representa, juntamente com a Antártida, cerca de 97% do gelo
continental do planeta. Por gelo continental entenda-se aquele que
é capaz de causar elevação no nível dos mares se derretido -o
que não acontece com as capas de gelo flutuante do Ártico, por
exemplo.
A aceleração no escoamento por lubrificação basal significa
que as geleiras estão perdendo mais água do que ganhando pela
queda de neve. Isso aumenta a contribuição do gelo derretido na
Groenlândia para o nível do mar, algo que não fazia parte das
estimativas atuais -segundo as quais as águas poderão subir até
88 cm no fim do século.
"É um novo processo, que não estava sendo
considerado", disse Zwally à Folha, por telefone.
O mesmo fenômeno pode estar acontecendo na região da península
Antártica, uma das áreas do planeta que mais esquentaram nos últimos
50 anos.
"Normalmente se espera que uma geleira vá responder [ao
aumento na temperatura] em 30, 50 anos", disse o
glaciologista Francisco Eliseu Aquino, da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. "Mas a água vai ao fundo com rapidez em
geleiras periféricas."
Aquino afirma que o volume de água líquida na base da capa de
gelo da ilha Rei George, onde o Brasil faz pesquisas, tem
aumentado. Só naquela região, o gelo já recuou 10% entre 1956 e
2000. A quantidade de sedimentos arrastados pelas geleiras para o
mar também aumentou, segundo estudos do próprio Aquino, o que
indica que a lubrificação está ocorrendo. "O evento passa
a ser importante", disse o cientista.
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